quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo!



Tempo
Olavo Bilac

Sou o tempo que passa, que passa

Sem princípio, sem fim, sem medida!
Vou levando a ventura, e a desgraça,
Vou levando as vaidades da vida!

A correr, de segundo em segundo,

Vou formando os minutos que correm...
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que passam e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos...

Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos
Formo um século e passo adiante.

Trabalhai porque a vida é pequena,
E não há para o tempo demoras!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!

Queridos amigos, vamos aproveitar o tempo da melhor maneira possível, cultuando o amor e a amizade, plantando as sementes da esperança e da fé num mundo melhor, distribuindo solidariedade, caminhando lado a lado com a ética e a justiça, exercendo a paz, preservando a natureza, acreditando em um alvorecer sem fome e indigência e acima de tudo dando valor ao nosso bem mais precioso: a vida.
Obrigada a todos que estiveram neste palco de emoções, atuando ou assistindo. Que no novo ano possamos continuar juntos, mantendo sempre acesa a nossa luz interior.
Feliz 2011!
Marise Ribeiro

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Gilda Haubert



Espírito de Natal

Estava eu no burburinho daquela rua, comprando presentes para o Natal, mas sentia-me vazia...
Porque presentes de Natal para quem tem tudo?
Não falta lar, não falta comida, não falta roupa, não falta nem felicidade!
Mas mesmo assim pensando, continuo. Compro presentes de Natal para meus filhos, meus amigos, para quem eu quero bem ou devo favores, coisas assim...
Gasto rios de dinheiro, canso meus pés e já sinto a hora de voltar para casa quando passo em frente de uma igreja.
Passar defronte de uma igreja me causa algum impacto, pedaços da infância que me voltam à mente! Mamãe me levava à igreja e dizia ali morar o Papai do Céu. Vamos fazer-lhe uma visita? Vamos agradecer a Ele tudo o que temos e somos. E entrávamos de mãos dadas, numa atitude de respeito nos benzíamos, nos ajoelhávamos e rezávamos:Pai Nosso, que estais no Céu...
E, recordando tudo isso é que, ao passar defronte daquela igreja, senti vontade de entrar. Não posso definir bem o sentimento que me levou a fazer esta visita ao Pai do Céu, mas entrei... e repeti o ritual, me benzi, me ajoelhei e comecei a rezar...não mais aquela reza de criança Pai Nosso que estais no céu...
Não queria mais o Pai no céu, eu O queria ali, bem perto de mim, pois com Ele por perto, as coisas mudariam... Por isso eu precisava Dele ali ao meu lado. Queria senti-lo bem próximo, tanto que até pudesse tocá-lo, se quisesse...
E continuei a rezar minha reza improvisada. Eram quase só pensares o que povoava minha mente e inquietava minha alma...
Mas, continuava sozinha naquela igreja silenciosa. Rezei, pensei, pensei... Rezei, pedi, pedi saúde para os meus, proteção e forças para seguir minha jornada e me preparei para sair.
Olhei mais uma vez para o Menino Jesus que estava nos braços de sua Mãe Maria naquele altar bonito! Ele era loiro, cabelo cacheado, acho que olhos claros..
E eu queria tanto que o Pai do Céu estivesse ao meu lado...
Dirigi-me à porta, silenciosa, cabeça baixa, ainda pensando no Jesus Menino tão singelo nos braços de sua Mãe Maria, quando nos degraus vi um menino estendendo a mãozinha para receber um troquinho...
Ele era loiro, cabelos cacheados e olhinhos claros talvez e eu queria tanto o Pai do Céu perto de mim que olhei novamente para aquele altar...
E Maria estava sem seu Filho nos braços...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Anna Peralva




Se Possível, Eu Queria...

Queria...
Ah, como eu queria!...
Ver fagulhas-brilhos luzindo
num crescente límpido manancial,
a luz mansa que transforma
apartando as forças do mal!
Queria, em gotas de emoção
o farol cristalino que alumia
corpo, alma e coração!

A pureza no olhar criança
aclarando almas arredias
oprimidas pela solidão!
O sorriso de amizade correndo
nas vestes de um novo tempo
e olhos-águas santas
lavando passados e tormentos.
A verdade em palavras mansas,
a paz laços-abraços construindo
num entrelace de mãos!
Ver, sentir a fé-força renascendo
orvalhada de esperança
nos votos castos da oração.

Queria de uma só vez
a vida sem faz de conta!
O Jesus Menino humilde
distanciando toda a altivez
trazendo floradas de harmonia
entre os povos do mundo
e a irmandade refletindo
qual milenar lampião.
Dos profundos mares fundos
a serenidade que aponta
em ondas suaves e diáfanas
o emergir da união!

Uma alvejada calmaria
da Terra Mãe fluindo
e a felicidade, elevando-se
às alturas atingindo.
Um clarão de bênçãos
fertilizando o nascer do dia.
No ventre de uma nova realidade
a bondade ressurgindo
sem mantos de vaidades.

Ainda, se fosse possível
eu queria:
mais homens e menos deuses!
O ser humano evoluindo
em sua espiritualidade
e altares falsos ruindo!
Queria mais chão floreado
e menos asfalto frio,
sombreado...
Uma estrada mais florida
de justiça e igualdade
a divina sabedoria
traçando nossa caminhada!

Que o eterno aprendiz “ser”
sempre soubesse
nas horas reconstruídas
a precisa valia
do seu desenvolvimento.
E que o querer ter
fosse o necessário
para se poder viver
dignamente,
sem distinção de criatura!

Que a liberdade
não tivesse correntes!
Que o real sentido da Natividade
estivesse intenso e presente
em todos os nossos dias.
Que o livre-arbítrio
não se descompassasse
trazendo atritos
à matéria fraca e sensível
pois não há quem não passe
nesta viagem de aprendizado.

Queria uma chama silente,
alva, como as claras manhãs
sussurrando todos os dias:
É NATAL!

E o amor, sentimento maior
acordando os amanhãs
num encanto sem igual!
Magia que se torna acessível
no perdão a ser conferido
no abençoar e ser abençoado
e agradecer sempre,
sem pressa para as preces!

É NATAL!
Não mais existe
sonho impossível!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Euriano Sales



O Nascimento de Jesus. Um Cordel Sobre o Natal

Dos doze meses do ano

O de dezembro é o mais bonito
Todo mundo prega a paz
Confraternizam em nome de Cristo
Mas ai daquele que não der um presente
Pode gerar até um conflito

É verdade, é assim que acontece
E por favor não me interprete mal
Pois esse mês tão lindo que eu disse
Também é o mês mais comercial
Nascimento de quem? Jesus?
Eu quero é meu presente de natal

Ninguem lembra do começo de tudo
Mas pode deixar, vou refrescar sua memória
Há muito tempo, lá em Belém
Deu início a essa bela história
Do verdadeiro dono da festa
Digno de toda honra e glória

Houve um período na história
Que Deus se calou pro seu povo
Foram cerca de 400 anos
Até surgir um profeta novo
O nome dele seria João
Responsável por esse renovo

Zacarias era um homem bem velho
E Isabel também bem veinha
Ter um minino nessa altura do campeonato
Só podia ser piada de vizinha
Mas como Deus não é homi de piada
Fez nascer justo de onde não vinha

Gabriel, o arcanjo do Senhor
Disse a Zacarias que ele ia se papai
O homi se espantou com aquilo
E disse que não, jamais
Gabriel olhou e disse pra ele:
Tu pensa que eu sou anjo paraguai?

Eu sou é servo de Deus
Que mandou esse recado trazer
Mas como você tá duvidando
Se prepare pro que eu vou fazer
Vai ficar sem falar uma ruma de dia
Até o minino nascer

E assim foi o acontecido
Isabel, bem veinha, embuchou
Zacarias continuava mudo
Mesmo assim a Deus adorou
A mulher já tava com seis meses
Quando o anjo do céu retornou

Mas dessa vez bateu noutra porta
Na de Maria, prima de Isabel
Ela era uma moça bem jovem
Abençoada por Deus, mulher fiel
Ele disse que ela ia ter um minino
Jesus, o nazareno, o Emanuel

Por ser virgem ela achou impossível
Mas não quis do senhor duvidar
Já José, seu noivo na época
O casamento ele quis cancelar
Mas o anjo explicou tudinho
E José se apressou pra casar

Deus quando fala, fala é direito
E toda promessa Dele é confirmada
Esse negócio que o Senhor mandou dizer
Sem confirmação é tudo furada
Tu acredita que Deus confirmou ainda mais
A promessa que já foi aprovada?

Maria foi visitar Isabel
E na chegada a cumprimentou
Isabel quando viu Maria
O minino no bucho balançou
Sabia nem que a outra tava gravida e disse:
Acredite Maria, no que o anjo falou.

Isabel teve o minino
E o povo doido pra saber o nome
Disseram pra por Zacarias Filho
Ela disse que era João e batista o sobrenome
Eles insistiram em chamar Zacarias
E o pai sem falar, escreveu sem cognome

Cognome é o mesmo que apelido
Ele escreveu bem direitin o nome de João
Poderia ter escrito Joazin
Mas o anjo não tava de brincadeira não
Zacarias voltou a falar
E essa história correu a região

Naquela época também tinha IBGE
Que contava o tamanho da população
Mas se eu sou do ceará e morava em alagoas
A contagem não valia não
Tinha que voltar pra minha terrinha
E me apresentar ao escrivão

Foi numa dessa que nasceu Jesus.
José e Maria moravam em Nazaré
Foram a Belém pra tal contagem
150 kilômetros de viajem a pé
O jumentinho era só pra Maria
Coitado dos pés de José

A cidade tava lotada
Não tinha vaga em nenhuma pensão
O minino se aprontou pra nascer
Maria já tava com um barrigão
Correram pra uma estrebaria
E cadê ter médico de plantão?

Jesus nasceu ali mesmo
Simples como devemos ser
Não teve médico, nem enfermeira
Mas Deus assim quis fazer
Pra servir de lição para muitos
Que querem tanto aparecer

Deus se encarregou da Festa
Teve até chá de bebê
Fez nascer no céu uma estrela
Para que todos pudessem ver
Que ali nasceu o minino
Que por nós irá vencer

Três pastores ao ver a estrela
Se perguntavam o que era aquilo
O Anjo de Deus foi até eles
E disse: Rapaz, fique tranquilo
Nasceu o Rei de vocês
Vão lá visitar o pupilo

Os homens pensaram em palácio
E foram até o Rei Herodes
O perguntaram pelo rei que nasceu
- Que rei? Se eu sou o lorde?
O cabra ficou enjuriado
E Chamou o sacerdote

Me diga onde vai nascer o Messias
E fale logo que eu tô aperriado
Responderam que era em Belém
O cabra ficou agoniado
Chamou os pastores pra conversa
E mentiu bem descarado

Vão até lá e achem o minino
Depois voltem pra cá
Quero que me digam direitinho
Onde o Rei pode estar
Pois também quero ir
Me prostar e adorar

O pastores sairam dali
Acreditando que era verdade
O anjo de Deus os guiou
Há uma certa maternidade
Onde nasciam os cavalos e bois
Dos homens daquela cidade

Sentiram a presença de Deus
E choraram aqueles pastores
Quando viram o minino ali

Sem luxo, riqueza e valores
Estava ali o Rei dos Reis
Príncipe da paz, senhor dos senhores


O chá de bebê de Jesus
Aconteceu naquele momento
Ao invés de fralda tinha ouro
De chupeta tinha incenso
Foi dado até um pote de mirra
Como forma de agradecimento

Deus disse pra eles em sonho
Pra mudarem o caminho da volta
Pois Herodes estavam esperando
Armado com sua escolta
A fim de pegar o minino
E fazer uma reviralvolta

Deus disse também a José
Pro Egito ele fugir
Pois o rei ia matar
O bebê nascido ali
Jesus o nazareno
Descendente de Davi

Do Egito eles foram
Conforme disse a profecia
Para a terra de Nazaré
Onde ele cresceria
Foi batizado por João
O filho de Zacaria.

Essa sim é a história
Que todos devemos lembrar
Que eu saiba Jesus não era gordo
E de trenó não costuma andar
E foi dele o maior presente
A salvação que vamos herdar

Isso mesmo, a salvação
Está guardada pra você
Basta olhar pra Jesus Cristo
E entregar o seu viver
Ele é o grande Deus
Pra você servir e crer

Caso queira assistir ao vídeo sobre o cordel, é só clicar na imagem.

Fonte: Cordel Cristão , do autor Euriano Sales

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fluminense - Tricampeão Brasileiro 2010



Parabéns ao meu querido tricolor! Parabéns ao time de guerreiros!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Laurel, Hardy e Santana



Aprecie o encontro dos geniais Laurel e Hardy com o também genial músico Santana, em mais uma ótima montagem virtual.
É só clicar na imagem e se deixar levar por Oye Como Va.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Clarice Lispector



Amor à Terra

Laranja na mesa.

Bendita a árvore
Que te pariu.

sábado, 27 de novembro de 2010

Paz ao meu Rio de Janeiro

Aproveito o emocionante vídeo de lançamento da campanha Carinho de Verdade, do SESI, contra a exploração sexual de menores, para rogar pela paz na minha Cidade Maravilhosa.
Não se esqueça de dar pausa na play list musical do blog.
Caso você queira saber mais sobre a campanha, clique aqui.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Angela Lara



Bordado

Hoje tenho falhas na alma
nos dentes
na memória
Todos em falsetes
felizes e sorridentes
por terem me trazido até aqui

Hoje tenho marcas
que nem poderia dizer
são fundas
são frias
me ajudam a entender
que o amor é difícil
o amor é pra quem quer receber

Tenho marcas que nenhuma
mão consegue apagar

todas desenhadas com alegria
bordadas em renda fina
e rasgadas ao amanhecer
Tenho um cio que confunde a alma
transcende a calma
e me impede de morrer...

© Angela Lara
Porto Alegre (RS) – Brasil


Conheça a sensibilidade de Angela Lara, visitando–a em sua página no Recanto das Letras.

sábado, 20 de novembro de 2010

Ceres Marylise



Memória Genética
(Uma história verídica)

De portas, janelas, varandas enormes,
um tal casarão, de cômodos tantos,
propõe-me um pungente e triste encontro
com o que fui um dia, também ser humano,
mas traste inútil, nos tempos de antanho.

Num quarto imenso, lúgubre, escuro,
do fundo da casa, perto dos currais,
estão sepultados os mortos no tronco,
os negros escravos, pobres, indefesos,
tão brutalizados quanto os animais.

Próximo à cozinha, meio apodrecido,
ainda resiste um tronco com argolas:
grosso pelourinho, cravado no chão
de terra batida do que foi senzala,
guarida de escravos, nos idos de outrora.

Por longos instantes, ali eu reflito
e escuto os lamentos dos meus ancestrais:
vieram de longe arrastando negros,
arrastando índios, arrastando brancos;
genes milenares - trago os seus sinais.

No silêncio do tempo, com voz alquebrada,
ressoa mais forte, aquela mais triste...
delata a presença de todo um passado
de dor, inclemência, cruel, desumano
- do negro que sofre e ainda resiste.

Quantas espadas perfuraram os seus peitos?
Quantos braseiros queimaram seus corpos sãos?
Quantos chicotes rasgaram corpos inteiros?
Quanto sangue jorrou forte e indefeso,
enriquecendo aos senhores e às nações?

Inconformada, infeliz, rio como louca...
e parece que ouço o zunir dos chicotes,
o arrastar de correntes e infinitas dores,
presentes na alma, na carne e no sangue
- memória genética: escrava e senhora!

© Ceres Marylise

Nota da autora: O casarão colonial que se vê no filme ABRIL DESPEDAÇADO, com o ator Rodrigo Santoro, fez parte de minhas adolescência e juventude. A fazenda Santa Bárbara, município de Caetité-BA, foi do Barão de Caetité e com sucessivas posses, chegou a ser parte de minha herança. Hoje, ela é tombada pelo Patrimônio Histórico.

No Dia da Consciência Negra, o Scenarium presta uma homenagem àqueles que, mesmo espoliados, ajudaram a construir o nosso País. Os negros, trazidos da África como escravos, contribuíram na formação da cultura nacional. Além de ser um dia em homenagem à cultura afro-brasileira, é um dia de reflexão, para que construamos uma sociedade mais justa, com oportunidades e direitos iguais a todos.
Agradeço à Poeta Ceres Marylise e à artista e formatadora Denise Moura por autorizarem a publicação de suas criações.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Daysi Duarte



Perdoa...

Perdoa se te amei tão docemente
Que nem mesmo de amor eu te falei.
Na memória te fiz sempre presente
De tal forma que sempre te lembrei.

Perdoa se te amei tão mansamente
Que chegaste a pensar que não te amei.
Foi manso o meu amor, mas foi ardente,
De tal forma que aos poucos me abrasei.

Perdoa se te amei tão loucamente,
E tanto amor aos olhos te ocultei.
Perdoa se te fiz sempre presente
À memória e aos olhos, vivamente,
...E brandamente me afastei.

© Daisy Duarte
Visite Daysi em Sonhos e Saudade

Imagem: Designs by Daiva

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Elvis Presley e Martina McBride



Em 2008, quarenta anos depois da gravação original de Blue Christmas, na interpretação de Elvis Presley, a tecnologia uniu, no mesmo palco, Elvis e Martina McBride.

A entrada em cena de Martina, a reação do público, a sincronia do dueto e até a olhada dos dois, ao final do show, fazem desta montagem um espetáculo maravilhoso.

É só clicar na imagem dos dois e se transportar a 1968 ou, se preferir, a 2008. Depois é só clicar aqui, para saber como tudo foi feito.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Marise Ribeiro - Aviso das Bruxas?



Aviso das Bruxas?

October 31 – dia em que se comemora o Halloween, nos EUA, tradição cultural que nosso país tenta importar e eu me pergunto sempre: Por quê?

Encontrava-me em Manhattan, um dos distritos da cidade de Nova Iorque, no dia 31 deste ano e, por motivos alheios à minha vontade, em vez de participar da nossa festa democrática no 2º turno do pleito eleitoral, aproveitei o “exílio”, para entender o que representa o tão badalado Dia das Bruxas norte-americano.

Estive em Nova Iorque em outras oportunidades, mas nenhuma delas no dia dessa celebração.

No final da semana anterior, havia estado na Filadélfia, Pensilvânia, visitando minha irmã e meu cunhado, residentes daquela cidade. Vi alguns jardins ornamentados com abóboras, fantasminhas feitos com panos brancos ou com sacos de lixo pretos, teias industrializadas que mais pareciam algodões desfiados e alguns espantalhos. Entretanto, bem menos residências enfeitadas do que a quantidade criada pela minha expectativa. Casas assim significam portas abertas à distribuição de guloseimas.
Lá, segundo minha irmã, a data é festejada pelas crianças e pelos jovens que, fantasiados ou mascarados, batem apenas nessas casas assinaladas pelos enfeites. Afora a parte decorativa em imóveis e pessoas, é o nosso Dia de São Cosme e Damião.

Na ilha já é um pouco diferente. Em caminhadas pelas ruas nova-iorquinas, inclusive as residenciais, percebi que a decoração se concentra mais em abóboras nas calçadas do que nas casas. Crianças e adultos se fantasiam desde a véspera e vivem o seu cotidiano desse modo, com vestimentas engraçadas, exóticas ou apenas com adereços na cabeça. Trabalham, vão às compras, aos restaurantes..., como se aquelas roupas fossem casuais ou formais.

Para minha surpresa, não me deparei com monstros, bruxas, fantasmas, ou qualquer outra alusão ao terror, nas ruas da grande maçã. Cruzei com vários marios bros, alices, gatinhos, enfermeiras, abelhinhas, dinossauros, fadas, anjinhos, elvis e adereços singelos na cabeça. Resumindo: é um Carnaval pra lá de sem graça!

Uma das origens do Halloween é a de se comemorar o final do verão, porém, nessa data, o Hemisfério Norte já se encontra há um mês e 10 dias, inserido em pleno Outono. E, pra não dizer que não falei de folhas, ressalto o fascínio que me causa o colorido daquela estação lá, na real simbologia da renovação.

Naquela noite de 31 de Outubro, a uma temperatura de 6º C, fazendo um trajeto turístico que gosto de relembrar, subindo a Broadway, cruzando a 59 - rua do Central Park -, para depois descer a Quinta Avenida, voei como uma folha seca, ao sabor do vento gélido, e fui parar no chão. Levantei-me, sacudi a poeira, fiz cara de paisagem primaveril e continuei minha caminhada.

Nenhum sinal de buracos, degraus ou algo que acusasse o desequilíbrio. Será que já estou também no meu outono, despencando silenciosamente, ou teria sido um aviso das bruxas, por não haver apreciado o seu dia?...
Imagem: Bushkill Falls - Pensilvânia
Amigos, estou de volta e espero por vocês.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Irani Genaro



A Cerca

Pobre cerca de tábuas despencadas,
Eu sei por que tu choras, companheira...

Os anos pesam mais do que as ramadas
Ou galhos da rosada trepadeira!

E sempre que chegavam as floradas,
Teu corpo era engolido e, altaneira,
Tão repleta de flores tu ficavas,
Beijando a rama terna e tão faceira!


Tens hoje a alma triste e já sem sonho.

Dor de saudade é ramo assaz medonho
Que agora se debruça sobre ti!


Não te sintas assim injustiçada,

Nem me ralhes, pois eu não sou culpada;
Repare! - Eu também envelheci!

Irani Genaro
Sorocaba (SP) - Brasil

Visite a sensibilidade de Irani Genaro em seu Paraíso

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Federico García Lorca



"Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia. (Federico García Lorca)"


Poeta e dramaturgo, Lorca tem uma obra extensa e admirável, e este blog apresenta uma pequena mostra de uma das suas criações, Sonetos Del Amor Oscuro. A referida obra é composta de onze sonetos, que podem ser lidos em sua totalidade, clicando aqui. Nesta postagem do Scenarium, apresento apenas quatro deles e, pela polêmica em relação às traduções, optei pelo idioma original.

Depois dos poemas, posto um resumo da análise de Antón Corbacho Quintela, editado no site da Agulha – Revista de Cultura, sobre as traduções goianas da obra de Lorca, destacando os comentários aos Sonetos del Amor Oscuro. Para ler o estudo na íntegra, é só clicar no nome da Revista.


Llagas de Amor

Esta luz, este fuego que devora.
Este paisaje gris que me rodea.
Este dolor por una sola idea.
Esta angustia de cielo, mundo y hora.

Este llanto de sangre que decora
lira sin pulso ya, lúbrica tea.
Este peso del mar que me golpea.
Este alacrán que por mi pecho mora.

Son guirnalda de amor, cama de herido,
donde sin sueño, sueño tu presencia
entre las ruinas de mi pecho hundido.

Y aunque busco la cumbre de prudencia
me da tu corazón valle tendido
con cicuta y pasión de amarga ciencia.



Soneto de La Dulce Queja

Tengo miedo a perder la maravilla
de tus ojos de estatua y el acento
que me pone de noche en la mejilla
la solitaria rosa de tu aliento.

Tengo pena de ser en esta orilla
tronco sin ramas, y lo que más siento
es no tener la flor, pulpa o arcilla,
para el gusano de mi sufrimiento.

Si tú eres el tesoro oculto mío,
si eres mi cruz y mi dolor mojado,
si soy el perro de tu señorío.

No me dejes perder lo que he ganado
y decora las aguas de tu río
con hojas de mi Otoño enajenado.



Noche Del Amor Insomne

Noche arriba los dos con luna llena,
yo me puse a llorar y tú reías.
Tu desdén era un dios, las quejas mías
momentos y palomas en cadena

Noche abajo los dos. Cristal de pena,
llorabas tú por hondas lejanías.
Mi dolor era un grupo de agonías
sobre tu débil corazón de arena.

La aurora nos unió sobre la cama,
las bocas puestas sobre el chorro helado
de una sangre sin fin que se derrama.

Y el sol entró por el balcón cerrado
y el coral de la vida abrió su rama
sobre mi corazón amortajado.



El Amor Duerme En El Pecho Del Poeta

Tú nunca entenderás lo que te quiero
porque duermes en mí y estás dormido.
Yo te oculto llorando, perseguido
por una voz de penetrante acero.

Norma que agita igual carne y lucero
traspasa ya mi pecho dolorido
y las turbias palabras han mordido
las alas de tu espíritu severo.

Grupo de gente salta en los jardines
esperando tu cuerpo y mi agonía
en caballos de luz y verdes crines.

Pero sigue durmiendo, vida mía.
Oye mi sangre rota en los violines.
¡Mira que nos acechan todavía!



(...) Os onze Sonetos do Amor Obscuro, escritos entre 1935 e 1936, foram publicados por primeira vez aos 17 de março de 1984, em uma separata do suplemento cultural do diário ABC, de Madri. No momento de sua publicação, não houve entre a crítica literária espanhola nenhuma dúvida em relação ao fato desses sonetos amorosos reafirmarem a genialidade do autor. Porém levantaram-se acirradas polêmicas sobre se eles confirmavam a homossexualidade do poeta. As discordâncias começaram já pelo título que deveria receber a série de poemas. Segundo Ian Gibson (biógrafo de Lorca), não existe documento conhecido em que Lorca aluda aos seus sonetos sob o título geral dos Sonetos del amor oscuro:

a fonte principal no que se refere a essa denominação é Vicente Aleixandre, que a ouviu do próprio Lorca e em 1937 recordou uma leitura privada dos poemas alguns meses antes da morte do autor. Quando ele acabou de ler, Aleixandre exclamou: “Que coração! Como deve ter amado! Como deve ter sofrido!”.

O crítico e editor de Lorca, Miguel García-Posada, acreditou ao resenhar esses poemas que o simples rótulo Sonetos transmitia de forma mais precisa os perfis do projeto poético que Lorca estava desenvolvendo quando foi assassinado, deixando inconcluso seu propósito de compor poesia seguindo uma poética mais classicista, frente à concepção surrealista de Poeta en Nueva York:

¿Y el mítico título de Sonetos del amor oscuro? Diversos amigos de Lorca, desde Aleixandre a Cernuda, lo han mencionado, y sin duda se lo oyeron al poeta. Basta leer el soneto que comienza: ‘Ay voz secreta del amor oscuro...’ ¿Por qué no lo adoptó el autor de modo definitivo? Aquí se entrecruzan dos problemas [...]. El primero afecta al alcance del sonetario proyectado. Por diversos testimonios coincidentes es lícito inferir que el libro en preparación no iba a constar solo de poemas amorosos.

A partir dessa divergência, que também se refletirá nas traduções de Félix de Sousa e Agel de Melo, surge uma outra discrepância. Para Gibson apresenta-se como inegável que o adjetivo “oscuro” [escuro] aplicado por Lorca ao amor tem um sentido manifestamente homossexual. O biógrafo de Lorca baseia-se na análise das vivências do poeta, durante suas estadias na cidade de Valencia, em 1933 e 1935, para relacionar três dos sonetos com dois amigos do poeta. Assim, “Soneto de la carta” e “El poeta dice la verdad” refletiriam as preocupações, a saudade e o descontentamento de Lorca a respeito do seu relacionamento com Rafael Rodríguez Rapún e o “Soneto gongorino en que el poema manda a su amor una paloma” estaria relacionado com a amizade de Lorca com o poeta valenciano Juan Gil-Albert, homossexual assumido que o presenteara com uma pomba engaiolada. Ao contrário do parecer de Gibson, García-Posada , no prólogo da primeira edição completa dos Sonetos, opinou veementemente que o “amor escuro” do poeta andaluz era, simplesmente, um amor secreto, ausente, um amor que mata ou faz morrer. Esse crítico achava, em 1984, que os sonetos de Lorca estavam longe da literatura pederasta e que neles brotava uma conceição cósmica do amor, fruto de um “pan-sexualismo” vinculado à moral do amor, distante da corrupção e da vileza que sujam e prostituem o sentimento amoroso. Vinte anos depois de escrever sua apologia do “pan-sexualismo” lorquiano refletido nos Sonetos, no prólogo à edição da Poesia Completa III, García-Posada abandonou sua alucinada peneira moralista e praticamente contradisse o que anteriormente expusera com irritado tom taxativo. Assim, em 2003 escreveu que foi a relação com Rafael Rodríguez Rapún o que inspirou a série inconclusa dos “sonetos do amor escuro” e que eles são um inequívoco canto de paixão e de temor à perda do amor. Além disso, inseriu o rótulo Sonetos del amor oscuro como subtítulo de Sonetos.

A primeira divergência nas traduções dos sonetos “póstumos” de Lorca localiza-se no título adotado para o conjunto de poemas. Félix de Sousa opta por traduzir o título espanhol Sonetos del amor oscuro como “Sonetos do amor obscuro”. Aliás, ele discerniu que o título “sonetos do amor obscuro” era simplesmente mais belo e sugestivo, e menos pudoroso, que “sonetos do amor” e que o adjetivo enfatizava a condição clandestina em que era vivido esse amor. Ora, o que não ficou esclarecido é por que ao traduzir oscuro ao português, Félix de Sousa coloca “obscuro”, e não “escuro”, sobretudo se é levado em consideração, por um lado, que, assim como em português existem os adjetivos “obscuro” e “escuro”, em espanhol existem os adjetivos obscuro e oscuro, suas equivalências sinônimas, e por outro, que, caso Lorca, segundo asseverou Vicente Aleixandre, tivesse qualificado amor com um adjetivo, esse adjetivo espanhol foi oscuro e não obscuro. Ao incorporar por primeira vez nove dos Sonetos à sua tradução da Antologia poética completa, Agel de Melo intitulou a série de Sonetos inéditos, evitando assim os devaneios em torno da polêmica do título.

A segunda divergência entre Félix de Sousa e Agel de Melo reside em compreensões parcialmente opostas do trabalho de tradução dos sonetos:

Ao traduzir estes sonetos, procurei fundir o mais possível os recursos proporcionados pelas duas línguas irmãs. A fim de que ao menos se mantivessem próximos da unidade harmônica original, tive que proceder a inversões, alterar ou sacrificar (muitas vezes com sacrifício também meu) uma e outra palavra e imagem, buscar equivalências que em certos casos apenas roçam o sentido. Tinha que ser assim. A tradução destes sonetos não podia ser uma versão literal e portanto esquelética, mas uma tentativa de alcançar em português o reflexo da beleza dos sonetos em castelhano. Não fosse assim, seria melhor não traduzi-los.

Fontes:
Agulha – Revista de Cultura
Poetryweb

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ferreira Gullar



Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém,
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Deixo com vocês o poema de Gullar musicado por Raimundo Fagner, interpretado por ele e Chico Buarque.
Não se esqueçam de acionar a pausa na playlist do blog.


domingo, 29 de agosto de 2010

Chimamanda Adichie



A escritora:

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu na Nigéria e viveu em seu país até completar dezenove anos de idade. Mudou-se para os Estados Unidos, quando foi estudar na Universidade de Drexel, na Filadélfia. Depois se transferiu para a Universidade de Connecticut. Fez estudos de escrita criativa na Universidade John Hopkins de Baltimore e doutorado em estudos africanos na Universidade de Yale.

Seu primeiro romance, "Purple Hibiscus" (Hibisco Roxo), foi publicado em 2003. Três anos depois, publicou "Meio Sol Amarelo" (Cia. das Letras, 2008), alusão à bandeira de Biafra, que não conseguiu sua independência com a guerra civil.
A obra, que recebeu o prêmio Orange de ficção, narra a história de irmãs gêmeas não-idênticas que representam metaforicamente os dois lados de uma nação dividida, e que culmina na Guerra de Biafra (guerra civil na Nigéria, entre 1967 e 1970, que deixou mais de 1 milhão de mortos).

A TED:

TED é uma conferência anual que reúne os mais importantes pensadores do mundo e desafia seus convidados a fazerem a melhor apresentação de suas vidas em 18 minutos. As mais significativas apresentações e performances sobre vários temas são disponibilizados gratuitamente na internet em seu site.

A palestra em vídeo:

Em sua palestra Chimamanda Adiche fala sobre o perigo da história única, ou seja, como um único olhar sobre uma pessoa, um povo ou uma cultura é limitador e gera estereótipos difíceis de serem superados. Através de sua experiência de vida, ela narra como o ser humano se deixa influenciar por modelos prontos, sem buscar outros olhares, outras vivências, outras histórias. É imperdível!

Àqueles que não dominam o idioma inglês, sugiro assistirem ao vídeo em tela plena, para melhor visualização da tradução. É só clicar aqui.

Fontes: Wikipédia e TED.

domingo, 22 de agosto de 2010

Artemísia Gentileschi


Autorretrato - 1630
“Imaginem o período que vai de 1593 a 1653, em que o conhecimento do mundo ainda é limitado, o Papa tem poder absoluto e as mulheres não têm vez, nem voz. Foi quando viveu Artemísia, iniciada na arte da pintura pelo pai, Orazio Gentileschi.

Nascida em Roma em 1593, Artemísia Gentileschi é influenciada pela técnica claro/escuro que seu pai dominava com muito talento, aproximando-se muito da linha artística de Caravaggio, grande nome da pintura barroca.

Depois de receber os primeiros ensinamentos do seu pai e ante a impossibilidade de frequentar a Academia, seu pai entrega Artemísia aos cuidados do amigo e colaborador Agostino Tassi, que se torna seu professor de pintura. A jovem pintora fica, então, à mercê da cobiça de Tassi que a estupra, quando ela estava com 17 anos. Orazio leva o amigo aos tribunais, mas acaba por expor a filha de modo ultrajante à corte, à igreja e ao povo, frustrando, assim, seu futuro.

Sabe-se hoje que Tassi acabou por ser condenado a um exílio de Roma por um período de cinco anos. Este exílio durou apenas quatro meses, graças às influências que ele soube aplicar.

A obra de Artemísia passa, então, a refletir esse desejo de vingança. Humilhada, chamada de “Puttana” pelas ruas, ela quer lutar pela sua inocência, mostrar aos homens sua capacidade de pensar e, assim, retrata personagens bíblicos como Judith e Holofernes em cenas sangrentas, em que Judith aparece como mulher determinada, cumprindo uma missão justiceira. Neste quadro, o general assírio Holofernes é decapitado por Judith, que assim libertou o seu povo (judeu) do jugo dos pagãos. Judith é quase um auto-retrato da própria Artemísia: forte, vingadora e convicta. A degolação pode simbolizar a castração que ela certamente queria infligir ao seu abusador.

Os quadros retratando Judith chocaram alguns de seus admiradores, tal a violência que expressavam. Estão entre os melhores da artista e podem ser considerados uma catarse.
Artemísia casou-se por conveniência com o pintor Pietro Antonio di Vicenzo Stiattesi e se mudou para Florença, onde pensava que seu passado não seria lembrado. Ela não se reprimiu como mulher, amou o marido, foi amada por ele, teve a filha Palmira Prudenzia, cumpriu seus deveres de mãe, mas nunca desistiu de ser reconhecida como pintora e dona da própria vida. Batalhou muito para conseguir abrir portas antes fechadas às mulheres, tendo sido admitida na exclusiva Academia de Desenho de Florença, onde mulher até então só entrava como modelo.

Artemísia conheceu os poderosos de Florença, como os Médici, foi amiga de Galileu, pintou para nobres de várias cidades. O silêncio que paira sobre ela talvez esteja encoberto pelo silêncio que ocultou durante anos outras grandes mulheres artistas. Não se sabe se ela perdoou o pai pelo julgamento a que foi submetida quando jovem. Seus quadros revelam, apenas, que Artemísia finalmente encontrou a paz.
Anos depois, superou o desejo de vingança sem abandonar os temas bíblicos e o apelo dramático característico de sua pintura. Acabou virando uma espécie de heroína contra o abuso do poder masculino e a favor da superação da mulher.”

Podemos encontrar as obras de Artemísia numa rápida pesquisa ao Google, mas clicando aqui vocês apreciarão vinte criações dessa magnífica artista.

Eu recomendo, ainda, a leitura do excelente estudo feito pela poeta e ensaísta Maria das Vitórias de Lima Rocha, postado no site da artista plástica Lena Gal.

Fontes:
Livro A Paixão de Artemísia, de Susan Vreeland, em artigo comentado por Bety Orsini
Old Master New Perspectives

domingo, 15 de agosto de 2010

Cecílio Elias Netto



Eu tinha intenção de postar esta crônica no Dia dos Pais, mas acabei não fazendo. Divulgo-a hoje, uma vez que sua mensagem não se prende a datas, ela será sempre atual para os pais que não dão limites aos filhos nem os ensinam a buscar seus ideais.

A Lua Que Não Dei

Compreendo pais - e me encanto com eles - que desejariam dar o mundo de presente aos filhos. E, no entanto, abomino os que, a cada fim de semana, dão tudo o que filhos lhes pedem nos shoppings onde exercitam arremedos de paternidade. E não há paradoxo nisso. Dar o mundo é sentir-se um pouco como Deus, que é essa a condição de um pai. Dar futilidades como barganha de amor é, penso eu, renunciar ao sagrado.
Volto a narrar, por me parecer apropriado à croniqueta, o que me aconteceu ao ser pai pela primeira vez. Lá se vão, pois, 45 anos. Deslumbrado de paixão, eu olhava a menina no berço, via-a sugando os seios da mãe, esperneando na banheira, dormindo como anjo de carne. E, então, eu me prometia, prometendo-lhe: "Dar-lhe-ei o mundo, meu amor." E não lho dei. E foi o que me salvou do egoísmo, da tola pretensão e da estupidez de confundir valores materiais com morais e espirituais.
Não dei o mundo à minha filha, mas ela quis a Lua. E não me esqueço de como ela pediu, a Lua, há anos já tão distantes. Eu a carregava nos braços, pequenina e apenas balbuciante, andando na calçada de nosso quarteirão, em tempos mais amenos, quando as pessoas conversavam às portas das casas. Com ela junto ao peito, sentia-me o mais feliz homem do mundo, andando, cantarolando cantigas de ninar em plena calçada. Pois é a plenitude da felicidade um homem jovem poder carregar um filho como se acariciando as próprias entranhas. Minha filha era eu e eu era ela. Um pai é, sim, um pequeno Deus, o criador. E seu filho, a criatura bem amada.
E foi, então, que conheci a impotência e os limites humanos. Pois a filhinha - a quem eu prometera o mundo - ergueu os bracinhos para o alto e começou a quase gritar, assanhada, deslumbrada: "Dá, dá, dá..." Ela descobrira a Lua e a queria para si, como ursinho de pelúcia, uma luminosa bola de brincar. Diante da magia do céu enfeitado de estrelas e de luar, minha filha me pediu a Lua e eu não lha pude dar.
A certeza de meus limites permitiu, porém, criar um pacto entre pai e filhos: se eles quisessem o impossível, fossem em busca dele. Eu lhes dera a vida, asas de voar, diretrizes, crença no amor e, portanto, estímulo aos grandes sonhos. E o sonho da primogênita começou a acontecer, num simbolismo que, ainda hoje, me amolece o coração. Pois, ainda adolescente, lá se foi ela embora, querendo estudar no Exterior. Vi-a embarcar, a alma sangrando-me de saudade, a voz profética de Kalil Gibran em sussurros de consolo:
"Vossos filhos não são vossos filhos, mas são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Eles vêm através de vós, mas não de nós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. (...) Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas."
Foi o que vivi, quando o avião decolou, minha criança a bordo. No céu, havia uma Lua enorme, imensa. A certeza da separação foi dilacerante. Minha filha fôra buscar a Lua que eu não lhe dera.
E eu precisava conviver com a coerência do que transmitira aos filhos: "O lar não é o lugar de se ficar, mas para onde voltar."
Que os filhos sejam preparados para irem-se, com a certeza de ter para onde voltar quando o cansaço, a derrota ou o desânimo inevitáveis lhes machucarem a alma. Ao ver o avião, como num filme de Spielberg, sombrear a Lua, levando-me a filha querida, o salgado das lágrimas se transformou em doçura de conforto com Kalil Gibran: como pai, não dando o mundo nem Lua aos filhos, me senti arqueiro e arco, arremessando a flecha viva em direção ao mistério.
Ora, mesmo sendo avós, temos, sim e ainda, filhos a criar, pois família é uma tribo em construção permanente. Pais envelhecem, filhos crescem, dão-nos netos e isso é a construção, o centro do mundo onde a obra da criação se renova sem nunca completar-se. De guerreiros que foram, pais se tornam pajés. E mães, curandeiras de alma e de corpo. É quando a tribo se fortalece com conselheiros, sábios que conhecem os mistérios da grande arquitetura familiar, com régua, esquadro, compasso e fio de prumo. E com palmatória moral para ensinar o óbvio: se o dever premia, o erro cobra.
Escrevo, pois, de angústias, acho que angústias de pajé, de índio velho. A nossa construção está ruindo, pois feita em areia movediça. É minúsculo o mundo que pais querem dar aos filhos: o dos shoppings. E não há mais crianças e adolescentes desejando a Lua como brinquedo ou como conquista. Sem sonhos, os tetos são baixos e o infinito pode ser comprado em lojas. Sem sonhos, não há necessidade de arqueiros arremessando flechas vivas.
Na construção familiar, temos erguido paredes. Mas, dentro delas, haverá gente de verdade?
Cecílio Elias Netto é jornalista e seu blog pode ser acessado por aqui.

Antero de Quental



Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão onde se esconde
O inconsciente imortal só me responde
Um bramido, um queixume e nada mais.

(in Antologia – 1871 - Soneto dedicado a A. de Azevedo Castello Branco)

domingo, 8 de agosto de 2010

Ao meu saudoso Pai

recados orkut

Mario Quintana



As Mãos do Meu Pai

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis

sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,

essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,

vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida

que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...

domingo, 25 de julho de 2010

World Builder

Um homem constrói um mundo para a mulher que ama, utilizando ferramentas holográficas.
Este premiado filme foi criado pelo cineasta Bruce Branit, conhecido como um dos criadores do filme “405”.

Para apreciar a beleza do filme, não se esqueça de acionar a pausa na playlist musical do blog.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Feliz Dia do Amigo!



Amizade

O amigo é uma bênção que nos cabe cultivar no clima da gratidão.
Quem diz que ama e não procura compreender e nem auxiliar, nem amparar e nem servir, não saiu de si mesmo ao encontro do amor de alguém.
A amizade verdadeira não é cega, mas se enxerga defeitos nos corações amigos, sabe amá-los e entendê-los mesmo assim.
Teremos vencido o egoísmo em nós, quando nos decidirmos ajudar os entes amados a realizarem a felicidade própria, tal qual entendem eles, deva ser a felicidade que procuram, sem cogitar de nossa própria felicidade.
Em geral, pensamos que os nossos amigos pensam como pensamos, no entanto, precisamos reconhecer que os pensamentos deles são criações originais deles próprios.
A ventura real da amizade é o bem dos entes queridos. Assim como espero que os amigos me aceitem como sou, devo de minha parte, aceitá-los como são.
Toda vez que buscamos desacreditar esse ou aquele amigo, depois de havermos trocado convivência e intimidade, estaremos desmoralizando a nós mesmos.
Em qualquer dificuldade com as relações afetivas é preciso lembrar que toda a criatura humana é um ser inteligente em transformação incessante e, por vezes, a mudança das pessoas que amamos não se verifica na direção de nossas próprias escolhas.
Quanto mais amizade você der, mais amizade receberá.
Se Jesus nos recomendou amar os inimigos, imaginemos com que imenso amor nos compete amar aqueles que nos oferecem o coração.

André Luiz – Francisco Cândido Xavier

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Affonso Romano de Sant'Anna



Separação

Desmontar a casa

e o amor.
Despregar os sentimentos
das paredes e lençóis.

Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.

O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
- pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

© Affonso Romano de Sant'Anna
Rio de Janeiro (RJ) – Brasil

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Augusta Schimidt


Sinergias

Há um sol
Naquele poente
Resplandecente...
Há fumaça sem voz
Com jeito de amor,
Em voejos de pombas,
Leveza de aceno...
Há um rancho de espera,
Um poço de pranto,
Um olhar de espanto...
Há um rio que é poeta
A sonhar com a paz,
Fecundando sementes
Num leito de solidão.
Há pressa e vagar
Nos seres humanos...
Há sonhos pintados
Nos sonhos da gente,
De repente...

23/02/2010

© Augusta Schimidt
Campinas (SP) - Brasil

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Danuza Leão



Um quintal

Quando uma pessoa começa a melhorar de vida, pensa logo em comprar uma boa casa. E o que é uma boa casa? É preciso um jardim e uma piscina, imaginam os pais. Eles querem para as crianças uma infância saudável, com confortos que nunca tiveram, mas não pensam no principal: um quintal. Um quintal não precisa ser grande, e o chão deve ser de terra batida. Nele deve haver algumas árvores que não pareçam ter sido plantadas, mas sempre existido. Um abacateiro e uma goiabeira, de goiaba vermelha, são fundamentais. No fundo, um galinheiro tosco, com uma porta quebrada, para que as três ou quatro galinhas possam correr quando alguém quiser pegá-las. Nenhum computador levará uma criança ao deslumbramento que ela terá ao encontrar um ovo e segurá-lo, ainda quentinho. É o mistério da vida nas mãos dela, mais absoluto e mais simples do que qualquer livro de filosofia.

Um dia, a cozinheira avisa que vai matar uma galinha para o molho pardo. Os meninos pedem para ver a cena trágica; a mãe não quer, mas a empregada, acostumada, com o facão na mão, facilita. Se a galinha tiver dentro da barriga aquele monte de ovinhos, aí a lição de morte – e de vida – será ainda mais completa. E mais lições serão aprendidas quando alguém sugerir fazer uma peteca com as penas mais duras e algumas palhas de milho. Mas será que alguém sabe do que estou falando?

Voltando: esse quintal deve ser meio abandonado, mas muito limpo; duas vezes por dia a empregada, cantando bem alto, dá uma varrida. É importante também que haja um tanque para lavar o pé de alguma criança quando ela pisar descalça numa porcaria, e um varal com pregadores de roupa de madeira. Nesse lugar, não vai ter horta nem pomar organizado. Em compensação, é bom que exista do outro lado do muro uma enorme mangueira para que se possa praticar o melhor crime do mundo: roubar as frutas do vizinho. Nos fundos de um quintal, deve haver também uma touceira de bananeiras ou bambus e, claro, um adulto dizendo sempre para tomar cuidado, pois ali pode ter uma cobra. Não há infância que se preze sem medo de cobra. Quando as goiabas começam a crescer, fica todo mundo de olho até a primeira delas estar no ponto para ser arrancada e mordida ali mesmo, sem lavar. E que sensação terrível quando se vê o bicho da goiaba se mexendo. Aí, sem que ninguém precise dizer nada, você começa a aprender que a vida é assim: ou se compra uma goiaba bonita, mas sem gosto, ou se espera com paciência ela amadurecer no pé até desfrutar o supremo prazer de dar aquela dentada – com direito a bicho e tudo.

Mas o tempo voa. De repente você se sente só, abre o caderno de telefones e percebe sua pouca afinidade com os nomes que estão lá, que tem vivido uma vida que não tem nada a ver e começa a procurar um sentido para as coisas. Não encontra resposta, claro, mas um dia está no trânsito, vê um terreno baldio, se lembra daquele quintal no qual não pensa há anos e percebe que essa é a lembrança mais importante e mais feliz de sua vida. E passa a olhar o mundo com a superioridade de quem tem um tesouro guardado dentro do peito, mas ninguém sabe.

Este texto, publicado na Revista Claudia, é de grande beleza e somente quem vivenciou aquela época pode afirmar como era gostoso ter um quintal onde brincar, onde exercitar a imaginação e a fantasia, enfim, onde aprender, crescer, amadurecer, assim como as frutas que se colhia naqueles pequenos recantos. Por ter sido criada em uma casa com quintal, há dois anos fiz este singelo soneto e aproveito para reeditá-lo aqui. Ele também pode ser lido no site Cenário de Sentimentos.

No Tempo dos Quintais

A saudade me leva pro passado
E, no fechar dos olhos... tal e qual,
Vejo a minha casinha e seu quintal
Como se fora um sonho bem sonhado.

O galinheiro sendo derrubado...
No lugar, um telhado com beiral...
Não mais teria o canto matinal
Do galo a uma panela condenado.

Outros bichos moraram lá depois:
Uma bela jandaia e cães, só dois...
A jandaia fugiu, cães não há mais...

Sem gritos e latidos de animais,
O som que vem e ecoa de emoção
É o pranto do saudoso coração...

15/02/08
Marise Ribeiro (RJ) - Brasil