quinta-feira, 14 de junho de 2012

Alberto Cohen














Andorinhas

Doidivanas no céu,
as andorinhas
seguem o vento,
sem metas, sem destino,
sem lógica, sem rimas,
no êxtase, apenas,
dos múltiplos desenhos
que traçam no ar,
sem qualquer geometria,
só a absurda poesia
do saber voar.

Para conhecer mais poesias do autor é só clicar aqui.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Thiago de Mello














Sonho domado

Sei que é preciso sonhar.

Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do vôo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

Thiago de Mello

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Convite - 6º Aniversário do Cenário de Sentimentos












"Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara
com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu
patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor
e, de outro, esquecimento."

Cecilia Meireles


Aqui está meu reflexo
em seu sexto caminhar.
Aqui está um oceano de mim
e luares de muitos.
Aqui está a ilusão,
os segredos e enredos.
Aqui eu estou,
aqui eu me encontro.
Aqui sou eu.
Será?...


Queridos Amigos,

O Cenário de Sentimentos convida a todos para assistirem à atualização de seu sexto aniversário.
Deixo o meu abraço de agradecimento àqueles que me incentivam e aos que me aconchegam em seus corações, honrando-me com sua leitura.

No Palco Especiais, emoldurado por esta belíssima arte da querida amiga Denise Moura, festejo a data de hoje num poema-incitamento à minha inspiração.

- O Voo da Fantasia
www.mariseribeiro.com/sexto_aniversario.htm

No Palco Meus Poemas, amor e dor se entrelaçam em letras e rimas.

- Inverno
www.mariseribeiro.com/meus_poemas_inverno.htm

- Sem Rumo
www.mariseribeiro.com/meus_poemas_sem_rumo.htm

- Interlúdio
www.mariseribeiro.com/meus_poemas_interludio.htm

No Palco Textos, atrevo-me a dar um olhar de cronista sobre um episódio do meu cotidiano.

- Prato Indigesto
www.mariseribeiro.com/textos_prato_indigesto.htm

O Livro de Visitas está à disposição de vocês, para registrarem suas impressões, o que me deixa sempre muito feliz.

Gilia Gerling


















Clique na imagem para melhor visualização.

Um caloroso e sincero abraço do Scenarium à sensibilidade da querida Gilia Gerling, pelo seu aniversário.
 

terça-feira, 15 de maio de 2012














O Que Sinto Por Você

Estive pensando, longamente
sobre o que sinto por você,
cheguei à conclusão, definitivamente,
que não é amor, é diferente,
o amor é sofrido, doído,
é um mal necessário
mesmo que temporário,
que todo mundo sente...
O que sinto por você
é um bem, meio ateu é verdade,
mas cheio de sinceridade!
E lá bem no fundo,
é um lago profundo
que reflete você!
Então, o que eu sinto,
é tudo que eu queria,
é tudo que eu esperava,
é tudo que eu pedia,
e pressinto também,
que em todo o meu viver,
esse bem, eu jamais quero perder!

03.02.2007
Sônia Maria Grillo (Baby®)
Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Giuseppe Ghiaroni














"Dia das Mães"

Mãe! Eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois... perder.

Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la.

Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires e expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar:''Sou eu!"

Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança
lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graças, diz: "Meu filho!, e chora.

E chora e treme como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.

Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que, nada tendo, não te falta nada.

Dia das Mães! É o dia da bondade
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
cantará a esperança para o mundo!

© Giuseppe Ghiaroni

domingo, 29 de abril de 2012

J. R. Cônsoli


















Ternuras

Oh, aqueles tempos... adolescência...
que aparecem nas telas do passado,
teu vulto vem... e foge com freqüência,
deixa o sorriso solto, imaculado.

Foram anos de muitos sóis – incríveis!
Nos quais amamos com inocência pura,
porque amantes ternos e sensíveis,
sem nada pra impedir nossa loucura.

Hoje te vejo em tudo - nos lugares...
na janela do quarto, na cortina,
no farfalhar da brisa vespertina.

A noite chega, sem pedir, me abraça,
eu sinto tua presença nos meus ares,
então beijo teus lábios na vidraça.

© J.R.Cônsoli
Pouso Alegre (MG) - Brasil

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Aldo Cordeiro
















Índios Yanomamis brasileiros
Foto: Fiona Watson

Dia do Esquecimento

Hoje é dia do índio. Como bom cara pálida, esqueci da data, e só lembrei agora, lendo uma piadinha a respeito.

Eles, ao contrário de mim, nunca esquecerão de que um dia tiveram uma terra, que conviviam em paz com a natureza.

Os que não foram torpedeados pelas mentiras da cultura européia, que tenta lhes arrasar a auto-estima desde 1500, não esquecem que todos os dias são dos invasores. Perdemos todos nós, porque, além de não termos aprendido muito de sua vida na floresta e sua medicina, ganhamos a herança da energia da destruição.

Em lugar de seu milenar sistema de trocas, o nosso sistema de lucros a qualquer custo. Em vez de sua vida coletiva, numa sociedade que protege seus elementos, oferecemos a vida isolada, competitiva, barulhenta, individualista do sistema social e econômico em que escolhemos viver (por decisão ou por ignorância).

Não há o que comemorar. No mínimo deveríamos lembrar, reverenciar, proteger o que resta de seu povo.

E eu, que procuro ser um cidadão consciente deste todo de que os índios deveriam ser parte essencial, pela sua sabedoria e beleza, simplesmente esqueci.

Devo ter herdado dos meus ancestrais uma defesa na minha memória, para conviver com uma história que alguns ainda chamam de "cordial": um país escravocrata durante séculos; que dizimou a quase totalidade de seus índios - e que continua dizimando ao tomar-lhes as terras ou não lhes dando assistência; um país que passa por ditaduras como se fosse um passeio pelo poder, sem qualquer explicação à história; um país que começou a ser corrupto com a primeira caravela.

Em vez de uma consciência histórica participativa, herdamos a nossa história como se fosse um samba-enredo, por onde desfilam mentiras e meias-verdades.

Amamos este país, lindo e miscigenado. Mas é um amor tão alienado da própria história, ainda tão descomprometido com uma participação da maioria de nós, tão indiferente à sua natureza, que um dia pode sucumbir sob o peso da destruição de seu território e de sua cultura.

Rio, 19.04.2012

Publico, com um dia de atraso,  o sincero e consciente texto do Aldo Cordeiro, também me penitenciando pelo esquecimento. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Funeral Blues - W.H. Auden

 













O poema Funeral Blues é o mais famoso da extensa obra de W.H. Auden e se tornou mundialmente conhecido devido ao filme Quatro Casamentos e um Funeral (assista ao vídeo), onde é recitado.

Embora tenha sido primeiramente publicado na peça The Ascent of F6 em 1937, quando contava então com cinco estrofes, aparentemente parodiando o desaparecimento de um líder político, a versão definitiva de Funeral Blues foi publicada tão somente em 1938, quando Auden o reduziu às famosas quatro estrofes.

Sua versão final foi escrita para ser cantada pelo soprano Hedli Anderson, daí o título.

O poema, então, passou a ser utilizado para exprimir um sentimento forte de perda e de luto, como nas duas seguintes ocasiões:

- num momento pungente do filme Quatro casamentos e um funeral, o poema é lido por Mattew em homenagem ao seu companheiro morto;

- o poema se encontra também no memorial do estádio belga de Heysel Park, em homenagem às 39 vítimas de uma partida de futebol entre o Liverpool e a Juventus, em Maio de 1985;

Abaixo do poema original, posto duas versões traduzidas para o Português: a primeira, recebida de uma amiga, segue uma tradução mais objetiva e a segunda versão, que encontrei no site Releituras, é apresentada mais subjetivamente, procurando obedecer as rimas em nossa língua.

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods
For nothing now can ever come to any good.


Funeral Blues

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Evitem o latido do cachorro com seu osso suculento,
Silenciem os pianos e com tambores lentos
Tragam o caixão, deixem que o luto chore.

Deixem que os aviões voem em círculos altos
Riscando no céu a mensagem Ele Está Morto,
Ponham gravatas beges no pescoço dos pombos brancos do chão,
Deixem que os guardas de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Minha semana útil e meu domingo inerte,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha canção, meu papo,
Achei que o amor fosse para sempre: Eu estava errado.

As estrelas não são necessárias: retirem cada uma delas;
Empacotem a lua e façam o sol desmanchar;
Esvaziem o oceano e varram as florestas;
Pois nada no momento pode algum bem causar.


Blues Fúnebres

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Fontes:
Wikipedia
Youtube
Releituras

quinta-feira, 29 de março de 2012

Millôr Fernandes


"Hai-Kus ou Hokkus
(pequena introdução para os não iniciados)

O Hai-ku aparece em geral nos nossos dicionários com a grafia de Hai-Cai por dois motivos básicos: o primeiro, a guerra que os filólogos patrícios resolveram deflagrar à linda letra K, pelo simples fato dela ter aquele ar agressivamente germânico e só andar com passo de ganso. A batalha é, evidentemente, perdida, pois a letra teima em permanecer na língua, inclusive firmando-se na imagem, hoje quase mítica, de JK, também artificialmente banido da vida política brasileira. O segundo motivo do não uso da grafia Hai-ku é a homofonia da segunda sílaba com outra palavra da língua portuguesa, designando certa parte do corpo de múltipla importância fisiológica. Essa palavra os filólogos só usam a medo. Quando a colocam no dicionário fazem sempre questão de acrescentar (chulo). Assim, entre parênteses.

Resolvi - e não entro em detalhes para não alongar esta explicação - usar a grafia (comprometida) Hai-Kai, para as composições deste livro.

O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um - o segundo - de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescida nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuô Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen:

A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.

Em cima da neve
O corvo esta manhã
Pousou bem de leve.

Contudo há quem afirme que Bashô foi ultrapassado, tanto em popularidade quanto em inspiração, pelo poeta do século posterior (XVIII) Yataro Kobayashi (Issa):

Vem cá passarinho
E vamos brincar nós dois
Que não temos ninho.

Bem hospitaleiro
Na entrada principal
Está o salgueiro.

Apesar de sua forma frágil, quase volátil, dependendo da imagística mais do que qualquer outra poesia, uma implosão, não uma explicitação, o Hai-Kai é, contudo, uma forma fundamentalmente popular e, inúmeras vezes, humorística, no mais metafísico sentido da palavra:

Roubaram a carteira
Do imbecil que olhava
A cerejeira.

Eu vi meu retrato
Bem no fundo do lago
Diz o olhar do pato.

Meu interesse pelo Hai-Kai como forma de expressão direta e econômica começou em 1957, quando eu escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro.

Passei a compor alguns quase semanalmente, usando, porém, apenas os três versos da forma original, não me preocupando com o número de sílabas. Os Hai-Kais deste saite foram compostos entre 1959 e 1986.
Millôr Fernandes"

Olha,
entre um pingo e outro
a chuva não molha.

Na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua.

A caveira é bem rara
pois não pensa nem fala:
só encara.

Meu dinheiro
vem todo
do meu tinteiro.

Não esmaguem a barata
sua nojeira
é inata.

Goze.
Quem sabe essa
é a última dose?

Viço?
Eu já passei
por isso.

Há colcha mais dura
que a lousa
da sepultura?

Com pó e mistério
a mulher ao espelho
retoca o adultério.

A esta hora
e o dia
inda lá fora.

Quantas palavras de amor
morrem
no apontador?

Nada tem nexo.
Tudo é apenas
um reflexo.

Mulatas na pista,
perco a vontade
de ser racista.

Pra ser feliz de verdade
é preciso encarar
a realidade.

Será que o doutor
cobra pela cura
ou cobra a dor?

É minha ideia
que o outono só desfolha
árvore europeia.

Millôr Fernandes (In Hai-Kais - L&PM Editores - Coleção Pocket - 1997)

Homenagem do Scenarium ao genial Millôr.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Gilberto de Nucci



Clique na imagem para melhor ler o texto.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Parabéns, Mulheres!



Família

Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.

O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Alguma Poesia'


O Scenarium parabeniza a você, mulher, que é o esteio do mundo! Feliz Dia Internacional da Mulher!

Muito Obrigada!



Prezados amigos do Scenarium, estamos completando 3 anos de existência e eu não poderia deixar de agradecer pela companhia de todos e pelos carinhos deixados nas postagens do blog. Que eu possa ainda continuar por muito tempo a compartilhar com vocês as diversas artes que me encantarem.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Hilda Hilst



Sonetos que não são

I
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

(In Roteiro do Silêncio)


O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade

I
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.

(In Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)


Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?

(Da Noite - 1992)


Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.

(In Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)


Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

(In Do Desejo)


Ode de Ariana Para Dionísio

III
A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavras
Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta

Por que recusas amor e permanência?

(In Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)


Poesia XXII

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.


As nove Odes de Ariana para Dionísio foram musicadas por Zeca Baleiro e vocês poderão apreciar a interpretação de algumas dessas odes, pelo compositor, clicando aqui.

terça-feira, 6 de março de 2012

João Guimarães Rosa



Sono das Águas

Há uma hora certa,
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

(In Magma)

Mudança Necessária

Comunico aos leitores e seguidores do Scenarium que, a partir desta data, o módulo de configuração para a postagem de comentários foi alterado, sendo necessária a ativação das letras para verificação. Não gosto desta medida e espero que seja temporária, mas ela se torna imprescindível, em vista do aumento de spam que este espaço tem recebido.

Agradeço a compreensão de todos.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O Homem que Plantava Árvores



O filme, baseado no belíssimo conto (L'Homme qui plantait des Arbres) do francês Jean Giono, de 1953, foi realizado por Frédéric Back, considerado por muitos um gênio da arte e da animação.

Conta a história de Elzeard Bouffier, um pastor de ovelhas que durante anos cultivou uma floresta esplendorosa numa área desértica da França.

O conto é narrado por um jovem viajante (o esplêndido Philippe Noiret, no áudio francês), que um dia encontra este homem nas suas viagens e acompanha a mudança na paisagem, no decorrer dos anos. A beleza calma da paisagem contrasta com a fúria das duas Grandes Guerras que o narrador assiste, e o feito notável do pastor oferece um olhar do poder inspirador da natureza e da esperança, que podem emergir no mais improvável dos lugares.

Palavras do autor: "Para que o caráter de um ser humano revele qualidades realmente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar as suas ações ao longo de muitos anos. Se tais ações são desprovidas de todo o egoísmo, se o ideal que as dirige é de uma generosidade ímpar, se é absolutamente certo que não procuraram qualquer recompensa e se, além disso, deixaram marcas visíveis no mundo, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um caráter inesquecível." - Jean Giono

Para assistir a esta preciosidade, é só clicar na imagem acima.

Fonte: You Tube

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Arnaldo Bloch



Precisamos falar sobre o Chico

Relevância não é um conceito matemático.

Um amigo me convidou para o show do Lobão sábado passado, no Circo. Declinei: a duas semanas do fim da temporada de 40 dias, eu enfim conseguira meu ingresso para ver o Chico.
— O Chico? — espantou-se meu amigo. — Temporada? Mais de um mês? Quinta a domingo?
— Qual o problema?
— Achava que esses dinossauros da MPB só faziam um fim de semana e olhe lá. E o cara não emplaca um sucesso há 30 anos!
— Ninguém, mais, na MPB, emplaca sucesso algum. Se não é pagode, funk, axé, padre, pastor ou Roberto Carlos, danou-se.
— Não exagera.
— O que é, hoje, emplacar um sucesso? Discos não vendem. Rádios não contam. O que importa é show.
— Mas um mês? Como é que o Chico faz temporada de um mês?
— Chico é um mito. Um Patrick Bruel. Um Bob Dylan latino. Um Gainsbourg. O público que ele teve, continua a ter: a geração dele e pelo menos as três seguintes e uma turma nova, menos numerosa. Além disso, faz um show a cada cinco anos. Não é como o Caetano, sempre nos palcos.

— O Caetano é um ser ubíquo.
— Exato. O Caetano está em novelas, jornais, filmes e prêmios pop. Chico, não. Desaparece por meia década, vai para a França, escreve um livro, caminha na praia, arruma namorada. Quando anuncia um show, é o estouro da boiada.
Meu amigo reconheceu sua avaliação equivocada e me parabenizou por ter um ingresso tão valioso, stricto e lato sensu.
Teve um insight: quantos shows novos de Chico Buarque ainda teremos oportunidade de ver?
— Um novo show de Chico é como uma nova Copa do Mundo.
— Só que, ao contrário do futebol, a qualidade só aumenta — retruquei.
Meu amigo discordou, fazendo coro àquela cansativa esparrela.
— Chico já não é o mesmo. Não faz mais os refrãos que a turma toda gosta de cantar. Chico não tem mais a relevância que tinha.
— Relevância para quem, cara pálida? Musicalmente, ele se sofisticou. Nem precisa mais de parceiro. Para quem gosta de música, é joia.
— Ele era mais relevante num tempo em que a política ditava sua pauta musical. Olha: “Construção”, “Meu caro amigo”, “Vai passar”, “Apesar de você”, “Geni e o zepelim”, “Trocando em miúdos”, “Feijoada completa”. E depois? O que veio?
— Que tal “Futuros amantes”, “Choro bandido”, “A ostra e o vento”, “Brejo da cruz”, “Estação derradeira”, “Valsa brasileira”, “A moça do sonho”?, “Você, você”?, “Cecília”?
— Quem canta essas músicas? A galera não canta essas músicas. Ninguém sabe cantar.
— Que galera? E que critério é esse, que identifica qualidade a tamanho do público?
— A galera que cantava Chico.
— Eu, por exemplo, e pelo menos uns cinco amigos, achamos “As cidades” um discaço. Sei todas as músicas de cor.
— Faz parte de uma minoria. Digamos, 14%.
— E esses 14% não são relevantes? Estão equivocados? Devem ser exterminados?
— Deixa de histeria. Virou manifesto?
— Se atribuir-se uma superioridade “verdadeira”, de caráter absoluto, à cultura culta, sobre as manifestações de maior apelo popular resvala no fascismo, o oposto também.
— Que oposto?
— Dizer que só o gosto das massas é nobre e que a sofisticação é formalismo de elite equivale a perseguir o refinamento, tornar o intelectual um pária, um degenerado, um hermético, inimigo do entendimento. A ideia de que a força está com a maioria fez sucesso tanto nos colossos de esquerda quanto nos populismos totalitários de extrema direita.
— Ih, pirou.
A essa altura, o leitor deve estar perguntando como foi o show do Chico.
Respondo: foi dos melhores que vi. Intimista, privilegiou a música mesmo quando o “sucesso que a gente gosta de cantar” pintou.
Tocou o disco novo inteiro. O disco novo é lindo. “Essa pequena” é uma obra-prima. O refrão de “Sou eu” pega. “Querido diário” é pungente.
Fez um “Geni” apoteótico. Os duetos de violão com Luiz Cláudio Ramos estão primorosos.
Chico Batera é um barato. Jorge Helder é o fino. Wilson das Neves é uma lenda.
E tudo é relevante.

Arnaldo Bloch

Nota: Fotografia pessoal, tirada durante o show do dia 15 de Janeiro, no qual esta admiradora do artista foi brindada com um show inesquecível.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Gonçalves Crespo



Fervet Amor

Dá para a cerca a estreita e humilde cela
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.

Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Vêem-se ao longe os trigos ondulando ...
Maio sorri na Pradaria bela.

Zumbe o inseto na flor do rosmaninho:
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:
Zunem besouros e palpita o ninho.

E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.

Gonçalves Crespo

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Feliz Ano-Novo!



Feliz Ano-Novo

Quero um Ano-Novo em que todas as crianças, ao ligarem a tevê, recebam um banho de Mozart, Pixinguinha e Noel Rosa; aprendam a diferença entre impressionistas e expressionistas; vejam espetáculos que reconstituem a Balaiada, a Confederação do Equador e a Guerra dos Emboabas; e durmam após fazer suas orações.
Desejo um Ano-Novo em que, no campo, todos tenham seu pedaço de terra, onde vicejem laranjas e alfaces e voejem bem-te-vis entre vacas leiteiras. Na cidade, um teto sob o qual reluz o fogão de panelas cheias, a sala atapetada por remendos coloridos, a foto colorida do casal exposta em moldura oval sobre o sofá.
Espero um Ano-Novo em que as igrejas abram portas ao silêncio do coração, o órgão sussurre o cantar dos anjos, a Bíblia seja repartida como pão. A fé, de mãos dadas com a justiça, faça com que o céu deixe de concentrar o olhar daqueles aos quais é negada a felicidade nesta terra.
Um Feliz Ano-Novo com casais ociosos na arte de amar, o lar recendendo a perfume, os filhos contemplando o rosto apaixonado dos pais, a família tão entretida no diálogo que nem se dá conta de que o televisor é um aparelho mudo e cego num canto da sala.
Desejo um Ano-Novo em que os sonhos libertários sejam tão fortes que os jovens, com o coração a pulsar ideais, não recorram à química das drogas, não temam o futuro nem se expressem em dialetos ininteligíveis. Sejam, todos eles, viciados em utopia.
Espero um Ano-Novo em que cada um de nós evite alfinetar rancores nas dobras do coração e lave as paredes da memória de iras e mágoas; não aposte corrida com o tempo nem marque a velocidade da vida pelos batimentos cardíacos.
Um Ano-Novo para saborear a brevidade da existência como se ela fosse perene, em companhia de ourives de encantos, cujos hábeis dedos incrustam na rotina dos dias jóias ternas e eternas.
Quero um Ano-Novo em que a cada um seja assegurado o direito do emprego, a honra do salário digno, as condições humanas de trabalho, as potencialidades da profissão e a alegria da vocação. Um novo ano capaz de saciar a nossa fome de pão e de beleza.
Rogo por um Ano-Novo em que a polícia seja conhecida pelas vidas que protege e não pelos assassinatos que comete; os presos reeducados para a vida social; e que os pobres logrem repor nos olhos da Justiça a tarja da cegueira que lhe imprime isenção.
Um Ano-Novo sem políticos mentirosos, autoridades arrogantes, funcionários corruptos, bajuladores de toda espécie. Livre de arroubos infantis, seja a política a multiplicação dos pães sem milagres, dever de uns e direito de todos.
Espero um Ano-Novo em que as cidades voltem a ter praças arborizadas; as praças, bancos acolhedores; os bancos, cidadãos entregues ao sadio ócio de contemplar a natureza, ouvir no silêncio a voz de Deus e festejar com os amigos as minudências da vida - um leque de memórias, um jogo de cartas, o riso aberto por aquele que se destaca como o melhor contador de piadas.
Desejo um Ano-Novo em que o líder dos direitos humanos não humilhe a mulher em casa; a professora de cidadania não atire papel no chão; as crianças cedam o lugar aos mais velhos; e a distância entre o público e o privado seja encurtada pela ponte da coerência.
Quero um Ano-Novo de livros saboreados como pipoca, o corpo menos entupido de gorduras, a mente livre do estresse, o espírito matriculado num corpo de baile, ao som dos mistérios mais profundos.
Desejo um Ano-Novo em que o governo coloque o país nos eixos, livre a população do pesado tributo da degradação social, e tome no colo milhões de crianças precocemente condenadas ao trabalho, sem outra fantasia senão o medo da morte.
Espero um Ano-Novo cujo principal evento seja a inauguração do Salão da Pessoa, onde se apresentem alternativas para que nunca mais um ser humano se sinta ameaçado pela miséria ou privado de pão, paz e prazer.
Um Ano-Novo em que a competitividade ceda lugar à solidariedade; a acumulação à partilha; a ambição à meditação; a agressão ao respeito; a idolatria ao dinheiro ao espírito das Bem-Aventuranças.
Aspiro a um Ano-Novo de pássaros orquestrados pela aurora, rios desnudados pela transparência das águas, pulmões exultantes de ar puro e mesa farta de alimentos despoluídos.
Rogo por um Ano-Novo que jamais fique velho, assim como os carvalhos que nos dão sombra, a filosofia dos gregos, a luz do Sol, a sabedoria de Jó, o esplendor das montanhas de Minas, a música gregoriana.
Um ano tão novo que traga a impressão de que tudo renasce: o dia, a exuberância do mar, a esperança e nossa capacidade de amar. Exceto o que no passado nos fez menos belos e bons.

Frei Betto

Estes são também os meus desejos para 2012. Agradeço a todos os amigos pela caminhada a meu lado, pelo apoio, pela tolerância com as poucas postagens neste espaço e pelos abraços que me envolveram. Que possamos permanecer irmanados pela paz, pelo amor e pela amizade, cultuando a ética, a dignidade e a solidariedade. Espero que o Scenarium continue a embelezar a minha alma de arte, para que eu possa dividir com vocês estes momentos de beleza e cultura. Feliz 2012!