terça-feira, 24 de julho de 2012

Berthe Morisot














Woman at Her Toilette, 1875/80
Oil on canvas

O outro olhar impressionista: Berthe Morisot

Jesus Yuste, crítico de arte

Entre os grandes expoentes do Impressionismo, foi tido como em segundo plano, sem dúvida por falta de conhecimento de sua obra, a figura de Berthe Morisot (Bourges, 1841 – Paris, 1895), a principal figura feminina do movimento.

É no mínimo surpreendente, pois sua arte arrojada, delicada e vigorosa é de uma modernidade evidente. Pode ter influenciado o fato de ser mulher em um mundo – da arte em geral, e da pintura em particular - reservado tradicionalmente para os homens. Neste sentido, deve-se reconhecer que o papel criativo das mulheres foi durante muito tempo limitado ao serem excluídas das Academias de Belas Artes por homens que preferiam vê-las dedicadas apenas aos afazeres domésticos ou, de qualquer forma, longe da prática profissional das artes.

Mas o certo é que Monet, Pisarro, Renoir e demais foram conscientes do valor de Morisot, a quem, como recorda Pisarro em 1895, foi uma “grande mulher de extraordinário talento, que honrou o nosso grupo impressionista”. Renoir, que a conhecia bem, também louvou suas qualidades, e Manet, seu melhor amigo e colaborador, sentiu verdadeira admiração por sua liberdade de experimentação.

A história nos diz que desde meados do século XIX, com a ascensão de uma certa classe média, fruto da industrialização nos países mais ricos, uma atitude mais aberta em relação à participação da mulher no mundo artístico começou a ser percebida. Ainda assim, já que, por exemplo, a Escola de Belas artes permaneceu fechada para elas até 1897, as jovens aspirantes a pintoras se viram na necessidade de recorrer a tutores particulares, ou a academias criadas por artistas homens. Este era o caso da academia formada em 1868 pelo pintor Rodolphe Julian. Graças a esse tipo de iniciativa, as mulheres foram sendo incorporadas progressivamente ao mundo artístico dos homens.

Não só isso. Paradoxalmente, de certa forma tiveram a sorte de não ter de suportar os estorvos acadêmicos dos seus companheiros, contra as quais se rebelaram os mais genuínos representantes do Impressionismo. Podiam, dessa forma, dotar suas pintura de uma fresca espontaneidade, distantes dos entraves impostos pelo academicismo oficial.

Entre as pintoras impressionistas, algumas de muito valor, a mais importante talvez tenha sido Berthe Morisot, pintora de paisagens transbordantes de frescor, de traços ágeis e quase sempre com a figura humana como ponto de referência. Além disso, foi uma extraordinária pintora de cenas da vida doméstica, onde podia divertir-se e dar vazão aos seus dotes de observação, e o mesmo acontecia quando tratava com naturalidade da intimidade familiar. De personalidade forte, lutou contra os convencionalismos sociais da época, que tendiam a isolar a mulher no âmbito privado. Prova disso é a sua dedicação profissional à pintura, apesar da advertência do professor Guichard, que faz saber à mãe da pintora e de sua irmã Edma dos perigos que cercavam a ambas, pois via nelas grande potencial: “meus ensinamentos não criarão pequenos talentos de salão, mas pintoras. A senhora sabe o que isso significa? Seria revolucionário, quase, diria, catastrófico, em um meio social da alta burguesia”. A esse respeito, é significativo que já em 1860 Berthe Morisot mostrasse interesse por pintar ao ar livre, apesar de que seu mestre Guichard não fosse a favor.

Desde que, em 1861, conheceu Corot, iria se ver influenciada por sua concepção artística serena, equilibrada, de grande lirismo poético.

Sua forma de captar e reproduzir a realidade por meio da cor e da luz abriu os olhos da artista para novas formas de expressão. Morisot trabalhou com ele e também teve a oportunidade de conhecer Daubigny, paisagista da Escola de Barbizón, antecedente próximo do Impressionismo. Contudo, mais importante para a sua vida foi o encontro com Manet, seu futuro cunhado, com quem manteve, desde 1868, uma especial relação de amizade e artística que, de alguma forma, marcou o futuro da sua obra. Certamente ambos sofreram influência um do outro, e ambos se viram influenciados pela corrente impressionista que preencheu de cores suas paletas. Também, anos mais tarde, a pintora manteve uma relação amistosa com Renoir, excelente pintor de formas suaves e voluptuosas, de rico colorido, mas talvez sem a sutileza e fineza de Morisot na representação de personagens em seu ambiente familiar.

Em um mundo artístico dominado pelos homens, Berthe Morisot sempre foi consciente do seu talento, assim como o de suas amigas. Desta forma, é compreensível que tenha escrito: “O certo é que nossos valores se encontram no sentimento, na intenção, na nossa visão, que é mais útil que a dos homens, e podemos alcançar muito se conseguirmos que a afetação, a pedanteria e o sentimentalismo não estraguem tudo”. Assim foi, pois soube unir a essa visão sutil e a essa primazia do sentimento um agudo sentido do equilíbrio e da luz, bem como um encanto particular, mescla de pinceladas rápidas e livres, nas quais dominam as cores suaves e ardentes. Essa é a razão porque suas obras dão a impressão de um esboço de traços vivos, repletos de espontaneidade, como podemos apreciar no esplêndido “Dia de verão” (1874). Além disso, sua paleta delicada pode ser também admirada em obras de destaque como "Dama à penteadeira” (1875) e sobretudo em “o espelho de vestir” (1878), no qual, como acertadamente se há ressaltado, a meditação silenciosa e íntima da personagem frente ao espelho contrasta com as mais provocativas e eróticas representações de cenas familiares realizadas por outros pintores homens.

É bastante interessante verificar a evolução da arte de Morisot. Para isto, convém fixar-se em primeiro lugar nas pinturas que apresentou na primeira exposição impressionista de 1874. Concretamente, entre elas se encontra “O berço” (1872), uma das obras que deu a ela maior renome, e “El lilo de Maurecourt” (1874), obra cativante por sua concepção e por seu estilo, com esse toque mágico que ressalta os diferentes tons de verde, iluminados por faíscas de luz branco-amareladas.

Embora no início da década de setenta Morisot fosse uma artista consagrada, somente alguns anos mais tarde, a partir da sua estada em 1875 na ilha de Wight, formou um estilo mais característico. Pinceladas curtas e rápidas diluem cada vez mais os contornos das figuras, como acontece nas pinceladas soltas que compõem “Em um banco de Bois de Boulogne” (1894), uma de suas últimas obras. Nela, por trás das jovens recolhidas em concentrada leitura, apenas se intui o caminho e, em segundo plano, ainda menos as duas mulheres que caminham conversando enquanto uma carruagem passa. A dissolução da realidade de boa parte do quadro prefigura a abstração, sendo um grande exercício de modernidade.

Não é de se estranhar, portanto- é o mais saliente em algumas de suas obras-, que Berthe Morisot desconcertou a crítica do seu tempo. Sua arte era algo muito diferente do habitual... O crítico Charles Ephrussi, por exemplo, após a quinta exposição impressionista de 1880, encontrou apenas uma forma poética para descrevê-la: “Parece que tritura pétalas de flores e as mescla em sua paleta, derramando-as a seguir na tela com ligeiras e graciosas pinceladas, realizadas um pouco ao acaso... criando uma obra delicada, cheia de encanto e de vida, que intuímos mais do que vemos”. Tal poderia ser dito de uma de suas pinturas de maior força expressiva e menor definição de contornos e formas, “O Balcão” (1881) e “Interior de uma casa de campo” (1886).

Como comentou o crítico Gustave Geffroy naquele tempo, ‘ainda que as formas que aparecem nas pinturas de Morisot sejam sempre vagas, possuem uma vida estranha. A artista consegue  definir o jogo das cores, a palpitação entre as coisas e o ar que as envolve”.

Tudo isso é o que fez da arte de Berthe Morisot uma grande novidade em sua época e continua a ser, após mais de um século, profundamente moderna.


Conheça algumas obras de Berthe Morisot clicando aqui 

A pintura abaixo, Berthe Morisot with a Bouquet of Violets, é o mais famoso retrato da artista. O pintor, seu grande amigo, Edouard Manet, criou a obra em 1872.  Manet fez um total de 11 retratos a óleo de Morisot.

 

domingo, 8 de julho de 2012

Guerra Junqueiro


















Regresso ao Lar
                 
Ai, há quantos anos que eu parti chorando 
Deste meu saudoso, carinhoso lar!... 
Foi há vinte?... Há trinta? Nem eu sei já quando!... 
Minha velha ama, que me estás fitando, 
Canta-me cantigas para me lembrar!... 
  
Dei a Volta ao mundo, dei a volta à Vida... 
Só achei enganos, decepções, pesar... 
Oh! A ingénua alma tão desiludida!... 
Minha velha ama, com a voz dorida, 
Canta-me cantigas de me adormentar!... 
  
Trago d'amargura o coração desfeito... 
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! 
Nunca eu saira do meu ninho estreito!... 
Minha velha ama que me deste o peito, 
Canta-me cantigas para me embalar!... 
  
Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho 
Pedrarias d'astros, gemas de luar... 
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!... 
Minha velha ama, sou um pobrezinho... 
Canta-me cantigas de fazer chorar! 
  
Como antigamente, no regaço amado, 
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar! 
Ai, o teu menino como está mudado! 
Minha velha ama, como está mudado! 
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!... 
  
Canta-me cantigas, manso, muito manso... 
Tristes, muito tristes, como à noite o mar... 
Canta-me cantigas para ver se alcanço 
Que a minh'alma tenha paz, descanso, 
Quando a Morte, em breve, me vier buscar!... 
  
In Os simples (1892)
Guerra Junqueiro 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Eliane F. C. Lima














Encanador

Entrava na casa das pessoas. E ia para as partes mais íntimas de suas casas: cozinha, banheiro.

Podia ser uma visita rápida, mas era raro. Normalmente, passava o dia todo, às vezes dias. E ia para as partes mais íntimas de suas vidas: ouvia tudo o que se passava ali, sem querer, sem pedir.

Depois de uma visita dessas, raramente olhava para as pessoas e as via do mesmo modo que antes.

Filósofo, descobriu logo que aquilo que entupia e vazava não eram os canos de muitos anos, apodrecidos e embutidos nas paredes. Mais antiga, pré-histórica era a alma humana, corroída por suas velhas e eternas questões. Para essa, ele não tinha solução.

Eliane F.C.Lima - Rio de Janeiro (RJ)
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

Conheça outros contos de Eliane Lima, visitando-a em Conto-Gotas.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Alberto Cohen














Andorinhas

Doidivanas no céu,
as andorinhas
seguem o vento,
sem metas, sem destino,
sem lógica, sem rimas,
no êxtase, apenas,
dos múltiplos desenhos
que traçam no ar,
sem qualquer geometria,
só a absurda poesia
do saber voar.

Para conhecer mais poesias do autor é só clicar aqui.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Thiago de Mello














Sonho domado

Sei que é preciso sonhar.

Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do vôo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

Thiago de Mello

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Convite - 6º Aniversário do Cenário de Sentimentos












"Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara
com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu
patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor
e, de outro, esquecimento."

Cecilia Meireles


Aqui está meu reflexo
em seu sexto caminhar.
Aqui está um oceano de mim
e luares de muitos.
Aqui está a ilusão,
os segredos e enredos.
Aqui eu estou,
aqui eu me encontro.
Aqui sou eu.
Será?...


Queridos Amigos,

O Cenário de Sentimentos convida a todos para assistirem à atualização de seu sexto aniversário.
Deixo o meu abraço de agradecimento àqueles que me incentivam e aos que me aconchegam em seus corações, honrando-me com sua leitura.

No Palco Especiais, emoldurado por esta belíssima arte da querida amiga Denise Moura, festejo a data de hoje num poema-incitamento à minha inspiração.

- O Voo da Fantasia
www.mariseribeiro.com/sexto_aniversario.htm

No Palco Meus Poemas, amor e dor se entrelaçam em letras e rimas.

- Inverno
www.mariseribeiro.com/meus_poemas_inverno.htm

- Sem Rumo
www.mariseribeiro.com/meus_poemas_sem_rumo.htm

- Interlúdio
www.mariseribeiro.com/meus_poemas_interludio.htm

No Palco Textos, atrevo-me a dar um olhar de cronista sobre um episódio do meu cotidiano.

- Prato Indigesto
www.mariseribeiro.com/textos_prato_indigesto.htm

O Livro de Visitas está à disposição de vocês, para registrarem suas impressões, o que me deixa sempre muito feliz.

Gilia Gerling


















Clique na imagem para melhor visualização.

Um caloroso e sincero abraço do Scenarium à sensibilidade da querida Gilia Gerling, pelo seu aniversário.
 

terça-feira, 15 de maio de 2012














O Que Sinto Por Você

Estive pensando, longamente
sobre o que sinto por você,
cheguei à conclusão, definitivamente,
que não é amor, é diferente,
o amor é sofrido, doído,
é um mal necessário
mesmo que temporário,
que todo mundo sente...
O que sinto por você
é um bem, meio ateu é verdade,
mas cheio de sinceridade!
E lá bem no fundo,
é um lago profundo
que reflete você!
Então, o que eu sinto,
é tudo que eu queria,
é tudo que eu esperava,
é tudo que eu pedia,
e pressinto também,
que em todo o meu viver,
esse bem, eu jamais quero perder!

03.02.2007
Sônia Maria Grillo (Baby®)
Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Giuseppe Ghiaroni














"Dia das Mães"

Mãe! Eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois... perder.

Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la.

Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires e expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar:''Sou eu!"

Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança
lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graças, diz: "Meu filho!, e chora.

E chora e treme como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.

Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que, nada tendo, não te falta nada.

Dia das Mães! É o dia da bondade
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
cantará a esperança para o mundo!

© Giuseppe Ghiaroni

domingo, 29 de abril de 2012

J. R. Cônsoli


















Ternuras

Oh, aqueles tempos... adolescência...
que aparecem nas telas do passado,
teu vulto vem... e foge com freqüência,
deixa o sorriso solto, imaculado.

Foram anos de muitos sóis – incríveis!
Nos quais amamos com inocência pura,
porque amantes ternos e sensíveis,
sem nada pra impedir nossa loucura.

Hoje te vejo em tudo - nos lugares...
na janela do quarto, na cortina,
no farfalhar da brisa vespertina.

A noite chega, sem pedir, me abraça,
eu sinto tua presença nos meus ares,
então beijo teus lábios na vidraça.

© J.R.Cônsoli
Pouso Alegre (MG) - Brasil

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Aldo Cordeiro
















Índios Yanomamis brasileiros
Foto: Fiona Watson

Dia do Esquecimento

Hoje é dia do índio. Como bom cara pálida, esqueci da data, e só lembrei agora, lendo uma piadinha a respeito.

Eles, ao contrário de mim, nunca esquecerão de que um dia tiveram uma terra, que conviviam em paz com a natureza.

Os que não foram torpedeados pelas mentiras da cultura européia, que tenta lhes arrasar a auto-estima desde 1500, não esquecem que todos os dias são dos invasores. Perdemos todos nós, porque, além de não termos aprendido muito de sua vida na floresta e sua medicina, ganhamos a herança da energia da destruição.

Em lugar de seu milenar sistema de trocas, o nosso sistema de lucros a qualquer custo. Em vez de sua vida coletiva, numa sociedade que protege seus elementos, oferecemos a vida isolada, competitiva, barulhenta, individualista do sistema social e econômico em que escolhemos viver (por decisão ou por ignorância).

Não há o que comemorar. No mínimo deveríamos lembrar, reverenciar, proteger o que resta de seu povo.

E eu, que procuro ser um cidadão consciente deste todo de que os índios deveriam ser parte essencial, pela sua sabedoria e beleza, simplesmente esqueci.

Devo ter herdado dos meus ancestrais uma defesa na minha memória, para conviver com uma história que alguns ainda chamam de "cordial": um país escravocrata durante séculos; que dizimou a quase totalidade de seus índios - e que continua dizimando ao tomar-lhes as terras ou não lhes dando assistência; um país que passa por ditaduras como se fosse um passeio pelo poder, sem qualquer explicação à história; um país que começou a ser corrupto com a primeira caravela.

Em vez de uma consciência histórica participativa, herdamos a nossa história como se fosse um samba-enredo, por onde desfilam mentiras e meias-verdades.

Amamos este país, lindo e miscigenado. Mas é um amor tão alienado da própria história, ainda tão descomprometido com uma participação da maioria de nós, tão indiferente à sua natureza, que um dia pode sucumbir sob o peso da destruição de seu território e de sua cultura.

Rio, 19.04.2012

Publico, com um dia de atraso,  o sincero e consciente texto do Aldo Cordeiro, também me penitenciando pelo esquecimento. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Funeral Blues - W.H. Auden

 













O poema Funeral Blues é o mais famoso da extensa obra de W.H. Auden e se tornou mundialmente conhecido devido ao filme Quatro Casamentos e um Funeral (assista ao vídeo), onde é recitado.

Embora tenha sido primeiramente publicado na peça The Ascent of F6 em 1937, quando contava então com cinco estrofes, aparentemente parodiando o desaparecimento de um líder político, a versão definitiva de Funeral Blues foi publicada tão somente em 1938, quando Auden o reduziu às famosas quatro estrofes.

Sua versão final foi escrita para ser cantada pelo soprano Hedli Anderson, daí o título.

O poema, então, passou a ser utilizado para exprimir um sentimento forte de perda e de luto, como nas duas seguintes ocasiões:

- num momento pungente do filme Quatro casamentos e um funeral, o poema é lido por Mattew em homenagem ao seu companheiro morto;

- o poema se encontra também no memorial do estádio belga de Heysel Park, em homenagem às 39 vítimas de uma partida de futebol entre o Liverpool e a Juventus, em Maio de 1985;

Abaixo do poema original, posto duas versões traduzidas para o Português: a primeira, recebida de uma amiga, segue uma tradução mais objetiva e a segunda versão, que encontrei no site Releituras, é apresentada mais subjetivamente, procurando obedecer as rimas em nossa língua.

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods
For nothing now can ever come to any good.


Funeral Blues

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Evitem o latido do cachorro com seu osso suculento,
Silenciem os pianos e com tambores lentos
Tragam o caixão, deixem que o luto chore.

Deixem que os aviões voem em círculos altos
Riscando no céu a mensagem Ele Está Morto,
Ponham gravatas beges no pescoço dos pombos brancos do chão,
Deixem que os guardas de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Minha semana útil e meu domingo inerte,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha canção, meu papo,
Achei que o amor fosse para sempre: Eu estava errado.

As estrelas não são necessárias: retirem cada uma delas;
Empacotem a lua e façam o sol desmanchar;
Esvaziem o oceano e varram as florestas;
Pois nada no momento pode algum bem causar.


Blues Fúnebres

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Fontes:
Wikipedia
Youtube
Releituras

quinta-feira, 29 de março de 2012

Millôr Fernandes


"Hai-Kus ou Hokkus
(pequena introdução para os não iniciados)

O Hai-ku aparece em geral nos nossos dicionários com a grafia de Hai-Cai por dois motivos básicos: o primeiro, a guerra que os filólogos patrícios resolveram deflagrar à linda letra K, pelo simples fato dela ter aquele ar agressivamente germânico e só andar com passo de ganso. A batalha é, evidentemente, perdida, pois a letra teima em permanecer na língua, inclusive firmando-se na imagem, hoje quase mítica, de JK, também artificialmente banido da vida política brasileira. O segundo motivo do não uso da grafia Hai-ku é a homofonia da segunda sílaba com outra palavra da língua portuguesa, designando certa parte do corpo de múltipla importância fisiológica. Essa palavra os filólogos só usam a medo. Quando a colocam no dicionário fazem sempre questão de acrescentar (chulo). Assim, entre parênteses.

Resolvi - e não entro em detalhes para não alongar esta explicação - usar a grafia (comprometida) Hai-Kai, para as composições deste livro.

O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um - o segundo - de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescida nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuô Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen:

A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.

Em cima da neve
O corvo esta manhã
Pousou bem de leve.

Contudo há quem afirme que Bashô foi ultrapassado, tanto em popularidade quanto em inspiração, pelo poeta do século posterior (XVIII) Yataro Kobayashi (Issa):

Vem cá passarinho
E vamos brincar nós dois
Que não temos ninho.

Bem hospitaleiro
Na entrada principal
Está o salgueiro.

Apesar de sua forma frágil, quase volátil, dependendo da imagística mais do que qualquer outra poesia, uma implosão, não uma explicitação, o Hai-Kai é, contudo, uma forma fundamentalmente popular e, inúmeras vezes, humorística, no mais metafísico sentido da palavra:

Roubaram a carteira
Do imbecil que olhava
A cerejeira.

Eu vi meu retrato
Bem no fundo do lago
Diz o olhar do pato.

Meu interesse pelo Hai-Kai como forma de expressão direta e econômica começou em 1957, quando eu escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro.

Passei a compor alguns quase semanalmente, usando, porém, apenas os três versos da forma original, não me preocupando com o número de sílabas. Os Hai-Kais deste saite foram compostos entre 1959 e 1986.
Millôr Fernandes"

Olha,
entre um pingo e outro
a chuva não molha.

Na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua.

A caveira é bem rara
pois não pensa nem fala:
só encara.

Meu dinheiro
vem todo
do meu tinteiro.

Não esmaguem a barata
sua nojeira
é inata.

Goze.
Quem sabe essa
é a última dose?

Viço?
Eu já passei
por isso.

Há colcha mais dura
que a lousa
da sepultura?

Com pó e mistério
a mulher ao espelho
retoca o adultério.

A esta hora
e o dia
inda lá fora.

Quantas palavras de amor
morrem
no apontador?

Nada tem nexo.
Tudo é apenas
um reflexo.

Mulatas na pista,
perco a vontade
de ser racista.

Pra ser feliz de verdade
é preciso encarar
a realidade.

Será que o doutor
cobra pela cura
ou cobra a dor?

É minha ideia
que o outono só desfolha
árvore europeia.

Millôr Fernandes (In Hai-Kais - L&PM Editores - Coleção Pocket - 1997)

Homenagem do Scenarium ao genial Millôr.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Gilberto de Nucci



Clique na imagem para melhor ler o texto.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Parabéns, Mulheres!



Família

Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.

O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Alguma Poesia'


O Scenarium parabeniza a você, mulher, que é o esteio do mundo! Feliz Dia Internacional da Mulher!

Muito Obrigada!



Prezados amigos do Scenarium, estamos completando 3 anos de existência e eu não poderia deixar de agradecer pela companhia de todos e pelos carinhos deixados nas postagens do blog. Que eu possa ainda continuar por muito tempo a compartilhar com vocês as diversas artes que me encantarem.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Hilda Hilst



Sonetos que não são

I
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

(In Roteiro do Silêncio)


O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade

I
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.

(In Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)


Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?

(Da Noite - 1992)


Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.

(In Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)


Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

(In Do Desejo)


Ode de Ariana Para Dionísio

III
A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavras
Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta

Por que recusas amor e permanência?

(In Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)


Poesia XXII

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.


As nove Odes de Ariana para Dionísio foram musicadas por Zeca Baleiro e vocês poderão apreciar a interpretação de algumas dessas odes, pelo compositor, clicando aqui.

terça-feira, 6 de março de 2012

João Guimarães Rosa



Sono das Águas

Há uma hora certa,
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

(In Magma)

Mudança Necessária

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Agradeço a compreensão de todos.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O Homem que Plantava Árvores



O filme, baseado no belíssimo conto (L'Homme qui plantait des Arbres) do francês Jean Giono, de 1953, foi realizado por Frédéric Back, considerado por muitos um gênio da arte e da animação.

Conta a história de Elzeard Bouffier, um pastor de ovelhas que durante anos cultivou uma floresta esplendorosa numa área desértica da França.

O conto é narrado por um jovem viajante (o esplêndido Philippe Noiret, no áudio francês), que um dia encontra este homem nas suas viagens e acompanha a mudança na paisagem, no decorrer dos anos. A beleza calma da paisagem contrasta com a fúria das duas Grandes Guerras que o narrador assiste, e o feito notável do pastor oferece um olhar do poder inspirador da natureza e da esperança, que podem emergir no mais improvável dos lugares.

Palavras do autor: "Para que o caráter de um ser humano revele qualidades realmente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar as suas ações ao longo de muitos anos. Se tais ações são desprovidas de todo o egoísmo, se o ideal que as dirige é de uma generosidade ímpar, se é absolutamente certo que não procuraram qualquer recompensa e se, além disso, deixaram marcas visíveis no mundo, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um caráter inesquecível." - Jean Giono

Para assistir a esta preciosidade, é só clicar na imagem acima.

Fonte: You Tube