quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Feliz Ano-Novo!



Feliz Ano-Novo

Quero um Ano-Novo em que todas as crianças, ao ligarem a tevê, recebam um banho de Mozart, Pixinguinha e Noel Rosa; aprendam a diferença entre impressionistas e expressionistas; vejam espetáculos que reconstituem a Balaiada, a Confederação do Equador e a Guerra dos Emboabas; e durmam após fazer suas orações.
Desejo um Ano-Novo em que, no campo, todos tenham seu pedaço de terra, onde vicejem laranjas e alfaces e voejem bem-te-vis entre vacas leiteiras. Na cidade, um teto sob o qual reluz o fogão de panelas cheias, a sala atapetada por remendos coloridos, a foto colorida do casal exposta em moldura oval sobre o sofá.
Espero um Ano-Novo em que as igrejas abram portas ao silêncio do coração, o órgão sussurre o cantar dos anjos, a Bíblia seja repartida como pão. A fé, de mãos dadas com a justiça, faça com que o céu deixe de concentrar o olhar daqueles aos quais é negada a felicidade nesta terra.
Um Feliz Ano-Novo com casais ociosos na arte de amar, o lar recendendo a perfume, os filhos contemplando o rosto apaixonado dos pais, a família tão entretida no diálogo que nem se dá conta de que o televisor é um aparelho mudo e cego num canto da sala.
Desejo um Ano-Novo em que os sonhos libertários sejam tão fortes que os jovens, com o coração a pulsar ideais, não recorram à química das drogas, não temam o futuro nem se expressem em dialetos ininteligíveis. Sejam, todos eles, viciados em utopia.
Espero um Ano-Novo em que cada um de nós evite alfinetar rancores nas dobras do coração e lave as paredes da memória de iras e mágoas; não aposte corrida com o tempo nem marque a velocidade da vida pelos batimentos cardíacos.
Um Ano-Novo para saborear a brevidade da existência como se ela fosse perene, em companhia de ourives de encantos, cujos hábeis dedos incrustam na rotina dos dias jóias ternas e eternas.
Quero um Ano-Novo em que a cada um seja assegurado o direito do emprego, a honra do salário digno, as condições humanas de trabalho, as potencialidades da profissão e a alegria da vocação. Um novo ano capaz de saciar a nossa fome de pão e de beleza.
Rogo por um Ano-Novo em que a polícia seja conhecida pelas vidas que protege e não pelos assassinatos que comete; os presos reeducados para a vida social; e que os pobres logrem repor nos olhos da Justiça a tarja da cegueira que lhe imprime isenção.
Um Ano-Novo sem políticos mentirosos, autoridades arrogantes, funcionários corruptos, bajuladores de toda espécie. Livre de arroubos infantis, seja a política a multiplicação dos pães sem milagres, dever de uns e direito de todos.
Espero um Ano-Novo em que as cidades voltem a ter praças arborizadas; as praças, bancos acolhedores; os bancos, cidadãos entregues ao sadio ócio de contemplar a natureza, ouvir no silêncio a voz de Deus e festejar com os amigos as minudências da vida - um leque de memórias, um jogo de cartas, o riso aberto por aquele que se destaca como o melhor contador de piadas.
Desejo um Ano-Novo em que o líder dos direitos humanos não humilhe a mulher em casa; a professora de cidadania não atire papel no chão; as crianças cedam o lugar aos mais velhos; e a distância entre o público e o privado seja encurtada pela ponte da coerência.
Quero um Ano-Novo de livros saboreados como pipoca, o corpo menos entupido de gorduras, a mente livre do estresse, o espírito matriculado num corpo de baile, ao som dos mistérios mais profundos.
Desejo um Ano-Novo em que o governo coloque o país nos eixos, livre a população do pesado tributo da degradação social, e tome no colo milhões de crianças precocemente condenadas ao trabalho, sem outra fantasia senão o medo da morte.
Espero um Ano-Novo cujo principal evento seja a inauguração do Salão da Pessoa, onde se apresentem alternativas para que nunca mais um ser humano se sinta ameaçado pela miséria ou privado de pão, paz e prazer.
Um Ano-Novo em que a competitividade ceda lugar à solidariedade; a acumulação à partilha; a ambição à meditação; a agressão ao respeito; a idolatria ao dinheiro ao espírito das Bem-Aventuranças.
Aspiro a um Ano-Novo de pássaros orquestrados pela aurora, rios desnudados pela transparência das águas, pulmões exultantes de ar puro e mesa farta de alimentos despoluídos.
Rogo por um Ano-Novo que jamais fique velho, assim como os carvalhos que nos dão sombra, a filosofia dos gregos, a luz do Sol, a sabedoria de Jó, o esplendor das montanhas de Minas, a música gregoriana.
Um ano tão novo que traga a impressão de que tudo renasce: o dia, a exuberância do mar, a esperança e nossa capacidade de amar. Exceto o que no passado nos fez menos belos e bons.

Frei Betto

Estes são também os meus desejos para 2012. Agradeço a todos os amigos pela caminhada a meu lado, pelo apoio, pela tolerância com as poucas postagens neste espaço e pelos abraços que me envolveram. Que possamos permanecer irmanados pela paz, pelo amor e pela amizade, cultuando a ética, a dignidade e a solidariedade. Espero que o Scenarium continue a embelezar a minha alma de arte, para que eu possa dividir com vocês estes momentos de beleza e cultura. Feliz 2012!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Mensagem de Natal



Antes de acionar o vídeo, não se esqueça de dar pausa na play list musical do blog.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Il Volo



Em maio de 2009, três adolescentes, Piero Barone, Ignazio Boschetto e Gianluca Ginoble, apareceram no show de talentos "Ti Lascio Una Canzone" e deslumbraram os espectadores com a interpretação impecável de "O Sole Mio". Os meninos, que ganharam a competição com facilidade, foram batizados de "Il Volo", significando assim que esses três jovens tenores estavam prestes a abrir as asas e voar.

Não demorou muito e Michele Torpedine (que já cuidou da carreira de Andrea Bocelli e Zucchero, estrela italiana de rock) e o mundialmente conhecido cantor/produtor Tony Renis, conseguiram um contrato de gravação para o trio com a Universal Music Group, que lançou o álbum IL VOLO, na Itália, em novembro de 2010. O álbum já está na categoria ouro, indo para o status de platina em seu país de origem e teve um lançamento mundial em 2011. Além disso, eles se tornaram os primeiros artistas italianos a assinarem com a Geffen Records nos Estados Unidos, onde o álbum também foi lançado em 2011.

Piero, Ignazio, e Gianluca gravaram Il Volo, em Los Angeles e Roma, bem como no famoso estúdio de Londres, o Abbey Road. O álbum é uma vitrine para o talento estelar destes três jovens cantores.

O lançamento de IL VOLO é apenas o começo do que é certo ser uma aventura emocionante para Gianluca (que vem de Abruzzo), Ignazio (nascido em Bolonha), Piero (que é de Agrigento, na Sicília). Em fevereiro de 2010, o lendário produtor Quincy Jones convidou os meninos para representarem a Itália cantando no single de caridade "We Are The World: 25 para o Haiti", onde eles impressionaram as super-estrelas Celine Dion, Barbra Streisand, e Josh Groban, durante a sessão de gravação. Poucos dias depois, o grupo retornou à Itália para se apresentar no festival anual de música Sanremo 60.

Eles podem ser jovens, mas a missão de IL VOLO é clara: "Queremos compartilhar nosso amor pela música com pessoas de todo o mundo, incluindo jovens da nossa própria idade, o que seria pra nós um sonho”

Deixo para os amigos do Scenarium alguns momentos com os maravilhosos meninos. É só clicarem nos títulos abaixo:






sábado, 3 de dezembro de 2011

Manuel Bandeira



Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Jorge de Lima



Mulher proletária

Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Meio-Dia em Paris



Viajar para o continente europeu é almejar se encantar com a beleza artística que vem a reboque da História. Beleza contada num detalhe do entalhe que ornamenta uma igreja, um museu, um castelo ou as mais antigas moradias de uma cidade. É desvendar diferenças nos estilos e identificar o movimento cultural em que eles se enquadram. Ver-se como uma inspiração do pintor, do escultor, de um poeta ou de um escritor. Para mim, a Europa é o lugar onde me desapego da modernidade, esqueço obrigações e renasço num passado que em outra encarnação sinto que já pisei. E, se na Europa, independente do país ou da cidade, eu me sinto assim, quem me conhece sabe que em Paris, então, eu estou em casa.

Não, não pensem que é esnobismo! Eu digo que estou em casa, porque tenho a impressão que vivi ali em outras eras. Reservo sempre para o final das minhas viagens à Europa uma estada em Paris. É a cereja do bolo que saboreio, deixando no meu percurso o desejo de um breve retorno àquela encantadora cidade.

Mas Paris mudou. Ou será que fui eu que mudei?... Fiquei um tempo sem visitar a minha segunda cidade em preferência – o Rio de Janeiro é a primeiríssima - e já não a reconheci mais.

Paris estava transbordando de gente num mês em que a cidade não costuma lotar. Sabe-se que é a cidade mais visitada do mundo, mas a impressão que eu tinha era a de que todos resolveram ir pra lá, na mesma época. Uma verdadeira babel de idiomas!

Se encontrar uma cidade cheia incomoda, imagine ainda você se deparar com uma cidade amedrontada? E Paris está assim. Sofrendo com a imigração ilegal, aliada à crise que está assolando o continente europeu, a cidade viu aumentar a incidência de golpes em pessoas incautas. Não se vê mais o glamour que recendia da capital francesa. A realidade crua fica estampada na fisionomia desconfiada dos parisienses, quando interceptados para se pedir uma singela informação. Lá, não é comum violências com armas, mas apenas furtos, e para os residentes e, principalmente, para os turistas, fica aquele gosto amargo de que a qualquer momento você pode se tornar uma vítima.

É claro que estes não são motivos para que eu deixe de amar a cidade luz, entretanto, senti necessidade de fazer como Gil, o personagem vivido por Owen Wilson, no filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen. Já que à noite todos os gatos são pardos, ao meio-dia me vi postada nas escadarias da Igreja Saint-Étienne-Du-Mont, esperando a passagem do mesmo carro antigo, que me transportaria de volta àquela Paris que me conquistou.

Amigos, estou retomando as postagens do blog e aproveito para agradecer àqueles que se tornaram seguidores, durante o período de minhas férias.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Até breve!

Amigos, estou saindo de férias e aproveito para me desculpar pelas poucas postagens neste blog. Em novembro, se Deus quiser, estarei de volta e espero ter mais tempo para oferecer novidades a todos vocês.

Abraços e até lá!

Marise Ribeiro

domingo, 11 de setembro de 2011

Rivkah Cohen



Nada doerá mais!

Conheço esse olhar parado, sereno
como quem aguardou setembro
e ele não chegou..
Sei que vieram as estações do tempo,
mas nada do que fizeram,
lhe trouxe alento ou amenizou.

Enfrentei tempestades,
amarguei fortes ventos,
mas nada doerá mais que ter a vontade
de ser setembro
e não sou..

© rivkahcohen
Brasília (DF) - Brasil

Visite a sensibilidade de Rivkah Cohen clicando aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ju Rigoni



Do Espanto

Saí de casa sem sair...
Não me vesti com esmero;
não pintei os lábios;
não levei bolsa,
documentos, dinheiro...

Fui-me,...
em uma ou duas piscadas,
levada pelos sentimentos
que embaralham palavras...

Conversei-me,
desconversei-me,
e, como sempre,
não me entendi...
Ai, que merecia uns tapas!...

(Se do lado de fora
alguém passasse e me visse
em meio a tamanha pendenga
me acreditaria uma louca
a falar com janelas e portas...)

Voltei...
e, finalmente, resolvi sair, -
vestindo o melhor vestido,
usando o batom mais vermelho,
calçando sapatos bonitos,
de saltos altos infinitos...

Nem bolsa, nem documentos,
nem dinheiro.
Mãos... nuas;
coração sobrecarregado,
sem piscar, alcancei a rua.

Na esquina
dei de cara com a sina
de quem sai de casa
levando apenas sonhos
e palavras...

© ju rigoni (2002)
Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

Convido os amigos a conhecerem os espaços onde Ju Rigoni derrama sonhos e palavras:

Dormentes
http://dormentes.blogspot.com/

Fundo de Mim
http://jurigoni.blogspot.com/

Medo de Avião
http://medodeaviao.blogspot.com/

Navegando...
http://planetazora.blogspot.com/

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sonia Pallone



O Gosto do Beijo

“...Quem sabe o gosto de um beijo desesperado?
Não aquele da cama,
na hora em que a loucura do prazer deixa marcas...
Nem aquele, que apesar de louco,
sabe que vai ter tempo pra continuar
e dar mais um e mais outro...
Eu falo daquele beijo,
que o desejo faz queimar antes de sentir...
Que você antevê com os olhos antes de alcançar a boca...
Daquele que você sabe que não vai poder dar
porque aquela boca é sua,
mas o tempo daquele beijo não é...
Daquele beijo que a letra da música canta
e você fecha os olhos, oferece e sente...
Falo daquele beijo
que o desejo faz querer mais que temer o medo...
Do beijo que arrebatou o único momento possível
e na eternidade desse instante a sós,
implode com raiva, com fúria,
salgado de lágrimas,
amargo de sofreguidão, doce de paixão...
Um beijo desesperado sim,
porque nasceu da vontade do impossível
e deixou para sempre a boca molhada
e ávido o coração..."

Sonia Pallone

http://www.solidaodealma2.blogspot.com/

sábado, 27 de agosto de 2011

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Antonio Villeroy



Heroína E Vilã

Letra e Música: Antonio Villeroy

Estenda no chão
O tapete que eu quero passar
Esqueça a razão
Deixe tudo pra me adorar

Ponha em minha mão
Uma pedra bonita
Eu lhe segredo mentiras
Você acredita

Não ouça não
O que andam falando de mim
Por puro ciúme, despeito
Inveja ou coisas assim

Perca a noção
Do perigo que espreita
Eu faço a cama na lama
E você se deita

Você vai me seguir
Sou sua heroína e vilã
Viva comigo essa noite
E esqueça o amanhã

Não diga não
Aos caprichos de uma mulher
Preste atenção
Se você realmente me quer

Em compensação
Vou mudar sua vida
Mas se você não quiser
Já estou de saída

Você vai me seguir
Sou sua heroína e vilã
Viva comigo essa noite
E esqueça o amanhã

Escolhi esta bela canção de Antonio Villeroy como um efetivo exemplo do poder da metáfora num texto poético. Não se deixe influenciar por esta bela mulher, diga não às drogas!

Aprecie a interpretação de Ana Carolina, clicando aqui.

domingo, 26 de junho de 2011

Anna Müller



Término

Todas as flores morreram;
a terra já não é fértil,
as águas já não são límpidas,
já não se ouve o gorjeio dos pássaros.
O sol já perdeu seu calor,
deu-se adeus ao arco-íris!
As folhas amareladas
caem sufocantes pelo chão;
nem mais as lágrimas orvalhadas
escorrem nas manhãs de primavera.
Já não há primaveras,
esgotaram-se os verões,
foi o último outono
que trouxe o inverno eterno.
O vento já não faz brisa;
roça gélido na pele,
pintando de branco
o sangue impuro dos mortais.
A vida já não tem mais
a mesma alegria da infância;
ela açoita os últimos momentos
e sangra silenciosa
o grito de desespero...
Não há mais esperança.
O gelo sobre a pedra
começa a marcar o fim
de um tempo que não
é possível retroceder.
Os montes verdejantes agora são
cascalhos duros e sem vida.
Tudo em volta está se acabando;
o mar, antes bravejante,
agora é manso e silencioso,
negro como as profundezas.
Os rios perderam suas forças,
apenas correm para morrer no mar,
misturam-se...E morrem.
Nada tem mais sentido;
nada mais tem valor.
A chuva queima feito ácido,
todas as cores em branco e preto.
Como um quadro queimado
a vida acaba em cinzas.
Um sopro...
me torno inexistente.

© Anna Müller
Roraima (RR) - Brasil
RR, 23/06/2011

Para ouvir este poema interpretado pela autora, clique aqui, mas antes disso não se esqueça de dar pausa na playlist musical do blog.


Não deixe de visitar a sensibilidade de Anna Müller no Canto da Poesia.

domingo, 19 de junho de 2011

Elane Tomich



Lá...

Lá é tão longe do mundo,
onde acaba o arrepio,
a quina do meio-fio,
espírito do olhar mais fundo.

onde no abismo caio,
o final do latifúndio
em tanto chão de saudade.

Primeira gota do rio,
o medo do poço fundo
de onde o vento é oriundo,
meia-volta de desvios.

muito além da saciedade
vontade em eterno gerúndio
onde, de amor, desmaio.

© Elane Tomich
Teófilo Otoni (MG) – Brasil

Conheça mais poemas da autora no Recanto das Letras.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Patativa do Assaré



Aposentadoria de Mané do Riachão

Seu moço, fique ciente
De tudo que eu vou contar,
Sou um pobre penitente
Nasci no dia do azá,
Por capricho eu vim ao mundo
Perto de um riacho fundo
No mais feio grutião
E como ali fui nascido,
Fiquei sendo conhecido
Por Mané do Riachão.

Passei a vida penando
No mais crué padecê,
Como tratô trabaiando
Pru filizardo comê,
A minha sorte é trucida
Pá miorar minha vida
Já Rezei e fiz premessa
Mas isso tudo é tolice,
Uma cigana me disse
Que eu nasci foi de trevessa.

Sofrendo grande cancêra
Virei bola de biá
Trabaiano na carrêra
Daqui pra ali pra culá
Fui um eterno criado
Sempre fazendo mandado
Ajudando aos home rico,
Eu andei de grau em grau
Taliquá o pica-pau
Caçando broca em angico.

Sempre entrano pelo cano
E sem podê trabaiá,
Com sessenta e sete ano
Percurei me aposentar,
Fui batê lá no iscritoro
Depois eu fui no cartoro
Porém de nada valeu,
Veja o que foi , cidadão,
Que aquele tabelião
Achou de falar prá eu.

Me disse aquele escrivão
Frangino o côro da testa:
- Seu Mané do Riachão
Esses seus papé não presta,
Isto aqui não vale nada,
Quem fez esta papelada
Era um cara vagabundo,
Prá fazê seu apusento
Tem que trazê decumento
Lá do começo do mundo.

E me disse que só dava
Prá fazê meu aposento
Com coisa que eu só achava
No antigo Testamento,
Eu que tava prazentêro
Mode recebê o dinhêro
Me disse aquele iscrivão
Que precisava do nome
E tombém do subrenome
De Eva e seu marido Adão.

E além da Identidade
De Eva e seu marido Adão
Nome da niversidade
Onde estudou Salomão
E outras coisa custosa,
Bem custosa e cabulosa
Que neste mundo revela
A escritura sagrada
Quatro dedo da quêxada
Que Sanção brigou com ela.

Com a manobra e mais manobra
Prá puder me aposentar,
Levá o nome da cobra
Que mandou Eva pecar
E além de tanto fuxico,
O registro e currico
De Nabucodonosô,
Dizê onde ele morreu,
Onde foi que ele nasceu
E aonde se batizô.

Veja moço, que novela,
Veja que grande caipora
A pior de todas elas
O senhô vai vê agora,
Pra que eu me aposentasse,
Disse que tombém levasse
Terra de cada cratera
Dos vulcão dos istrangero
E o nome do vaquêro
Que amançou a besta fera.

Escutei achando ruim
Com a paciência fraca
E ele olhando prá mim
Com os olhos de jaraca
Disse a coisa aqui é braba
Precisa que você saba
Que sou iscrivão
Ou estas coisa apresenta
Ou você não se aposenta
Seu Mané do Riachão

Veja moço, o grande horrô
Sei que vou morrer depressa
Bem que a cigana falou
Que eu nasci foi de trevessa
Cheio de necessidade
Vou viver da caridade
Uma esmola cidadão
Lhe peço no santo nome
Não deixe morre de fome
O Mané do Riachão

Antonio Gonçalves da Silva
© Patativa do Assaré
Ceará (CE) – Brasil

Para vocês apreciarem um pouco mais a poesia de Patativa do Assaré ou saberem mais sobre a vida e a obra do poeta, visitem os itens abaixo:

- trailer do filme “Patativa do Assaré – Ave Poesia”, de Rosemberg Cariry

- vídeo sobre a trajetória do poeta, feito por Giselle Franca Bernard

- Vaca Estrela e Boi Fubá – de Fagner e Patativa do Assaré

- Sina - de Fagner, Ricardo Bezerra e Patativa do Assaré

sábado, 11 de junho de 2011

Antonieta Elias Manzieri




Sem Vaidades...

Quando chegar a hora da partida,
não levarei bagagem.
Será longa a caminhada.
Para que carregar mais peso?

Não precisarei de mais nada!
Tudo quanto eu possa levar
não será de utilidade,
seriam apenas vaidades
que não terei onde usar.

Nada de material ou supérfluo,
tudo ficará para trás...
Levarei, sim, outros valores,
que não farão nenhum peso,
mas irão acrescentar!

Seguirei tão leve...

Levarei o carinho de quem me amou,
que também amei e sempre amarei!
Levarei a ternura dos amigos queridos
e também muitas saudades...

Comigo irá a certeza que terei deixado
para quem fica o meu maior legado:
minha grande amizade
e o meu amor a eles dedicado.

Deixarei meus versos
para que se lembrem de mim,
quando um dia eu me chamar...
"Saudade”.

(Protegido pela lei dos direitos autorais n° 9610/98).

©Antonieta Elias Manzieri
São Paulo (SP) – Brasil

Você não só se chamará “saudade”, mas também “poesia”.
Esta postagem é uma singela homenagem à querida Anny, que nos deixou nesta data, mas estará sempre presente através de suas letras poéticas.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Lisete Johnson



¿Dónde andan los quijotes?

Mi tierra no es La Mancha
y ni tampoco, Toboso.
Es un país verde amarillo,
muy lejos de los castillos,
muy cerca de los tramposos.

Quisiera que fuese ardiente,
con valles ensolarados,
con Quijotes muy valientes
y con Sanchos muy gallardos.

Que soñar fuese posible,
que no hubiese el hambre
y el monstruo más terrible
fuese molinos de viento,
girando veloz contra el tiempo
sin dejar herida alguna.

Quisiera que los caminos
de todos nobles Quijotes,
caballeros sin destinos,
llevasen a una aldea
donde hubiese Dulcineas
con generosos escotes.

Quisiera que las doncellas
si encantasen por hidalgos
sin plata, pero garbosos
de honor y de buenas ganas
de cambiar el mundo en rosas
mismo que con mente insana.

Que en esta tierra amada,
con falta de Don Quijotes,
venciendo todos peligros,
trayendo consigo el mote;
"Hombre de Triste Figura",
en vez de palabras duras
Sólo hazañas valerosas.

Quisiera que, como él,
hubiese aquí caballeros
enderezando los tuertos,
y deshaciendo agravios,
y repartiendo repuestos
con todos sus compañeros.

Que in my país, cuyo mar,
sólo trae pescados buenos,
llenase los platos del pobre,
que sólo mastica su hambre
y llena de viento su panza
sin perder la esperanza
de tener pez e fiambres.

Que fuese apenas locura
la mirada de los niños,
que viven bajo los puentes,
luchando sin armaduras
y sin ningún Rocinante.

Que hubiese mesa y mantel
con mucho pan y esperanza
pues el dolor más cruel,
ya decía Sancho Panza,
con panes son más pequeñas.

Que los rocinantes de aquí
ganasen pan y cariño
para si aguantar en el trote
de las trillas con espinos
por donde todos Quijotes
buscan siempre sus caminos.

Que en mi país solamente
el seso se perdiese así;
enanos contra gigantes,
escuderos sin su amos
y todos los Rocinantes
cabalgando las estrellas.

Poesia vencedora no concurso promovido pelo Colégio Cervantes e pela Embaixada da Espanha, em 2005, por ocasião da comemoração aos 400 anos do lançamento da obra “Dom Quixote de La Mancha”

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Tim Noble e Sue Webster

Tim Noble e Sue Webster são artistas ingleses, que criam esculturas de sombras. Diversos materiais são utilizados para compor as esculturas: lixo doméstico, sucatas, animais empalhados, etc. Com fontes de luz, dispostas de forma estratégica, as esculturas de sombras são de um realismo impressionante. Apreciem!



































sábado, 21 de maio de 2011

5º Aniversário do Cenário de Sentimentos



O Cenário de Sentimentos está fazendo 5 anos de existência e lá eu guardo meus sentimentos e minhas emoções em forma de poesia, por isso, convido a todos para uma visita, o que me deixará muito feliz.


Para quem quiser entrar pela página principal, é só clicar na imagem. Para quem quiser conhecer apenas os poemas da atualização de aniversário, é só clicar nos links abaixo.

Entreatos

Remanso

Um Olhar Amadurecido

Anistia

Para deixar sua opinião, o que é muito importante pra mim, acesse o link abaixo:

Livro de Visitas

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Silvia Nobre Wajãpi







Convido-os a assistirem, no vídeo acima, a entrevista da primeira mulher indígena a integrar nossas Forças Armadas.
Silvia Wajãpi tem uma história de vida emocionante; seu patriotismo e sua determinação demonstram a garra da mulher genuinamente brasileira. Sua luta aguçou ainda mais sua sensibilidade, levando-a também ao mundo das letras.


Quero apenas um amor

Quero apenas um amor que vasculhe meu corpo e devore a minha carne com a mesma velocidade que pulsa o sangue em minhas veias.
Quero apenas um amor capaz de possuir até minha alma, jogar-me sobre um leito, debruçar-se em meu peito e ouvir as batidas do meu coração.
E meu corpo será dele, minha alma será dele, meu corpo tremerá por ele porque terei a certeza que não mais quererei outro.
E embora noites sejam apenas noites, quero descobrir todos os mistérios e sentir a força do suspiro e do olhar que me arrebata.
E embora noites sejam apenas noites, quero lambuzar-me no néctar da paixão, embriagar-me com ele e entregar-me louca em suas mãos.
E embora noites sejam apenas noites, quero sentir este corpo no meu... E sentir, sentir e sentir... Até que não nos reste mais forças para continuar amando...
Quero apenas um amor...
O amor que é teu!


Mulheres da Floresta

Mulheres cujos olhos brilhavam como estrelas, seduziam a noite escura para conhecerem os mistérios da floresta... Varriam a noite ao doce som de suas gargalhadas inocentes de menina. Mas no seu peito irradiavam o calor e o desejo de amor e em seu ventre eram capazes de escravizar a alma de qualquer mortal. Essas Mulheres da Floresta amavam enlouquecidas! E não se vestindo de nada, eram repletas de tudo...
E era assim que as Mulheres da Floresta escravizavam a alma de seu homem... E nesta União Sagrada ardiam em desejos, devoravam-se como animais ferozes e queimavam como um fogo que nunca se apaga... (do Livro: Olhos da Amazônia - Silvia Nobre)

sábado, 7 de maio de 2011

Augusto dos Anjos



Mater

Como a crisálida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!

E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
- Fecunda fonte desse mesmo leite
Que amamentou os éfebos de Esparta -

Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!

Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas coisas pequeninas
A um biscuit de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.

Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescer, há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias.
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!

Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos,
Relembrarás chorando o que eu te disse,
À sombra dos sicômoros eternos!

Pau d‘Arco,1905 - Paraíba
(In Eu)


O Scenarium deseja a todos um Feliz Dia das Mães!

domingo, 10 de abril de 2011

Andrea Bocelli e Sarah Brightman




Curtam este belíssimo momento, mas não se esqueçam de acionar a pausa na play list musical do blog.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Naldo Velho - A Dança do Tempo



(...) Naldo alcança o que tantos perseguem e nunca conseguem: um estilo próprio. Pois, em "A DANÇA DO TEMPO", encontramos, com prazer, o estilo "naldovelho" de fazer poesia: um lirismo pontiagudo, perverso, cruel, erótico, sensual, extrovertido, e, ao mesmo tempo, e paradoxalmente, intimista, suave, musical, doce — apaixonado e apaixonante — comovente! Em seu novo livro, o poeta, em sua madureza, consegue timbres e dicções só seus, executados e pensados fluentemente. E, ao mesmo tempo em que se mostra se esconde, deixando ao leitor descobrir a sua face verdadeira entre as muitas antíteses de seu fazer poético. (...)
Tanussi Cardoso - Poeta e jornalista. Presidente do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro (SEERJ)
(...) A leitura destes poemas exige fôlego, tal a força de sua linguagem metafórica, através da qual há um pensar angustiado sobre o mundo em pleno movimento. Escrever evidencia-se vital para Naldo Velho, porque o poeta sabe que sua palavra é coisa viva, que tanto não se acomoda literariamente em formas pré-estabelecidas, quanto não se limita existencialmente a padrões de pensamentos. Neste livro não importa o som final de cada verso, uma vez que ele sempre rima com inquietude e libertação. (...)
Marcus Vinicius - Poeta e crítico literário
O lado de lá... Repensando os versos dessa obra, questiono-me, inquietantemente — o que faz dos versos a poesia? Como desconstruir os hiatos silentes do poema? É, meu amigo. Esse é Naldo Velho. Apontando-nos o lado de lá da poesia. Um ambicioso autor traçando e desvelando linhas e cantigas. Dançando no tempo. O seu alvo, a alma. Perceber e compreender a linguagem da sensibilidade que combinam arranjos verbais e significações pelos quais vislumbramos nossos sentimentos e recordações. É verdade: do "lado de cá mora um poeta" que navega em águas revoltas e desconhecidas. Desbravador, solitário almirante. Um poeta. Fazendo-nos compreender a natureza da fala poética.
Mozart Carvalho - Poeta e professor de literatura

Quando Alongo Olhos

Quando alongo olhos de horizonte,
percebo a pequenez da palavra pavio,
a complexidade do emaranhado de fios,
a amplitude das coisas sem dono
e a insensatez de vivermos com pressa.

Quando alongo olhos de cidade,
percebo a pequenez da palavra distância,
a complexidade da palavra conversa,
a frustração de acordar de um sonho
e descobrir que somos apenas humanos.

Quando alongo olhos de permanecer,
percebo a pequenez da palavra descrença,
a complexidade do ciclo das águas,
a “infinitude” da palavra caminho,
e reconheço que ainda há muito a aprender.

Poeta É Uma Merda!

Tem certas palavras
que vivem de "foder" o juízo!
Devoram entranhas,
matam aos pouquinhos.

A palavra inquietude é uma merda!
Devorou parte do meu fígado,
parte do pâncreas, o baço
e um pedaço do intestino.
Fez com que eu "descomesse"
palavras e significados,
tudo misturado numa massa pastosa,
que alguns chamam de verso.

Pior do que ela,
só a palavra amargura.
Lembra coisa pesada,
e de solidez cristalizada,
em nódulos, abscessos...
Faz adormecer pedra
e acordar depressão.

Poeta é uma merda!
Ou vive de inquietude,
ou morre de solidão.

Lua Cheia

Aberta a janela,
lua cheia invadiu meu quarto.
Sem sequer pedir licença
deitou em minha cama,
sugou do meu corpo:
sangue, suor, saliva, sêmen.
Pela manhã:
lençóis umedecidos,
travesseiros emudecidos...
Solidão!

Se você gostou deste aperitivo de A Dança do Tempo, entre em contato com o Poeta Naldo Velho, clicando aqui, e peça o seu exemplar. Se quiser conhecer mais a sensibilidade do Poeta, visite-o em http://poemaspoesiasnaldovelho.blogspot.com/


Nota: Estou com sérios problemas na configuração deste blog. Há algum script em conflito com o html que não me deixa arrumar os textos corretamente. Por conta disto, os poemas ficaram com os versos espaçados.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Leonardo Boff



Interpretação feminista do relato da criação
As teólogas feministas nos despertaram para traços antifeministas no atual relato da criação de Eva (Gn 1,18-25) e da queda original (Gn 3,1-19), o que veio reforçar na cultura o preconceito contra as mulheres. Consoante este relato, a mulher é formada da costela de Adão que, ao vê-la, exclama: “eis os ossos de meus ossos, a carne de minha carne; chamar-se-á varoa (hebraico: ishá) porque foi tirada do varão (ish); por isso o varão deixará pai e mãe para se unir a sua varoa: e os dois serão uma só carne” (2,23-25).
O sentido originário visava mostrar a unidade homem/mulher. Mas a anterioridade de Adão e a formação a partir de sua costela foi, porém, interpretada como superioridade masculina. O relato da queda soa também antifeminista: “Viu, pois, a mulher que o fruto daquela árvore era bom para comer... tomou do fruto e o comeu; deu-o também a seu marido e comeu; imediatamente se lhes abriram os olhos e se deram conta de que estavam nus” (Gn 3,6-7).
Interpreta-se a mulher como sexo fraco, pois foi ela que caiu na tentação e, a partir daí, seduziu o homem. Eis a razão de seu submetimento histórico, agora ideologicamente justificado: “estarás sob o poder de teu marido e ele te dominará” (Gn 3,16).
Há uma leitura mais radical, apresentada por duas teólogas feministas, entre outras: Riane Eisler (Sacred Pleasure, Sex Myth and the Politics of the Body,1995) e Françoise Gange (Les dieux menteurs 1997) que aquí resumo. Estas autoras partem do dado histórico de que houve uma era matriarcal anterior à patriarcal. Segundo elas, o relato do pecado original seria introduzido no interesse do patriarcado como uma peça de culpabilização das mulheres para arrebatar-lhes o poder e consolidar o domínio do homem. Os ritos e os símbolos sagrados do matriarcado teriam sido diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior. O atual relato do pecado original coloca em xeque os quatro símbolos fundamentais do matriarcado.
O primeiro símbolo atacado é a mulher em si que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal ela simbolizava a Grande-Mãe. Agora é feita a grande sedutora.
No segundo, desconstrói-se o símbolo da serpente que representava a sabedoria divina que se renovava sempre como se renova a pele da serpente.
No terceiro, desfigura-se a árvore da vida, tida como um dos símbolos principais da vida, gestada pelas mulheres, agora colocada sob o interdito: “não comais nem toqueis de seu fruto” (3,3).
No quarto, se distorce o caráter simbólico da sexualidade, tida como sagrada, pois permitia o acesso ao êxtase e ao conhecimento místico, representada pela relação homem-mulher.
Ora, o que faz o atual relato do pecado original? Inverte totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Desacraliza-os, diaboliza-os e transforma o que era bênção em maldição.
A mulher é eternamente maldita, feita um ser inferior, sedutora do homem que “a dominará” (Gen 3,16). O poder de dar a vida será realizado entre dores (Gn 3,16).
A serpente será maldita, feita inimigo fidagal da mulher que lhe ferirá a cabeça, mas que será mordida no calcanhar (Gn 3,15).
A árvore da vida e da sabedoria cai sob o signo do interdito. Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora comer dela significa perigo letal (Gn 3,3).
O laço sagrado entre o homem e a mulher é substituído pelo laço matrimonial, ocupando o homem o lugar de chefe e a mulher de dominada (Gn 3,16).
Aqui se operou uma desconstrução profunda do relato anterior, feminino e sacral. Hoje todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador como está no Gênesis.
Por que escrever sobre isso? É para reforçar o trabalho das teólogas feministas que nos apontam quão profundas são as raízes da dominação das mulheres. Ao resgatarem o relato mais arcaico, feminista, elas visam propor uma alternativa mais originária e positiva na qual apareça uma relação nova com a vida, com os gêneros, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade.
Leonardo Boff
Filósofo/Teólogo
Leonardo Boff escreveu com Rose Marie Muraro o livro “Feminino&Masculino”, Record 2010.
Fonte: Letras Et Cetera

domingo, 27 de março de 2011

Almas Douradas me abraçou!



No mesmo dia em que postei a mensagem abaixo sobre a necessidade de um abraço, também relembrei, para alguns amigos, um texto da minha Série Entreatos, que se encontra editada em meu site Cenário de Sentimentos.

Não demorou e ganhei um grande abraço virtual do amigo José Carlos Cardoso Manzano, em seu blog Almas Douradas. Agradecida pelo carinho, convido os amigos e seguidores a visitarem um dos belos espaços do José Carlos. É só clicar na imagem acima.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Às vezes, um abraço é tudo o que precisamos.

Recebi este vídeo de uma amiga e achei a idéia genial. Resolvi pesquisar sobre sua história e aqui está um resumo de como nasceu essa linda campanha.

"Free hugs" é uma história real e controversa de Juan Mann, um homem cujo único intento era o de abraçar um estranho para iluminar a vida daquela pessoa e a sua própria.

Como tudo começou:

Juan Mann estava morando em Londres, quando seu mundo virou de cabeça pra baixo e ele teve de voltar pra casa, em Sydney. No momento em que seu avião pousou, tudo o que ele tinha eram uma bagagem de mão cheia de roupas e um mundo de problemas. Ninguém para recebê-lo de volta e nem um lugar para chamar de lar. Ele era um turista em sua cidade natal. De pé no terminal de chegadas, observando os outros passageiros se encontrarem com amigos e familiares que estavam à espera, de braços abertos e faces sorridentes, ele queria que alguém estivesse esperando por ele. Alguém que ficasse feliz em vê-lo, que sorrisse pra ele, que o abraçasse. Então, de posse de um papel e de uma caneta marcadora escreveu algo. Colocou-se no mais movimentado cruzamento de pedestres da cidade e levantou o cartaz com as palavras "Free Hugs” (abraço grátis) em ambos os lados. Por 15 minutos, as pessoas passaram por ele e apenas o olharam. A primeira pessoa que parou, bateu no seu ombro e lhe contou que seu cachorro tinha morrido naquela manhã e que naquela manhã tinha sido o aniversário de um ano de sua única filha, morta em um acidente de carro. Tudo o que ela precisava agora era de um abraço. Exatamente como ele se sentiu no aeroporto. Ele se postou de joelhos, se abraçaram e, quando se separaram, a mulher estava sorrindo.
Todo mundo tem problemas, mas ver alguém que se aproxima com o semblante fechado, o sorriso, mesmo que por um momento, vale a pena o tempo todo.

Esta história é contada pelo próprio Juan Mann e eu apenas a coloquei na 3ª pessoa.
Nesta era de distanciamento social e falta de contato humano, os efeitos da campanha Free Hugs se tornaram um fenômeno.
Vocês encontrarão vídeos da campanha em outras cidades e ela chegou a ser proibida pelas autoridades policiais de Sydney.
O fundo musical de todos os vídeos da campanha é “All the Same”, do Sick Puppies. Para ouvi-lo melhor neste vídeo acima, não se esqueça de dar pausa na playlist musical do blog, que se encontra no layout lateral.

Fonte:
http://www.freehugscampaign.org/

domingo, 20 de março de 2011

Camilo Pessanha



Caminho

Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

Camilo Pessanha
(In Clepsidra e outros poemas - Coleção Poesia - Edições Ática 1973)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Parabéns às Mulheres e ao Scenarium!



No dia 8 de Março, este blog estará completando dois anos de existência. Em virtude de pequeno recesso, por conta da folia momesca, deixo o meu agradecimento aos amigos e seguidores que estiveram conosco durante este período.

Como o Scenarium foi lançado no Dia Internacional da Mulher, dedico a todas as mulheres o excelente texto abaixo, de autoria de Jenny Londoño, que tenho guardado há muito tempo. O texto foi premiado em primeiro lugar no concurso de poesia Gabriela Mistral, em Quito, Equador, no ano de 1992. Trata-se de um retrato do que vem acontecendo com as mulheres desde tempos remotos: submissão, maus-tratos, exploração sexual, etc.

Reencarnaciones

Vengo desde el ayer, desde el pasado oscuro y olvidado con las manos atadas por el tiempo, con la boca sellada desde épocas remotas.

Vengo cargada de dolores antiguos, recogidos por siglos, arrastrando cadenas largas e indestructibles.

Vengo desde la oscuridad del pozo del olvido, con el silencio a cuestas, con el miedo ancestral que ha corroído mi alma desde el principio de los tiempos.

Vengo de ser esclava por milenios, esclava de maneras diferentes, sometida al deseo de mi raptor en Persia, esclavizada en Grecia, bajo el poder romano. Convertida en vestal, en las tierras de Egipto, ofrecida a los dioses de ritos milenarios, vendida en el desierto o canjeada como una mercancía.

Vengo de ser apedreada por adúltera en las calles de Jerusalén, por una turba de hipócritas, pecadores de todas las especies, que clamaban al cielo mi castigo.

He sido mutilada en muchos pueblos para privar mi cuerpo de placeres y convertida en animal de carga, trabajadora y paridora de la especie.

Me han violado sin límite, en todos los rincones del planeta, sin que cuente mi edad madura o tierna o importe mi color o mi estatura.

Debí servir ayer a los señores, prestarme a sus deseos, entregarme, donarme, destruirme, olvidarme de ser una entre miles.

He sido barragana de un señor de Castilla, esposa de un Marqués y concubina de un comerciante griego, prostituta en Bombay y filipinas y siempre ha sido igual mi tratamiento.

De unos y de otros siempre esclava, de unos y de otros dependiente, menor de edad en todos los asuntos, invisible en la historia mas lejana, olvidada en la historia más reciente.
Yo no tuve la luz del alfabeto durante largos siglos. Aboné con mis lágrimas la tierra que debí cultivar desde mi infancia.

He recorrido el mundo en millares de vidas que me han sido entregadas una a una.
Y he conocido a todos los hombres del planeta: los grandes y pequeños, los bravos y cobardes, los viles, los honestos, los buenos, los terribles.

Mas casi todos llevan la marca de los tiempos. Unos manejan vidas como amos y señores, asfixian, aprisionan, succionan y aniquilan.

Otros manejan almas: comercian con ideas, asustan o seducen, manipulan y oprimen.
Unos cuentan las horas con el filo del hambre, atravesado en medio de la angustia. Otros viajan desnudos por su propio desierto y duermen con la muerte en la mitad del día.
Yo los conozco a todos. Estuve cerca de unos y de otros, sirviendo cada día, recogiendo las migajas, bajando la cerviz a cada paso, cumpliendo con mi karma.

He recorrido todos los caminos. He arañado paredes y ensayado cilicios, tratando de cumplir con el mandato de ser como ellos quieren, mas no lo he conseguido.

Jamás se permitió que yo escogiera el rumbo de mi vida. He caminado siempre en una disyuntiva, ser santa o prostituta.

He conocido el odio de los inquisidores que a nombre de "la santa madre iglesia", condenaron mi cuerpo a su sevicia o a las infames llamas de la hoguera.

Me han llamado de múltiples maneras: bruja, loca, adivina, pervertida, aliada de Satán, esclava de la carne, seductora, ninfómana, culpable de los males de la tierra.

Pero seguí viviendo, arando, cosechando, cosiendo, construyendo, cocinando, tejiendo, curando, protegiendo, pariendo, criando, amamantando, cuidando, y sobre todo amando.

He poblado la tierra de amos y de esclavos, de ricos y mendigos, de genios y de idiotas, pero todos tuvieron el calor de mi vientre, mi sangre y mi aliento, y se llevaron un poco de mi vida.

Logré sobrevivir a la conquista brutal y despiadada de Castilla en las tierras de América, pero perdí mis dioses y mi tierra y mi vientre parió a gente mestiza, después de que el castellano me tomara por la fuerza.

Y en este continente mancillado proseguí mi existencia, cargada de dolores cotidianos. Negra y esclava en medio de la hacienda, me vi obligada a recibir al amo cuantas veces quisiera, sin poder expresar ninguna queja.

Después fui costurera, campesina, sirvienta, labradora, madre de muchos hijos miserables, vendedora ambulante, curandera, cuidadora de niños y de ancianos, artesana de manos prodigiosas, tejedora, bordadora, obrera, maestra, secretaria o enfermera.

Siempre sirviendo a todos, convertida en abeja o sementera, cumpliendo las tareas más ingratas, moldeada como cántaro por las manos ajenas.

Y un día me dolí de mis angustias. Un día me cansé de mis trajines, abandoné el desierto y el océano, bajé de la montaña, atravesé las selvas y confines y convertí mi voz dulce y tranquila en bocina del viento, en grito universal y enloquecido.

Y convoqué a la viuda, a la casada, a la mujer del pueblo, a la soltera, a la madre angustiada, a la fea, a la recién parida, a la violada, a la triste, a la callada, a la hermosa, a la pobre, a la afligida, a la ignorante, a la fiel, a la engañada, a la prostituta.
Vinieron miles de mujeres, juntas, a escuchar mis arengas. Se habló de los dolores milenarios, de las largas cadenas que los siglos nos cargaron a cuestas.

Y formamos con todas nuestras quejas un caudaloso río que empezó a recorrer el universo, ahogando la injusticia y el olvido.

El mundo se quedó paralizado. ¡los hombres sin mujeres no caminan!

Se pararon las máquinas, los tornos, los grandes edificios y las fábricas, ministerios y hoteles, talleres y oficinas, hospitales y tiendas, hogares y cocinas.

Las mujeres, por fin, lo descubrimos. ¡somos tan poderosas como ellos y somos muchas más sobre la tierra ! ¡ más que el silencio y más que el sufrimiento ! ¡ más que la infamia y más que la miseria !

Que este canto resuene en las lejanas tierras de indochina, en las arenas cálidas del África, en Alaska o en America latina, llamando a la igualdad entre los géneros, a construir un mundo solidario -- distinto, horizontal, sin poderíos -- a conjugar ternura, paz y vida, a beber de la ciencia sin distingos.

A derrotar el odio y los prejuicios, el poder de unos pocos, las mezquinas fronteras. A amasar con las manos de ambos sexos el pan de la existencia.

Jenny del Pilar Londoño López

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Luli Coutinho



Solitude

Meus olhos andam cansados
Procuro cores na paisagem
No horizonte olhar fixado
Relembra aquela imagem...

Invisíveis e sem resposta
Não mais encontro lugares
Dia turvo embaça a música
Jazem as cores meus luares

Levo o sorriso que não tenho
Num anjo de mármore impuro
Lágrimas e lembranças ocultas
Em máscaras nos dias duros

E o peso do mundo me consome
Perdoa-me não aflorar a poesia
A inspiração hoje é sem nome
Solitude inunda os olhos do dia.

© Luli Coutinho
São Paulo (SP) – Brasil

Visite a sensibilidade de Luli Coutinho em:
- Luli Coutinho
- Recanto das Letras

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cecília Rodrigues



Soneto Leve

Na hora mais serena eu penso em ti!
Na brisa mais amena, sinto-o leve;
Tal como um suave beijo do Bem-Te-Vi,
Visto-me deste sonho que me embebe...

Remansos de mim, poesia se atreve
Vítima de nós, e eu vítima de ti;
Passos de letras sós, i'nda que breves,
I'nda que lentos, esmorecem aqui!

Neste poema, d'intemporal quimera
Leio e releio, qual infinita era...
Talvez te encontre naquilo que eu reli;

Talvez, eu te sinta um sinuoso poema...
Sigo o caminho desta minha pena...
E ao cantar o amor, digo: - Não te perdi!

© Cecília Rodrigues
Viseu – Portugal


Visite Cecília em seu espaço Cecy Poemas

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Carmel A-Cappella



Carmel A-Capella é um quinteto vocal de Haifa, Israel, composto por mulheres, e sua característica musical principal é a de cantar a capela.
O repertório do grupo inclui arranjos vocais de clássicos instrumentais, canções israelenses, canções folclóricas de diversos países, canções de musicais famosos, jazz e música latina.
O quinteto tem como diretora e arranjadora musical a argentina Shula Erez.
Para apreciar a performance do quintento, interpretando "A Primavera", de Vivaldi, é só clicar na imagem.
A seguir, mais duas interpretações do grupo:

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Jarbas Agnelli e Paulo Pinto



Em “A Arte de Ser Feliz”, Cecília Meireles diz que “quando fala de pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim” e foi exatamente com o olhar de poesia que Jarbas Agnelli traduziu uma foto de pássaros pousados nos fios de luz de uma rua, feita pelo repórter fotográfico Paulo Pinto, no interior do Rio Grande do Sul, para o jornal O Estado de São Paulo.

É só clicar na imagem, ouvir a história de Jarbas Agnelli e apreciar sua interpretação artística para a foto dos pássaros.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Anayde Beiriz



“A altivez é o traço predominante do meu caráter, porém minha mágoa mais dolorosa é saber-me impotente para vencer meu destino.”

Poetisa e professora, Anayde Beiriz, escandalizou a sociedade conservadora paraibana na década de 30 com seu estilo vanguardista. Participava dos movimentos intelectuais e se declarava a favor da liberdade e da autonomia feminina. Posteriormente, a ela coube a metáfora de Peregrina da Liberdade.

“Eu possuo essa impetuosidade despreocupada e desinteressada dessa raça mestiça de que descende minha família paterna, também possuo, num grau tão alto como ninguém talvez possui, a altivez e o orgulho dessa raça de sertanejos a que pertence a minha mãe [...].”

Além de ser uma mulher emancipada, Anayde perturbava os moralistas com o uso de roupas decotadas, maquiagem e corte de cabelo “à la garçonne”. Defendia a participação das mulheres na política, numa época em que elas ainda não podiam votar.

“Elevemos a mulher ao eleitorado (...). Em vez de a conservarmos nesta menoridade convidemo-la a colaborar com o homem na oficina política.” (Anayde, apud Joffily, 1840:43)

Passou a escrever em pequenos jornais e revistas e se destacou como a primeira mulher na imprensa alternativa paraibana identificada com o movimento modernista. Lírica, com uma imaginação criadora marcadamente evadindo-se rumo ao sonho, ela escreveu:

“Eu escrevo para criar um mundo no qual possa viver. Procuro criar um mundo como se cria um determinado clima, uma atmosfera onde eu pudesse respirar.
Devemos conquistar nossa força e edificar nossos valores com base no desenvolvimento pessoal e na descoberta de nós mesmos. Contra as desigualdades, as injustiças [...].”


E acrescenta, voluntariamente exilada na produção literária, não apenas em texto acabado, estruturado definitivamente, sobretudo gerador de sentidos:

“Se você não respira quando escreve, não grita, não canta, então sua literatura será limitada. Quando não escrevo, meu universo se reduz, sinto-me numa prisão. Perco minha chama, minhas cores. Escrever para mim é uma necessidade.”

Anayde não era afeita às convenções no que tange a relacionamentos amorosos e foi um destes relacionamentos, com João Dantas, que a fez entrar para a história. Segundo Marcus Aranha, em seu livro “Panthera de Olhos Dormentes”, o grande amor da poetisa foi Heriberto Paiva, conclusão do escritor, após pesquisa em material fornecido pela família de Anayde.

Em meados de 1924 conheceu o paraibano Heriberto Paiva, a quem chamava de Hery, um ano mais novo que ela, filho de abastado comerciante, estudante de medicina no Rio de Janeiro. O namoro foi rejeitado por parte da família dele, tornando a paixão proibida em uma intensa paixão avassaladora, onde os enamorados trocavam cartas repletas de uma verdade doce e envolvente, revelando um misto de romantismo e ousadia. O romance findou em 30 de agosto de 1926.

“(...) O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentidos, que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela altura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade... E eu não quero amar, não quero ser amada assim... Porque quando tudo estivesse findo, quando o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; nem a saudade faria reviver em nossos corações a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual tínhamos sonhado eternos.
Mas não me julgues por isto diferente das outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade primitiva, desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida, nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas da inteligência, da vontade, superiormente dirigida pela delicadeza inata dos sentimentos ou pelo poder selético e dignificador da cultura.
Não amamos num homem apenas a plástica ou o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, as mulheres, não temos meio termo no amor; não amamos as linhas, as formas, o espírito ou essa alguma coisa de indefinível que arrasta vocês, homens, para um ente cuja posse é para vocês um sonho ou raia às lides do impossível. Não, meu Hery, não é assim que as mulheres amam. Amam na plenitude do ser e nesse sentimento concentram, por vezes, todas as forças da sua individualidade física ou moral.
É pois assim que eu te amo, querido; e porque te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-te que sejas paciente. O tempo passa lento, mas passa...
...E porque ele passa, e porque a noite já vai alta, é-me preciso terminar.
Adeus. Beija-te longamente, Anayde”

Em 1928, Anayde iniciou um relacionamento amoroso com João Dantas, político local ligado ao Partido Republicano Paulista, que fazia oposição ao então Governador do Estado da Paraíba, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Depois do violento confronto político que foi chamado República de Princesa, João Dantas acabou se refugiando no Recife, mantendo o relacionamento com Anayde à distância, através de cartas.

João Pessoa, acuado pelos adversários, reagiu e mandou a polícia revistar as casas dos revoltosos e suspeitos, em busca de armas que pudessem ser utilizadas em uma revolta armada. Um desses locais foi o escritório de João Dantas na cidade da Paraíba, invadido em 10 de julho de 1930. Embora não tenham sido encontradas armas, os policiais depredaram as instalações e arrombam o cofre, onde foi encontrada a correspondência de Dantas, inclusive cartas e poemas de amor recebidos de Anayde.

Visando atingir a honra de Dantas, o conteúdo de toda a correspondência furtada foi publicado nos órgãos de imprensa estadual ligados à situação.
Em 26 desse mesmo mês, João Dantas, acompanhado de um cunhado, Augusto Caldas, entra na Confeitaria Glória, no Recife, e dispara contra o peito de João Pessoa, matando-o. Lavava, com esse gesto, a sua honra ofendida.

Criticada publicamente por razões morais e políticas, Anayde sentiu-se acuada após o assassinato de João Pessoa. Desse modo, abandonou sua residência na Paraíba e foi morar em um abrigo no Recife, onde passou a visitar João Dantas, detido em flagrante e recolhido à Casa de Detenção naquela cidade.

Dantas foi encontrado morto em sua cela, degolado, em 3 de outubro do mesmo ano, no início da Revolução de 1930. Embora, à época, tenha sido declarado suicídio como causa mortis, as circunstâncias ainda permanecem obscuras.

Anayde veio a falecer dias depois, aos 25 anos de idade, supostamente também por suicídio, provocado por envenenamento, quando sob os cuidados de freiras. O seu corpo foi sepultado como indigente no Cemitério de Santo Amaro e sua memória foi renegada durante anos pelos paraibanos. Sua imagem só se tornou emblemática quando foi eleita como uma das personagens míticas da história do Brasil, pelo movimento feminista.

“Nasci
Nasceu
Cresceu
Namorou
Noivou
Casou
Noite nupcial
As telhas viram tudo
Se as moças fossem telhas não se casariam”

A memória de Anayde foi resgatada principalmente após a publicação do livro de José Jofilly, intitulado “Anayde – Paixão e Morte na Revolução de 30”. Aproveitando o centenário de nascimento da poetisa em 18 de fevereiro de 2005, o médico e escritor Marcus Aranha lançou o livro “Anayde Beiriz – Panthera dos Olhos Dormentes”, onde ele se propôs a desfazer a detratação mítica feita com a poetisa paraibana: “Sem que tenha cometido quaisquer crimes, sem que sobre ela pesasse nenhuma acusação, Anayde Beiriz foi condenada a primeira vez como prostituta de João Dantas pela Aliança Liberal em 1930, tendo seu nome execrado e expurgado da consciência de quase toda uma geração. Em 1983, por obra e graça de Tizuka Yamasaki (diretora do filme "Parahyba, mulher macho"), Anayde foi condenada mais uma vez, também como libertina e prostituta debochada".

Em seu diário, Anayde escreveu:

“... Os meus amigos que escrevem nos jornais que também escrevo, chamam-me PHANTERA DOS OLHOS DORMENTES... Sabes por que? Porque dizem que nos meus contos sempre ponho uma mancha de sangue e porque gosto de tudo o que é vermelho...
Crêem eles que sou trágica, que gosto desse amor que queima, dessa paixão que devora, dessa febre amorosa que mata...”


Heriberto passou a chamá-la também de “pantera”, desde que ela lhe escreveu:

“A pantera é bem humana, não é verdade, amor? Mansa, dócil, amorosa, em se tratando de ti; mas, para os outros, eu queria poder esmagá-los, a todos… Contudo, gostei desse título de fera que eles me deram; escrevi um conto com esse nome e enviei-o para a ‘Tribuna do Pará’. Creio que brevemente será publicado”.

“De uma carta que te escrevi e não te enviei
(as partes em colchetes estão danificadas no material origem)

Não Eu não hei de chorar [...]
Tu me conheces bem pouco. Por isto é que me falas em lágrimas.
Só os desesperados é que choram e eu continuo a esperar [...]
Pouco se me dá saber da tua nova paixão [...]
É tão vulgar a existência de outra mulher no destino do homem que a gente deseja [...]
E, bem sabes, no amor, como em tudo, apenas me seduz a originalidade [...]
A razão por que gostei de ti?
Porque pensei que tu eras louco [...]
Tive sempre a extravagância de achar deliciosos os loucos que julgam ter juízo [...]
Desiludiste-me afina!
[...] E é tão desinteressante um homem ajuizado que finge de louco [...]
Dizes que me procurarás esquecer. Ingênuo!
Desafio-te a que o consigas [...]
As marcas das minhas carícias não foram feitas para desaparecer facilmente [...]
Mil outros lábios que se incrustarem na tua boca não arrancarão de lá a lembrança da minha [...]
Mas, se ainda assim, o conseguires, a tua vitória não será duradoura.
Não há vantagem em esquecermos hoje o que temos de lembrar amanhã [...]
Apraz-te que eu guarde os meus beijos [...]
Guarda-los-ei, por enquanto.
Advirto-te, porém, que os beijos são como os vinhos raros, quanto mais velhos, Melhor embriagam [...]
Enganas-te se pensas que entre nós dois tudo está terminado [...]
Se agora é que começou [...]
A nossa história, hoje, está bem mais interessante [...]
E tu fizeste para mim, muito mais desejado [...]
Porque tenho que te arrancar do domínio de outra mulher [...]
No entanto, eu já não te amo [...]
Admiro os homens fortes e tu és um covarde: Tens medo do meu amor. Receias o delírio febril do meu desejo, a exaltação diabólica do meu sensualismo, a impetuosidade selvagem da minha volúpia [...]
Sonhar um afeto simples, monótono, banal [...] Um afeto que toda mulher pode dar [...]
Tu, um artista!
Fazes bem em procurá-lo distante de mim
O meu amor é bem diferente: é impulsivo, torturante, estranho, infernal [...]
Ouve, contudo, o que te digo: hás de experimentá-lo ainda uma vez [...]
Então veremos quem de nós dois chorará [...]

“Muitas atitudes minhas, incompreensíveis aos olhos desses fariseus por aí, vinham do angustioso recalque dos ímpetos de minha alma e da obrigação em que estava de dizer pela metade, aquilo que eu poderia dizer totalmente.”
(Lima Barreto, conforme citação de Anayde Beiriz)

Fontes:
Wikipédia
Memorial Pernambuco
Revista O Viés
ClicRN

Retrato de Anayde, óleo sobre tela por Priscila Holanda, Prisca.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Álvares de Azevedo



Minha Desgraça

Minha desgraça não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco...
E, meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...

Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera) é o dinheiro...

Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que meu peito assim blasfema,
É ter por escrever todo um poema
E não ter um vintém para uma vela.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ivan Martins



Solidão contente
O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas

Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.

Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.
Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.