Com esta emocionante História da Páscoa, desejo a todos uma Páscoa abençoada. Para assistir ao vídeo é só clicar aqui.
sexta-feira, 29 de março de 2013
sexta-feira, 8 de março de 2013
Gilka Machado
Ser Mulher
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida: a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida: a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
(In Poesias - 1915 a 1917 - Editado em 1918)
Hoje o Scenarium está completando 4 anos de existência e eu agradeço a todos os seguidores e admiradores deste espaço pelo carinho e, principalmente, pela compreensão com as minhas ausências. Eu gostaria de me doar muito mais a este blog, mas há urgências maiores me cobrando atenção.
Meu abraço a todos e minha homenagem às mulheres pelo seu dia.
Marise Ribeiro
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Ana Maria Machado
Tem mais de cem livros publicados, no Brasil e em mais 18 países. Ao longo de mais de quarenta anos de carreira, escreveu obras para leitores de todas as idades, incluindo nove romances.
Recebeu inúmeras condecorações por sua produção literária, com destaque para o Prêmio Hans Christian Andersen (o mais importante da literatura infantil), em 2000, e o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, em 2001. Em 2003, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras e, em 2011, tornou-se a segunda mulher na história da instituição a assumir sua presidência.
Destaco, nesta postagem, alguns poemas de seu livro Sinais do Mar, onde as poesias podem ser classificadas em três vertentes: concretas, sensoriais e narrativas.
As concretas são os poemas que citam os seres marinhos como a estrela-do-mar (Estrelas), o siri (Siri), a gaivota (Revoada), o caramujo (Bernardo Eremita), a arraia (Arraia) e a água-viva (Dúvida).
Estrelas
cinco destinos
são areias tontas
de desatinos
Cinco sentidos
cinco caminhos
grãos tão moídos
por mares e moinhos
Estrela-guia
em alto-mar
outra Maria
veio me chamar.
Siri
Siri
não ri
em serviço.
Se troca a casca
vira ouriço
procura concha,
busca uma toca e,
sumiço.
Não dá mole por aí.
Pra não virar sopa
faz boca
de siri.
Dúvida
Água-viva
quando morre
fica sendo
água-morta?
Ou água só?
A segunda vertente se estrutura na evocação sensorial de sons, visões e cheiros ligados ao mar: é o caso de Aquarela, Terral, Salsugem, Maresia, Gala Solar, Facho, Maré Baixa e Farol.
Maré Baixa
Onde anda a onda
se a lua rotunda
se acende redonda
se brilha precisa
na calma tão lisa
da pele do mar?
Em que fenda se finda?
Em que rede se enrreda?
Em que sonda se afunda?
Onde trama sua renda
de espuma tão fina
de puro luar?
Maresia
Brisa na restinga
traz maresia
a onda respinga
a gota suspira
o ar que se inspira.
Nariz abre a asa
narina é casa
de aroma morar.
É o lar que inspira
é o mar que respira.
A terceira é composta de poemas narrativos, Naus e Nós e Primeiro Mar, os dois trabalhos que finalizam a antologia.
Naus e Nós
Naus
saem de Sagres
e deixam infantes,
partem de portos
e deixam mortos,
sangram amores
e rumam ao longe.
Singram
águas salgadas
algas sargaças
a pouco nós.
Lonas e telas
pranchas e cascos
cordas e cabos
rangem e puxam,
fazem e desfazem
nós.
Velas sem vento
almas sem calma
encalham em sargaços
nas águas salgadas.
Algumas naufragam
soçobram em escolhos
só sobram
sem escolha,
sem escolta,
poucas naus
- e nós.
Primeiro Mar
Tantas páginas lidas muito antes
Tantos livros que enchiam as estantes
Tantos heróis a povoar os sonhos
Tantos perigos, monstros tão medonhos
Nos tempos sem tevê e sem imagem
Palavras fabricavam paisagem
Tesouros, mapas, ilhas tropicais,
Argonautas, recifes de corais,
Perigos na neblina entre rochedos,
Vinte mil léguas cheias de segredos.
Histórias de naufrágio e abordagens,
Ulisses, Moby Dick, mil viagens,
Robinson, calmarias, um motim,
Descobertas, veleiros, mar sem fim.
Destaco também um poema que gosto muito e que dá nome a um dos livros de Ana Maria Machado. "Um fio de voz conta pedaços de histórias, muitas delas antigas. Cada noite uma nova, sempre sobre o mesmo tema: são "montes de histórias de mulheres e fiapos, fios e linhas de todo tipo, ponto a ponto se tecendo e virando novas tramas".
Ponto a Ponto
Era uma vez uma voz.
Um fiozinho à-toa.
Fiapo de voz.
Voz de mulher.
Doce e mansa.
De rezar, ninar criança, muitas histórias contar.
De palavras de carinho e frases de consolar.
Por toda e qualquer andança, voz de sempre concordar.
Voz fraca e pequenina.
Voz de quem vive em surdina.
Um fiapo de voz que tinha todo o jeito de não ser ouvido.
Não chegava muito longe.
Ficava só ali mesmo, perto de onde ela vivia.
Um pontinho no mapa
Fontes:
http://www.anamariamachado.com/
http://www.companhiadasletras.com.br/
http://editora.cosacnaify.com.br/
http://www.estadao.com.br/
http://umsaltoparanovasdescobertas.blogspot.com.br/
domingo, 27 de janeiro de 2013
A Dança das Horas
Os bailarinos Maria Letizia Giuliani (Scuola dell'infanzia
de Roma) e Ángel Corella (espanhol, Diretor Artístico e dançarino principal do
Balé Barcelona) apresentam o balé A Dança das Horas (Danza delle Orel), da
ópera La Gioconda, de Amilcare Ponchielli.
A peça original, em quatro atos, tem a ação desenvolvida na
Veneza do século XVII e a sofrida Gioconda disputa o amor de Enzo com Laura,
além de ser atormentada pelo pérfido Barnaba.
Um dos pontos altos de La Gioconda é o célebre balé “A Dança das Horas”,
que acontece no 3º ato, denominado “A Casa de Ouro”.
A Dança das Horas representa as horas do amanhecer, da
manhã, da tarde e da noite, e é executado com mudança de vestes, de efeitos de luzes e
coreografias distintas. Simboliza também
a eterna luta entre os poderes das trevas e da luz.
A apresentação, aqui editada, aconteceu no Grande Teatro do Liceu, em
Barcelona.
É só clicar aqui para assistir.
É só clicar aqui para assistir.
sábado, 29 de dezembro de 2012
Feliz 2013!

(arte e presente de Marilda Ternura)
Esperança
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Canção do Dia de Sempre
Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos.
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos.
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…
(Poemas de Mário Quintana)
Chegamos ao décimo segundo andar do ano e a louca esperança renascerá em nós, sempre como um rio a passar sem nome, mudando dia a dia nossos sonhos e os depositando em nossas mãos distraídas.
Um Feliz Ano Novo a todos os amigos e seguidores do Scenarium.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Manuel Maria Barbosa du Bocage
O Natal
Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe* o nascimento.
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe* o nascimento.
Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.
*presepe - o mesmo que presépio
Amigos e seguidores do Scenarium,
Desejo a todos um Natal pleno de Amor, Harmonia e Fraternidade!
Que possamos colocar em prática as palavras e os atos, ensinados pelo aniversariante Jesus.
Que possamos colocar em prática as palavras e os atos, ensinados pelo aniversariante Jesus.
Estou trocando de computador e, até arrumar todos os programas do anterior na nova máquina, as postagens neste espaço ficarão reduzidas.
Conto com a compreensão de todos. Até breve, se Deus quiser!
domingo, 11 de novembro de 2012
Odete Ronchi Baltazar
O Vestido
Não era de organza,
nem de seda pura,
tampouco de voile.
Não tinha trama elegante
nem bordado atraente.
Era azul clarinho do céu e,
mais que tudo, era meu!
Quando o vestia criava asas,
pisava em nuvens,
desfilava sonhos,
sonhava passarelas,
olhares, cochichos
e outros bichos.
Exibia o andar,
gostava de estar.
Mal sabia a menina,
que a fantasia,
quem vestia era eu.
© odeteronchibaltazar
Florianópolis (SC) - Brasil
Visite mais textos da autora em Palavrasmil.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Sarah Brightman e Antonio Banderas
Um tributo musical para o famoso compositor Andrew Lloyd Webber, em comemoração ao seu 50º aniversário. Foram apresentadas canções de todos os seus grandes musicais, incluindo Cats, Sunset Boulevard, Jesus Christ Superstar e o Fantasma da Ópera. A celebração foi composta por estrelas de suas produções cinematográficas e teatrais, e aconteceu no Royal Albert Hall, em 1998. Apreciem um belo encontro musical de uma das canções de O Fantasma da Ópera. É só clicar na imagem.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Manoel de Barros
Para conhecer um pouco da vida do Poeta Manoel de Barros, basta ler sua obra. Em seus textos, o Poeta deposita sua história, experiências vividas e uma sensibilidade ímpar, principalmente quando versa sobre a sua relação com a natureza.
O tema da infância, também tão caro ao poeta, tem a ver não só com os anos iniciais de sua vida, mas com o sentimento de infância que carrega até hoje e que quer transmitir ao leitor pela poesia. Muito do que se sabe sobre a pessoa Manoel de Barros vem de entrevistas concedidas, geralmente, por escrito. Suas respostas, com muita frequência, são trechos de seus escritos.
Manoel de Barros que, segundo o professor e poeta Gilberto Mendonça Teles, "entrou em 1937 e, através de vários livros, chega a uma das belas linguagens poéticas da atualidade", escreve sua obra a lápis em vários caderninhos, sempre no seu "lugar de ser inútil", como ele próprio diz.
Auto-Retrato Falado
Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco
da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do
chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de
estar entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me
sinto como que desonrado e fujo para o
Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo
que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de
gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só
faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.
(De O Livro das Ignorãças)
"Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós."
Uma didática da invenção
(Parte VI)
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.
(De "O Livro das Ignorãças" - 1993)
A Arte de Infantilizar Formigas
Depois de ter entrado para rã, para árvore, para pedra
- meu avô começou a dar germínios
Queria ter filhos com uma árvore.
Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir
vender na cidade.
Meu avô ampliava a solidão.
No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do
quintal : Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra
dentro.
Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato.
Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.
Aí a nossa mãe deu entidade pessoal ao dia.
Ela deu ser ao dia,
e Ele envelheceu como um homem envelhece.
Talvez fosse a maneira
Que a mãe encontrou para aumentar
as pessoas daquele lugar
que era lacuna de gente.
(De "Livro sobre nada" - 1996)
Canção do Ver
(Parte 1)
Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.
(De "Poemas Rupestres")
O olhar
Ele era um andarilho.
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida.
O menino que carregava água na peneira
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que vazios são maiores
e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
o menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.
"Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios."
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios."
"A maior riqueza do homem é sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não
aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas."
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não
aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas."
“No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
poesia é quando a tarde está competente para
dálias.
É quando
ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
e um sapo engole as auroras.”
escrito:
poesia é quando a tarde está competente para
dálias.
É quando
ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
e um sapo engole as auroras.”
“Para entender nós temos dois caminhos:
[o da sensibilidade que é o entendimento
do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento
do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
[mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.”
[o da sensibilidade que é o entendimento
do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento
do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
[mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.”
"Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens. Eu vejo pouco. Uso mais ter visões. Nas visões vêm as imagens, todas as transfigurações. O poeta humaniza as coisas, o tempo, o vento. As coisas, como estão no mundo, de tanto vê-las nos dão tédio. Temos que arrumar novos comportamentos para as coisas. E a visão nos socorre desse mesmal."
- em entrevista "caminhando para as origens", a Bosco Martins, Cláudia Trimarco e Douglas Diegues. [Caros Amigos]. 2007.
- em entrevista "caminhando para as origens", a Bosco Martins, Cláudia Trimarco e Douglas Diegues. [Caros Amigos]. 2007.
"No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Pois minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo de estrada. Gosto de desvio e de desver."
- em carta a José Castello, publicado no Jornal Valor Econômico, em 18 de março de 2012
- em carta a José Castello, publicado no Jornal Valor Econômico, em 18 de março de 2012
"O tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um narcisista: expõe o mundo através dele mesmo. (...) O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro. Então, não é que eu descreva o Pantanal, não sou disso, nem de narrar nada. Mas nasci aqui, fiquei até os oito anos e depois fui estudar. Tenho um lastro da infância, tudo o que a gente é mais tarde vem da infância."
- em entrevista "caminhando para as origens", a Bosco Martins. 2007.
- em entrevista "caminhando para as origens", a Bosco Martins. 2007.
"... Meu avô era tomado por leso porque de manhã dava
bom-dia aos sapos, ao sol, às águas.
Só tinha receio de amanhecer normal
Penso que ele era provedor de poesia como as aves
e os lírios do campo."
- em "Ensaios fotográficos", 2000, p. 51.
bom-dia aos sapos, ao sol, às águas.
Só tinha receio de amanhecer normal
Penso que ele era provedor de poesia como as aves
e os lírios do campo."
- em "Ensaios fotográficos", 2000, p. 51.
"... poesia pra mim é a loucura das palavras, é o delírio verbal, a ressonância das letras e o ilogismo.
Sempre achei que atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos. Sem eles a linguagem
seria mesmal. (...) Prefiro escrever o desanormal."
- em "Ensaios fotográficos", 2000, p. 63.
Sempre achei que atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos. Sem eles a linguagem
seria mesmal. (...) Prefiro escrever o desanormal."
- em "Ensaios fotográficos", 2000, p. 63.
"Penso que não tive escolha
Fui escolhido e gostei da escolha
Faço o que sonho
Faço o que gosto
Sou um pouco irresponsável
com os passarinhos, isto seja:
Sou livre
Amo a palavra"
Fui escolhido e gostei da escolha
Faço o que sonho
Faço o que gosto
Sou um pouco irresponsável
com os passarinhos, isto seja:
Sou livre
Amo a palavra"
- em entrevista a Luciana Pessanha, especial para "O Globo".
Frases:
"Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia."
"Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão."
"Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos."
"Sou livre para o silêncio das formas e das cores."
“Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.”
"Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando."
Fontes de Pesquisa:
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Até a volta, amigos!
Amigos, estou saindo de férias, com retorno previsto para a segunda quinzena de Outubro. Agradeço a todos pela companhia, pelas leituras e pelos carinhos enviados. Até a volta!
domingo, 16 de setembro de 2012
Fábio Reynol
O vendedor de palavras
Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, "indigência lexical". Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs.
Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: "Histriônico — apenas R$ 0,50!".
Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse.
— O que o senhor está vendendo?
— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos como diz a placa.
— O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.
— O senhor sabe o significado de histriônico?
— Não.
— Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.
— Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.
— O senhor tem dicionário em casa?
— Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.
— O senhor estava indo à biblioteca?
— Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.
— Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real!
— Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?
— Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.
— O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?
— O senhor conhece Nélida Piñon?
— Não.
— É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.
— E por que o senhor não vende livros?
— Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.
— E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga.
— A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.
— O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...
— Jactância.
— Pegar um livro velho...
— Alfarrábio.
— O senhor me interrompe!
— Profaço.
— Está me enrolando, não é?
— Tergiversando.
— Quanta lenga-lenga...
— Ambages.
— Ambages?
— Pode ser também evasivas.
— Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!
— Pusilânime.
— O senhor é engraçadinho, não?
— Finalmente chegamos: histriônico!
— Adeus.
— Ei! Vai embora sem pagar?
— Tome seus cinqüenta centavos.
— São três reais e cinqüenta.
— Como é?
— Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.
— Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?
— É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?
— Tem troco para cinco?
domingo, 26 de agosto de 2012
Rio de Janeiro
Cliquem na imagem e desfrutem algumas belezas da cidade mais linda do mundo. Não deixem de apreciar o vídeo em tela plena.
Remeto-os também a uma das páginas do Cenário de Sentimentos, em que apresento um poema em homenagem à minha cidade, destacando seus lados antagônicos.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Berthe Morisot
Woman at Her Toilette, 1875/80
Oil on canvas
O outro olhar impressionista: Berthe Morisot
Jesus Yuste, crítico de arte
Entre os grandes expoentes do Impressionismo, foi tido como em segundo plano, sem dúvida por falta de conhecimento de sua obra, a figura de Berthe Morisot (Bourges, 1841 – Paris, 1895), a principal figura feminina do movimento.
É no mínimo surpreendente, pois sua arte arrojada, delicada e vigorosa é de uma modernidade evidente. Pode ter influenciado o fato de ser mulher em um mundo – da arte em geral, e da pintura em particular - reservado tradicionalmente para os homens. Neste sentido, deve-se reconhecer que o papel criativo das mulheres foi durante muito tempo limitado ao serem excluídas das Academias de Belas Artes por homens que preferiam vê-las dedicadas apenas aos afazeres domésticos ou, de qualquer forma, longe da prática profissional das artes.
Mas o certo é que Monet, Pisarro, Renoir e demais foram conscientes do valor de Morisot, a quem, como recorda Pisarro em 1895, foi uma “grande mulher de extraordinário talento, que honrou o nosso grupo impressionista”. Renoir, que a conhecia bem, também louvou suas qualidades, e Manet, seu melhor amigo e colaborador, sentiu verdadeira admiração por sua liberdade de experimentação.
A história nos diz que desde meados do século XIX, com a ascensão de uma certa classe média, fruto da industrialização nos países mais ricos, uma atitude mais aberta em relação à participação da mulher no mundo artístico começou a ser percebida. Ainda assim, já que, por exemplo, a Escola de Belas artes permaneceu fechada para elas até 1897, as jovens aspirantes a pintoras se viram na necessidade de recorrer a tutores particulares, ou a academias criadas por artistas homens. Este era o caso da academia formada em 1868 pelo pintor Rodolphe Julian. Graças a esse tipo de iniciativa, as mulheres foram sendo incorporadas progressivamente ao mundo artístico dos homens.
Não só isso. Paradoxalmente, de certa forma tiveram a sorte de não ter de suportar os estorvos acadêmicos dos seus companheiros, contra as quais se rebelaram os mais genuínos representantes do Impressionismo. Podiam, dessa forma, dotar suas pintura de uma fresca espontaneidade, distantes dos entraves impostos pelo academicismo oficial.
Entre as pintoras impressionistas, algumas de muito valor, a mais importante talvez tenha sido Berthe Morisot, pintora de paisagens transbordantes de frescor, de traços ágeis e quase sempre com a figura humana como ponto de referência. Além disso, foi uma extraordinária pintora de cenas da vida doméstica, onde podia divertir-se e dar vazão aos seus dotes de observação, e o mesmo acontecia quando tratava com naturalidade da intimidade familiar. De personalidade forte, lutou contra os convencionalismos sociais da época, que tendiam a isolar a mulher no âmbito privado. Prova disso é a sua dedicação profissional à pintura, apesar da advertência do professor Guichard, que faz saber à mãe da pintora e de sua irmã Edma dos perigos que cercavam a ambas, pois via nelas grande potencial: “meus ensinamentos não criarão pequenos talentos de salão, mas pintoras. A senhora sabe o que isso significa? Seria revolucionário, quase, diria, catastrófico, em um meio social da alta burguesia”. A esse respeito, é significativo que já em 1860 Berthe Morisot mostrasse interesse por pintar ao ar livre, apesar de que seu mestre Guichard não fosse a favor.
Desde que, em 1861, conheceu Corot, iria se ver influenciada por sua concepção artística serena, equilibrada, de grande lirismo poético.
Sua forma de captar e reproduzir a realidade por meio da cor e da luz abriu os olhos da artista para novas formas de expressão. Morisot trabalhou com ele e também teve a oportunidade de conhecer Daubigny, paisagista da Escola de Barbizón, antecedente próximo do Impressionismo. Contudo, mais importante para a sua vida foi o encontro com Manet, seu futuro cunhado, com quem manteve, desde 1868, uma especial relação de amizade e artística que, de alguma forma, marcou o futuro da sua obra. Certamente ambos sofreram influência um do outro, e ambos se viram influenciados pela corrente impressionista que preencheu de cores suas paletas. Também, anos mais tarde, a pintora manteve uma relação amistosa com Renoir, excelente pintor de formas suaves e voluptuosas, de rico colorido, mas talvez sem a sutileza e fineza de Morisot na representação de personagens em seu ambiente familiar.
Em um mundo artístico dominado pelos homens, Berthe Morisot sempre foi consciente do seu talento, assim como o de suas amigas. Desta forma, é compreensível que tenha escrito: “O certo é que nossos valores se encontram no sentimento, na intenção, na nossa visão, que é mais útil que a dos homens, e podemos alcançar muito se conseguirmos que a afetação, a pedanteria e o sentimentalismo não estraguem tudo”. Assim foi, pois soube unir a essa visão sutil e a essa primazia do sentimento um agudo sentido do equilíbrio e da luz, bem como um encanto particular, mescla de pinceladas rápidas e livres, nas quais dominam as cores suaves e ardentes. Essa é a razão porque suas obras dão a impressão de um esboço de traços vivos, repletos de espontaneidade, como podemos apreciar no esplêndido “Dia de verão” (1874). Além disso, sua paleta delicada pode ser também admirada em obras de destaque como "Dama à penteadeira” (1875) e sobretudo em “o espelho de vestir” (1878), no qual, como acertadamente se há ressaltado, a meditação silenciosa e íntima da personagem frente ao espelho contrasta com as mais provocativas e eróticas representações de cenas familiares realizadas por outros pintores homens.
É bastante interessante verificar a evolução da arte de Morisot. Para isto, convém fixar-se em primeiro lugar nas pinturas que apresentou na primeira exposição impressionista de 1874. Concretamente, entre elas se encontra “O berço” (1872), uma das obras que deu a ela maior renome, e “El lilo de Maurecourt” (1874), obra cativante por sua concepção e por seu estilo, com esse toque mágico que ressalta os diferentes tons de verde, iluminados por faíscas de luz branco-amareladas.
Embora no início da década de setenta Morisot fosse uma artista consagrada, somente alguns anos mais tarde, a partir da sua estada em 1875 na ilha de Wight, formou um estilo mais característico. Pinceladas curtas e rápidas diluem cada vez mais os contornos das figuras, como acontece nas pinceladas soltas que compõem “Em um banco de Bois de Boulogne” (1894), uma de suas últimas obras. Nela, por trás das jovens recolhidas em concentrada leitura, apenas se intui o caminho e, em segundo plano, ainda menos as duas mulheres que caminham conversando enquanto uma carruagem passa. A dissolução da realidade de boa parte do quadro prefigura a abstração, sendo um grande exercício de modernidade.
Não é de se estranhar, portanto- é o mais saliente em algumas de suas obras-, que Berthe Morisot desconcertou a crítica do seu tempo. Sua arte era algo muito diferente do habitual... O crítico Charles Ephrussi, por exemplo, após a quinta exposição impressionista de 1880, encontrou apenas uma forma poética para descrevê-la: “Parece que tritura pétalas de flores e as mescla em sua paleta, derramando-as a seguir na tela com ligeiras e graciosas pinceladas, realizadas um pouco ao acaso... criando uma obra delicada, cheia de encanto e de vida, que intuímos mais do que vemos”. Tal poderia ser dito de uma de suas pinturas de maior força expressiva e menor definição de contornos e formas, “O Balcão” (1881) e “Interior de uma casa de campo” (1886).
Como comentou o crítico Gustave Geffroy naquele tempo, ‘ainda que as formas que aparecem nas pinturas de Morisot sejam sempre vagas, possuem uma vida estranha. A artista consegue definir o jogo das cores, a palpitação entre as coisas e o ar que as envolve”.
Tudo isso é o que fez da arte de Berthe Morisot uma grande novidade em sua época e continua a ser, após mais de um século, profundamente moderna.
Fonte: Fundação Unir
Conheça algumas obras de Berthe Morisot clicando aqui
A pintura abaixo, Berthe Morisot with a Bouquet of Violets, é o mais famoso retrato da artista. O pintor, seu grande amigo, Edouard Manet, criou a obra em 1872. Manet fez um total de 11 retratos a óleo de Morisot.
A pintura abaixo, Berthe Morisot with a Bouquet of Violets, é o mais famoso retrato da artista. O pintor, seu grande amigo, Edouard Manet, criou a obra em 1872. Manet fez um total de 11 retratos a óleo de Morisot.
domingo, 8 de julho de 2012
Guerra Junqueiro
Regresso ao Lar
Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta? Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para me lembrar!...
Dei a Volta ao mundo, dei a volta à Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! A ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...
Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saira do meu ninho estreito!...
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...
Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!
Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...
Canta-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, me vier buscar!...
In Os simples (1892)
Guerra Junqueiro
terça-feira, 3 de julho de 2012
Eliane F. C. Lima
Encanador
Entrava na casa das pessoas. E ia para as partes mais íntimas de suas casas: cozinha, banheiro.
Podia ser uma visita rápida, mas era raro. Normalmente, passava o dia todo, às vezes dias. E ia para as partes mais íntimas de suas vidas: ouvia tudo o que se passava ali, sem querer, sem pedir.
Depois de uma visita dessas, raramente olhava para as pessoas e as via do mesmo modo que antes.
Filósofo, descobriu logo que aquilo que entupia e vazava não eram os canos de muitos anos, apodrecidos e embutidos nas paredes. Mais antiga, pré-histórica era a alma humana, corroída por suas velhas e eternas questões. Para essa, ele não tinha solução.
Eliane F.C.Lima - Rio de Janeiro (RJ)
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
Conheça outros contos de Eliane Lima, visitando-a em Conto-Gotas.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Alberto Cohen
Andorinhas
Doidivanas no céu,
as andorinhas
seguem o vento,
sem metas, sem destino,
sem lógica, sem rimas,
no êxtase, apenas,
dos múltiplos desenhos
que traçam no ar,
sem qualquer geometria,
só a absurda poesia
do saber voar.
Para conhecer mais poesias do autor é só clicar aqui.
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