domingo, 4 de maio de 2014

Caravaggio, Tiziano e Rembrandt: obras-primas ganham vida.

 
Chama-se "Beleza" a animação de autoria de Stefano Rino em que o esplendor de um gesto de dezenas de obras-primas ganham vida. Uma carícia, uma careta, às vezes imperceptíveis movimentos dão uma nova dimensão à beleza que normalmente se usa na imobilidade de uma pintura.
Clique aqui e se encante com a criatividade de Stefano e, claro, com as pinturas dos grandes mestres.
 
 
 

 

domingo, 6 de abril de 2014

El Empleo (O Emprego)

 
Curta-metragem de animação argentino, produzido pela Opusbou, com a direção de Santiago Grasso e  vencedor de 102 prêmios internacionais. O curta  é uma crítica à exploração do ser humano em funções às quais costumamos desvalorizar.  As pessoas servem de objetos  a outras em hierarquia superior.  Uma belíssima reflexão sobre as relações humanas no trabalho.  Clique aqui para assisti-lo.
Eu achei sensacional e você o que acha?

domingo, 9 de março de 2014

Alphonsus de Guimaraens



Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

 

 

Considero "Ismália" um dos mais belos poemas do Simbolismo brasileiro, por isso trago para os seguidores do Scenarium outras leituras artísticas deste texto, registradas em vídeos do You Tube:
 
- Curta dirigido por Hendril Costa Silveira (clique aqui); o mesmo curta adaptado com versão musical de Alexandre Santana (aqui).
 
- Poema musicado por Gê Lara, nas vozes de Luiza Lara e Gê Lara (aqui).
 
- Poema musicado por Capiba, na voz de Inezita Barroso (aqui).
 
- Desenho animado de Caren Nunes da Silva, com fundo musical de Yann Tiersen (aqui).
 
- Poema falado na voz de Paulo Autran.  Demais créditos de imagem se encontram no vídeo (clique aqui).
  
 
Para quem se interessar pela análise literária do poema, indico a visita ao blogue Literatura e Linguagens (clique aqui).
 
 
A imagem que ilustra o poema também é uma outra forma de leitura: Ismália por Lulabel 


domingo, 22 de dezembro de 2013

Feliz Natal!

Balada de Neve

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
 
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…
 
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
 
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
 
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…
 
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…
 
E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…
 
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…
 
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.
 
Augusto Gil


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Andréia Maia

 

 
Eu fui... agora eu Sou!

                       
Fui perfeita, correta e fiel.
Cumpri ordens, acatei desejos que não eram meus!
 
Servi café, almoço e jantar.
Fui café, almoço e jantar!
 
Fui a dama que me cobraram e a "mulher-dama" que desejaram.
Sorri "colgate", mas abri um sorriso amarelo quando cansei das convenções.
 
Fui menina e brinquei.
Fui madura e me rebelei.
 
Fui eu, elas...fui todas...
Hoje a meninice virou maturidade.
O sorriso é espontâneo.
 
Sou correta ou totalmente errada na medida do que quero.
As ordens são minhas...apenas para mim.
 
Não sirvo mais café, almoço muito menos jantar.
Me delicio com cada refeição que me ofereço.
 
Continuo uma dama e uma "mulher-dama" quando necessário.
Mas por puro prazer.
 
Chutei as convenções, o balde e a bola em gol!
Um golaço!!!!!!!!!!!!!!!!
Gol da maturidade.
 
Do entendimento de que sou alguém que desconheci por um breve tempo.
Da mulher que se assume sozinha,
Que sabe o que quer,
Que se aventura sem medos...
 
Sem algemas, sem pressões...
Uma mulher que deixou de ser para simplesmente...
 
Ser!
 
Andréia Maia - Rio de Janeiro (RJ)
 
Este texto foi utilizado indevidamente por outra pessoa, por isso publico-o neste blog, para que fique bem registrada sua verdadeira autoria. 
Visite a Poeta Andréia Maia no
Recanto das Letras.
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Dirk Dzimirsky

 
 
Dirk Dzimirsky, nascido em 1969, é um apaixonado pela arte hiper-realista e desde criança apresentou como maior interesse em seus desenhos e pinturas a representação do ser humano.  Depois do ensino médio, o jovem artista alemão resolveu apresentar sua arte profissionalmente, trabalhando como ilustrador de livros gráficos.  Em 2005, Dirk se tornou um artista freelancer, com exposições em Nova York e outras cidades pelo mundo.
Sua arte, tanto os desenhos a lápis, quanto as pinturas, parecem fotografias nítidas e perfeitas do ser humano, com destaque para os detalhes nas rugas e poros,  o que os humaniza ainda mais.
Desenhos:
 
 

















Pinturas:







 


sábado, 11 de maio de 2013

sexta-feira, 29 de março de 2013

Feliz Páscoa!

 
 
 
Com esta emocionante História da Páscoa, desejo a todos uma Páscoa abençoada.  Para assistir ao vídeo é só clicar aqui. 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Gilka Machado

 
 
Ser Mulher
            
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida: a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...
 
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...
 
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
 
Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

Gilka Machado
(In Poesias - 1915 a 1917 - Editado em 1918)

 
 
Hoje o Scenarium está completando 4 anos de existência e eu agradeço a todos os seguidores e admiradores deste espaço pelo carinho e, principalmente, pela compreensão com as minhas ausências.  Eu gostaria de me doar muito mais a este blog, mas há urgências maiores me cobrando atenção. 
Meu abraço a todos e minha homenagem às mulheres pelo seu dia. 
Marise Ribeiro

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ana Maria Machado

 
Ana Maria Machado é carioca, foi pintora, jornalista e professora universitária, antes de se tornar uma das escritoras brasileiras mais importantes da atualidade.
Tem mais de cem livros publicados, no Brasil e em mais 18 países. Ao longo de mais de quarenta anos de carreira, escreveu obras para leitores de todas as idades, incluindo nove romances.
Recebeu inúmeras condecorações por sua produção literária, com destaque para o Prêmio Hans Christian Andersen (o mais importante da literatura infantil), em 2000, e o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, em 2001. Em 2003, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras e, em 2011, tornou-se a segunda mulher na história da instituição a assumir sua presidência.
 
Destaco, nesta postagem, alguns poemas de seu livro Sinais do Mar, onde as poesias podem ser classificadas em três vertentes: concretas, sensoriais e narrativas.
 
As concretas são os poemas que citam os seres marinhos como a estrela-do-mar (Estrelas),  o siri (Siri), a gaivota (Revoada), o caramujo (Bernardo Eremita), a arraia (Arraia) e a água-viva (Dúvida).

Estrelas
 
Cinco pontas
cinco destinos
são areias tontas
de desatinos


Cinco sentidos
cinco caminhos
grãos tão moídos
por mares e moinhos

 
Estrela-guia
em alto-mar
outra Maria
veio me chamar.



Siri

Siri
 não ri
 em serviço.

Se troca a casca
 vira ouriço
 procura concha,
 busca uma toca e,
 sumiço.

Não dá mole por aí.
 Pra não virar sopa
 faz boca
 de siri.



Dúvida

Água-viva
quando morre
fica sendo
água-morta?


Ou água só?


A segunda vertente se estrutura na evocação sensorial de sons, visões e cheiros ligados ao mar: é o caso de Aquarela, Terral, Salsugem, Maresia, Gala Solar, Facho, Maré Baixa e Farol.


Maré Baixa

Onde anda a onda
se a lua rotunda
se acende redonda
se brilha precisa
na calma tão lisa
da pele do mar?

 
Em que fenda se finda?
Em que rede se enrreda?
Em que sonda se afunda?
Onde trama sua renda
de espuma tão fina
de puro luar?



Maresia

Brisa na restinga
traz maresia
a onda respinga
a gota suspira
o ar que se inspira.


Nariz abre a asa
narina é casa
de aroma morar.


É o lar que inspira
é o mar que respira.



A terceira é composta de poemas narrativos, Naus e Nós e Primeiro Mar, os dois trabalhos que finalizam a antologia.


Naus e Nós

Naus
saem de Sagres
e deixam infantes,
partem de portos
e deixam mortos,
sangram amores
e rumam ao longe.


Singram
águas salgadas
algas sargaças
a pouco nós.


Lonas e telas
pranchas e cascos
cordas e cabos
rangem e puxam,
fazem e desfazem
nós.


Velas sem vento
almas sem calma
encalham em sargaços
nas águas salgadas.


Algumas naufragam
soçobram em escolhos
só sobram
sem escolha,
sem escolta,
poucas naus
- e nós.



Primeiro Mar

Tantas páginas lidas muito antes
Tantos livros que enchiam as estantes
Tantos heróis a povoar os sonhos
Tantos perigos, monstros tão medonhos


    Nos tempos sem tevê e sem imagem
    Palavras fabricavam paisagem


Tesouros, mapas, ilhas tropicais,
Argonautas, recifes de corais,
Perigos na neblina entre rochedos,
Vinte mil léguas cheias de segredos.


Histórias de naufrágio e abordagens,
Ulisses, Moby Dick, mil viagens,
Robinson, calmarias, um motim,
Descobertas, veleiros, mar sem fim.



Destaco também um poema que gosto muito e que dá nome a um dos livros de Ana Maria Machado. "Um fio de voz conta pedaços de histórias, muitas delas antigas. Cada noite uma nova, sempre sobre o mesmo tema: são "montes de histórias de mulheres e fiapos, fios e linhas de todo tipo, ponto a ponto se tecendo e virando novas tramas".
 

Ponto a Ponto

Era uma vez uma voz.
Um fiozinho à-toa.
Fiapo de voz.
Voz de mulher.
Doce e mansa.
De rezar, ninar criança, muitas histórias contar.
De palavras de carinho e frases de consolar.
Por toda e qualquer andança, voz de sempre concordar.
Voz fraca e pequenina.
Voz de quem vive em surdina.
Um fiapo de voz que tinha todo o jeito de não ser ouvido.
Não chegava muito longe.
Ficava só ali mesmo, perto de onde ela vivia.
Um pontinho no mapa


Fontes:
http://www.anamariamachado.com/
http://www.companhiadasletras.com.br/
http://editora.cosacnaify.com.br/
http://www.estadao.com.br/
http://umsaltoparanovasdescobertas.blogspot.com.br/

domingo, 27 de janeiro de 2013

A Dança das Horas


Os bailarinos Maria Letizia Giuliani (Scuola dell'infanzia de Roma) e Ángel Corella (espanhol, Diretor Artístico e dançarino principal do Balé Barcelona) apresentam o balé A Dança das Horas (Danza delle Orel), da ópera La Gioconda, de Amilcare Ponchielli.
A peça original, em quatro atos, tem a ação desenvolvida na Veneza do século XVII e a sofrida Gioconda disputa o amor de Enzo com Laura, além de ser atormentada pelo pérfido Barnaba.  Um dos pontos altos de La Gioconda é o célebre balé “A Dança das Horas”, que acontece no 3º ato, denominado “A Casa de Ouro”.
A Dança das Horas representa as horas do amanhecer, da manhã, da tarde e da noite, e é executado com  mudança de vestes, de efeitos de luzes e coreografias distintas.  Simboliza também a eterna luta entre os poderes das trevas e da luz.
A apresentação, aqui editada, aconteceu no Grande Teatro do Liceu, em Barcelona.

É só clicar aqui para assistir.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Feliz 2013!



 

(arte e presente de Marilda Ternura) 
 
Esperança
 
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
 
 
Canção do Dia de Sempre
 
Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos.
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…
 
(Poemas de Mário Quintana)


Chegamos ao décimo segundo andar do ano e a louca esperança renascerá em nós, sempre como um rio a passar sem nome, mudando dia a dia nossos sonhos e os depositando em nossas mãos distraídas. 
Um Feliz Ano Novo a todos os amigos e seguidores do Scenarium.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Manuel Maria Barbosa du Bocage

 
O Natal

Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
 
Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe* o nascimento.
 
Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
 
Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.
 
*presepe - o mesmo que presépio
 
 
Amigos e seguidores do Scenarium,
 
Desejo a todos um Natal pleno de Amor, Harmonia e Fraternidade!
Que possamos colocar em prática as palavras e os atos, ensinados pelo aniversariante Jesus.
 
Estou trocando de computador e, até arrumar todos os programas do anterior na nova máquina, as postagens neste espaço ficarão reduzidas.

Conto com a compreensão de todos.  Até breve, se Deus quiser!


 

domingo, 11 de novembro de 2012

Odete Ronchi Baltazar






















O Vestido

Não era de organza,
nem de seda pura,
tampouco de voile.
Não tinha trama elegante
nem bordado atraente.
Era azul clarinho do céu e,
mais que tudo, era meu!
Quando o vestia criava asas,
pisava em nuvens,
desfilava sonhos,
sonhava passarelas,
olhares, cochichos
e outros bichos.
Exibia o andar,
gostava de estar.
Mal sabia a menina,
que a fantasia,
quem vestia era eu.


© odeteronchibaltazar 
Florianópolis (SC) - Brasil

Visite mais textos da autora em Palavrasmil.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Sarah Brightman e Antonio Banderas














Um tributo musical para o famoso compositor Andrew Lloyd Webber, em comemoração ao seu 50º aniversário. Foram apresentadas canções de todos os seus grandes musicais, incluindo Cats, Sunset Boulevard, Jesus Christ Superstar e o Fantasma da Ópera.  A celebração foi composta por estrelas de suas produções cinematográficas e teatrais, e aconteceu no Royal Albert Hall, em 1998. Apreciem um belo encontro musical de uma das canções de O Fantasma da Ópera.  É só clicar na imagem.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Manoel de Barros














Para conhecer um pouco da vida do Poeta Manoel de Barros, basta ler sua obra.  Em seus textos, o Poeta deposita sua história, experiências vividas e uma sensibilidade ímpar, principalmente quando versa sobre a sua relação com a natureza.
 
O tema da infância, também tão caro ao poeta, tem a ver não só com os anos iniciais de sua vida, mas com o sentimento de infância que carrega até hoje e que quer transmitir ao leitor pela poesia.  Muito do que se sabe sobre a pessoa Manoel de Barros vem de entrevistas concedidas, geralmente, por escrito. Suas respostas, com muita frequência, são trechos de seus escritos.

Manoel de Barros que, segundo o professor e poeta Gilberto Mendonça Teles, "entrou em 1937 e, através de vários livros, chega a uma das belas linguagens poéticas da atualidade", escreve sua obra a lápis em vários caderninhos, sempre no seu "lugar de ser inútil", como ele próprio diz.

Retornando das férias, o Scenarium destaca uma pequena mostra da obra e de alguns trechos de entrevistas deste poeta que encanta pela profundidade dentro da simplicidade de suas letras.

Auto-Retrato Falado

Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco

da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do
chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de
estar entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me
sinto como que desonrado e fujo para o
Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo
que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de
gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só
faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

(De O Livro das Ignorãças) 

"Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós."


 

Uma didática da invenção

(Parte VI)
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.
(De "O Livro das Ignorãças" - 1993)


 

A Arte de Infantilizar Formigas

Depois de ter entrado para rã, para árvore, para pedra
- meu avô começou a dar germínios
Queria ter filhos com uma árvore.
Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir
vender na cidade.
Meu avô ampliava a solidão.
No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do
quintal : Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra
dentro.
Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato.
Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.
Aí a nossa mãe deu entidade pessoal ao dia.
Ela deu ser ao dia,
e Ele envelheceu como um homem envelhece.
Talvez fosse a maneira
Que a mãe encontrou para aumentar
as pessoas daquele lugar
que era lacuna de gente.
(De "Livro sobre nada" - 1996)


Canção do Ver 

(Parte 1)
Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.
(De "Poemas Rupestres")



O olhar


Ele era um andarilho.
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida.



O menino que carregava água na peneira
 
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.


A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.


A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.


O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.


A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que vazios são maiores
e até infinitos.


Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.


Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.


No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.


O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.


Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

o menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.


A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.



"Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios."
 
 
"A maior riqueza do homem é sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não
aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas."
 
 
“No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
poesia é quando a tarde está competente para
dálias.
É quando
ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
e um sapo engole as auroras.”
 
 
“Para entender nós temos dois caminhos:
[o da sensibilidade que é o entendimento
do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento
do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
[mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.”
 
 
"Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens. Eu vejo pouco. Uso mais ter visões. Nas visões vêm as imagens, todas as transfigurações. O poeta humaniza as coisas, o tempo, o vento. As coisas, como estão no mundo, de tanto vê-las nos dão tédio. Temos que arrumar novos comportamentos para as coisas. E a visão nos socorre desse mesmal."
- em entrevista "caminhando para as origens", a Bosco Martins, Cláudia Trimarco e Douglas Diegues. [Caros Amigos]. 2007.
 
 
"No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Pois minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo de estrada. Gosto de desvio e de desver."
- em carta a José Castello, publicado no Jornal Valor Econômico, em 18 de março de 2012

 
"O tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um narcisista: expõe o mundo através dele mesmo. (...) O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro. Então, não é que eu descreva o Pantanal, não sou disso, nem de narrar nada. Mas nasci aqui, fiquei até os oito anos e depois fui estudar. Tenho um lastro da infância, tudo o que a gente é mais tarde vem da infância."
- em entrevista "caminhando para as origens", a Bosco Martins. 2007.
 
"... Meu avô era tomado por leso porque de manhã dava
bom-dia aos sapos, ao sol, às águas.
Só tinha receio de amanhecer normal
Penso que ele era provedor de poesia como as aves
e os lírios do campo."
- em "Ensaios fotográficos", 2000, p. 51.
 
 
"... poesia pra mim é a loucura das palavras, é o delírio verbal, a ressonância das letras e o ilogismo.
Sempre achei que atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos. Sem eles a linguagem
seria mesmal. (...) Prefiro escrever o desanormal."
- em "Ensaios fotográficos", 2000, p. 63.
 
 
"Penso que não tive escolha
Fui escolhido e gostei da escolha
Faço o que sonho
Faço o que gosto
Sou um pouco irresponsável
com os passarinhos, isto seja:
Sou livre
Amo a palavra"
- em entrevista a Luciana Pessanha, especial para "O Globo".
 
 
Frases:
 
"Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia."
 
"Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão."
 
"Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos."
 
"Sou livre para o silêncio das formas e das cores."
 
“Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.”
 
"Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando."
 
Fontes de Pesquisa:
 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Até a volta, amigos!












Amigos, estou saindo de férias, com retorno previsto para a segunda quinzena de Outubro.  Agradeço a todos pela companhia, pelas leituras e pelos carinhos enviados.  Até a volta!

domingo, 16 de setembro de 2012

Fábio Reynol














O vendedor de palavras

Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, "indigência lexical". Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs.

Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: "Histriônico — apenas R$ 0,50!".

Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse.

— O que o senhor está vendendo?

— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos como diz a placa.

— O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.

— O senhor sabe o significado de histriônico?

— Não.

— Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.

— Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.

— O senhor tem dicionário em casa?

— Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.

— O senhor estava indo à biblioteca?

— Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.

— Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real!

— Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?

— Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.

— O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?

— O senhor conhece Nélida Piñon?

— Não.

— É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.

— E por que o senhor não vende livros?

— Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.

— E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga.

— A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.

— O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...

— Jactância.

— Pegar um livro velho...

— Alfarrábio.

— O senhor me interrompe!

— Profaço.

— Está me enrolando, não é?

— Tergiversando.

— Quanta lenga-lenga...

— Ambages.

— Ambages?

— Pode ser também evasivas.

— Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!

— Pusilânime.

— O senhor é engraçadinho, não?

— Finalmente chegamos: histriônico!

— Adeus.

— Ei! Vai embora sem pagar?

— Tome seus cinqüenta centavos.

— São três reais e cinqüenta.

— Como é?

— Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.

— Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?

— É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?

— Tem troco para cinco?