quinta-feira, 29 de março de 2012

Millôr Fernandes


"Hai-Kus ou Hokkus
(pequena introdução para os não iniciados)

O Hai-ku aparece em geral nos nossos dicionários com a grafia de Hai-Cai por dois motivos básicos: o primeiro, a guerra que os filólogos patrícios resolveram deflagrar à linda letra K, pelo simples fato dela ter aquele ar agressivamente germânico e só andar com passo de ganso. A batalha é, evidentemente, perdida, pois a letra teima em permanecer na língua, inclusive firmando-se na imagem, hoje quase mítica, de JK, também artificialmente banido da vida política brasileira. O segundo motivo do não uso da grafia Hai-ku é a homofonia da segunda sílaba com outra palavra da língua portuguesa, designando certa parte do corpo de múltipla importância fisiológica. Essa palavra os filólogos só usam a medo. Quando a colocam no dicionário fazem sempre questão de acrescentar (chulo). Assim, entre parênteses.

Resolvi - e não entro em detalhes para não alongar esta explicação - usar a grafia (comprometida) Hai-Kai, para as composições deste livro.

O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um - o segundo - de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescida nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuô Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen:

A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.

Em cima da neve
O corvo esta manhã
Pousou bem de leve.

Contudo há quem afirme que Bashô foi ultrapassado, tanto em popularidade quanto em inspiração, pelo poeta do século posterior (XVIII) Yataro Kobayashi (Issa):

Vem cá passarinho
E vamos brincar nós dois
Que não temos ninho.

Bem hospitaleiro
Na entrada principal
Está o salgueiro.

Apesar de sua forma frágil, quase volátil, dependendo da imagística mais do que qualquer outra poesia, uma implosão, não uma explicitação, o Hai-Kai é, contudo, uma forma fundamentalmente popular e, inúmeras vezes, humorística, no mais metafísico sentido da palavra:

Roubaram a carteira
Do imbecil que olhava
A cerejeira.

Eu vi meu retrato
Bem no fundo do lago
Diz o olhar do pato.

Meu interesse pelo Hai-Kai como forma de expressão direta e econômica começou em 1957, quando eu escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro.

Passei a compor alguns quase semanalmente, usando, porém, apenas os três versos da forma original, não me preocupando com o número de sílabas. Os Hai-Kais deste saite foram compostos entre 1959 e 1986.
Millôr Fernandes"

Olha,
entre um pingo e outro
a chuva não molha.

Na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua.

A caveira é bem rara
pois não pensa nem fala:
só encara.

Meu dinheiro
vem todo
do meu tinteiro.

Não esmaguem a barata
sua nojeira
é inata.

Goze.
Quem sabe essa
é a última dose?

Viço?
Eu já passei
por isso.

Há colcha mais dura
que a lousa
da sepultura?

Com pó e mistério
a mulher ao espelho
retoca o adultério.

A esta hora
e o dia
inda lá fora.

Quantas palavras de amor
morrem
no apontador?

Nada tem nexo.
Tudo é apenas
um reflexo.

Mulatas na pista,
perco a vontade
de ser racista.

Pra ser feliz de verdade
é preciso encarar
a realidade.

Será que o doutor
cobra pela cura
ou cobra a dor?

É minha ideia
que o outono só desfolha
árvore europeia.

Millôr Fernandes (In Hai-Kais - L&PM Editores - Coleção Pocket - 1997)

Homenagem do Scenarium ao genial Millôr.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Gilberto de Nucci



Clique na imagem para melhor ler o texto.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Parabéns, Mulheres!



Família

Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.

O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Alguma Poesia'


O Scenarium parabeniza a você, mulher, que é o esteio do mundo! Feliz Dia Internacional da Mulher!

Muito Obrigada!



Prezados amigos do Scenarium, estamos completando 3 anos de existência e eu não poderia deixar de agradecer pela companhia de todos e pelos carinhos deixados nas postagens do blog. Que eu possa ainda continuar por muito tempo a compartilhar com vocês as diversas artes que me encantarem.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Hilda Hilst



Sonetos que não são

I
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

(In Roteiro do Silêncio)


O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade

I
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.

(In Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)


Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?

(Da Noite - 1992)


Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.

(In Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)


Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

(In Do Desejo)


Ode de Ariana Para Dionísio

III
A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavras
Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta

Por que recusas amor e permanência?

(In Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)


Poesia XXII

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.


As nove Odes de Ariana para Dionísio foram musicadas por Zeca Baleiro e vocês poderão apreciar a interpretação de algumas dessas odes, pelo compositor, clicando aqui.

terça-feira, 6 de março de 2012

João Guimarães Rosa



Sono das Águas

Há uma hora certa,
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

(In Magma)

Mudança Necessária

Comunico aos leitores e seguidores do Scenarium que, a partir desta data, o módulo de configuração para a postagem de comentários foi alterado, sendo necessária a ativação das letras para verificação. Não gosto desta medida e espero que seja temporária, mas ela se torna imprescindível, em vista do aumento de spam que este espaço tem recebido.

Agradeço a compreensão de todos.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O Homem que Plantava Árvores



O filme, baseado no belíssimo conto (L'Homme qui plantait des Arbres) do francês Jean Giono, de 1953, foi realizado por Frédéric Back, considerado por muitos um gênio da arte e da animação.

Conta a história de Elzeard Bouffier, um pastor de ovelhas que durante anos cultivou uma floresta esplendorosa numa área desértica da França.

O conto é narrado por um jovem viajante (o esplêndido Philippe Noiret, no áudio francês), que um dia encontra este homem nas suas viagens e acompanha a mudança na paisagem, no decorrer dos anos. A beleza calma da paisagem contrasta com a fúria das duas Grandes Guerras que o narrador assiste, e o feito notável do pastor oferece um olhar do poder inspirador da natureza e da esperança, que podem emergir no mais improvável dos lugares.

Palavras do autor: "Para que o caráter de um ser humano revele qualidades realmente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar as suas ações ao longo de muitos anos. Se tais ações são desprovidas de todo o egoísmo, se o ideal que as dirige é de uma generosidade ímpar, se é absolutamente certo que não procuraram qualquer recompensa e se, além disso, deixaram marcas visíveis no mundo, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um caráter inesquecível." - Jean Giono

Para assistir a esta preciosidade, é só clicar na imagem acima.

Fonte: You Tube

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Arnaldo Bloch



Precisamos falar sobre o Chico

Relevância não é um conceito matemático.

Um amigo me convidou para o show do Lobão sábado passado, no Circo. Declinei: a duas semanas do fim da temporada de 40 dias, eu enfim conseguira meu ingresso para ver o Chico.
— O Chico? — espantou-se meu amigo. — Temporada? Mais de um mês? Quinta a domingo?
— Qual o problema?
— Achava que esses dinossauros da MPB só faziam um fim de semana e olhe lá. E o cara não emplaca um sucesso há 30 anos!
— Ninguém, mais, na MPB, emplaca sucesso algum. Se não é pagode, funk, axé, padre, pastor ou Roberto Carlos, danou-se.
— Não exagera.
— O que é, hoje, emplacar um sucesso? Discos não vendem. Rádios não contam. O que importa é show.
— Mas um mês? Como é que o Chico faz temporada de um mês?
— Chico é um mito. Um Patrick Bruel. Um Bob Dylan latino. Um Gainsbourg. O público que ele teve, continua a ter: a geração dele e pelo menos as três seguintes e uma turma nova, menos numerosa. Além disso, faz um show a cada cinco anos. Não é como o Caetano, sempre nos palcos.

— O Caetano é um ser ubíquo.
— Exato. O Caetano está em novelas, jornais, filmes e prêmios pop. Chico, não. Desaparece por meia década, vai para a França, escreve um livro, caminha na praia, arruma namorada. Quando anuncia um show, é o estouro da boiada.
Meu amigo reconheceu sua avaliação equivocada e me parabenizou por ter um ingresso tão valioso, stricto e lato sensu.
Teve um insight: quantos shows novos de Chico Buarque ainda teremos oportunidade de ver?
— Um novo show de Chico é como uma nova Copa do Mundo.
— Só que, ao contrário do futebol, a qualidade só aumenta — retruquei.
Meu amigo discordou, fazendo coro àquela cansativa esparrela.
— Chico já não é o mesmo. Não faz mais os refrãos que a turma toda gosta de cantar. Chico não tem mais a relevância que tinha.
— Relevância para quem, cara pálida? Musicalmente, ele se sofisticou. Nem precisa mais de parceiro. Para quem gosta de música, é joia.
— Ele era mais relevante num tempo em que a política ditava sua pauta musical. Olha: “Construção”, “Meu caro amigo”, “Vai passar”, “Apesar de você”, “Geni e o zepelim”, “Trocando em miúdos”, “Feijoada completa”. E depois? O que veio?
— Que tal “Futuros amantes”, “Choro bandido”, “A ostra e o vento”, “Brejo da cruz”, “Estação derradeira”, “Valsa brasileira”, “A moça do sonho”?, “Você, você”?, “Cecília”?
— Quem canta essas músicas? A galera não canta essas músicas. Ninguém sabe cantar.
— Que galera? E que critério é esse, que identifica qualidade a tamanho do público?
— A galera que cantava Chico.
— Eu, por exemplo, e pelo menos uns cinco amigos, achamos “As cidades” um discaço. Sei todas as músicas de cor.
— Faz parte de uma minoria. Digamos, 14%.
— E esses 14% não são relevantes? Estão equivocados? Devem ser exterminados?
— Deixa de histeria. Virou manifesto?
— Se atribuir-se uma superioridade “verdadeira”, de caráter absoluto, à cultura culta, sobre as manifestações de maior apelo popular resvala no fascismo, o oposto também.
— Que oposto?
— Dizer que só o gosto das massas é nobre e que a sofisticação é formalismo de elite equivale a perseguir o refinamento, tornar o intelectual um pária, um degenerado, um hermético, inimigo do entendimento. A ideia de que a força está com a maioria fez sucesso tanto nos colossos de esquerda quanto nos populismos totalitários de extrema direita.
— Ih, pirou.
A essa altura, o leitor deve estar perguntando como foi o show do Chico.
Respondo: foi dos melhores que vi. Intimista, privilegiou a música mesmo quando o “sucesso que a gente gosta de cantar” pintou.
Tocou o disco novo inteiro. O disco novo é lindo. “Essa pequena” é uma obra-prima. O refrão de “Sou eu” pega. “Querido diário” é pungente.
Fez um “Geni” apoteótico. Os duetos de violão com Luiz Cláudio Ramos estão primorosos.
Chico Batera é um barato. Jorge Helder é o fino. Wilson das Neves é uma lenda.
E tudo é relevante.

Arnaldo Bloch

Nota: Fotografia pessoal, tirada durante o show do dia 15 de Janeiro, no qual esta admiradora do artista foi brindada com um show inesquecível.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Gonçalves Crespo



Fervet Amor

Dá para a cerca a estreita e humilde cela
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.

Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Vêem-se ao longe os trigos ondulando ...
Maio sorri na Pradaria bela.

Zumbe o inseto na flor do rosmaninho:
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:
Zunem besouros e palpita o ninho.

E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.

Gonçalves Crespo

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Feliz Ano-Novo!



Feliz Ano-Novo

Quero um Ano-Novo em que todas as crianças, ao ligarem a tevê, recebam um banho de Mozart, Pixinguinha e Noel Rosa; aprendam a diferença entre impressionistas e expressionistas; vejam espetáculos que reconstituem a Balaiada, a Confederação do Equador e a Guerra dos Emboabas; e durmam após fazer suas orações.
Desejo um Ano-Novo em que, no campo, todos tenham seu pedaço de terra, onde vicejem laranjas e alfaces e voejem bem-te-vis entre vacas leiteiras. Na cidade, um teto sob o qual reluz o fogão de panelas cheias, a sala atapetada por remendos coloridos, a foto colorida do casal exposta em moldura oval sobre o sofá.
Espero um Ano-Novo em que as igrejas abram portas ao silêncio do coração, o órgão sussurre o cantar dos anjos, a Bíblia seja repartida como pão. A fé, de mãos dadas com a justiça, faça com que o céu deixe de concentrar o olhar daqueles aos quais é negada a felicidade nesta terra.
Um Feliz Ano-Novo com casais ociosos na arte de amar, o lar recendendo a perfume, os filhos contemplando o rosto apaixonado dos pais, a família tão entretida no diálogo que nem se dá conta de que o televisor é um aparelho mudo e cego num canto da sala.
Desejo um Ano-Novo em que os sonhos libertários sejam tão fortes que os jovens, com o coração a pulsar ideais, não recorram à química das drogas, não temam o futuro nem se expressem em dialetos ininteligíveis. Sejam, todos eles, viciados em utopia.
Espero um Ano-Novo em que cada um de nós evite alfinetar rancores nas dobras do coração e lave as paredes da memória de iras e mágoas; não aposte corrida com o tempo nem marque a velocidade da vida pelos batimentos cardíacos.
Um Ano-Novo para saborear a brevidade da existência como se ela fosse perene, em companhia de ourives de encantos, cujos hábeis dedos incrustam na rotina dos dias jóias ternas e eternas.
Quero um Ano-Novo em que a cada um seja assegurado o direito do emprego, a honra do salário digno, as condições humanas de trabalho, as potencialidades da profissão e a alegria da vocação. Um novo ano capaz de saciar a nossa fome de pão e de beleza.
Rogo por um Ano-Novo em que a polícia seja conhecida pelas vidas que protege e não pelos assassinatos que comete; os presos reeducados para a vida social; e que os pobres logrem repor nos olhos da Justiça a tarja da cegueira que lhe imprime isenção.
Um Ano-Novo sem políticos mentirosos, autoridades arrogantes, funcionários corruptos, bajuladores de toda espécie. Livre de arroubos infantis, seja a política a multiplicação dos pães sem milagres, dever de uns e direito de todos.
Espero um Ano-Novo em que as cidades voltem a ter praças arborizadas; as praças, bancos acolhedores; os bancos, cidadãos entregues ao sadio ócio de contemplar a natureza, ouvir no silêncio a voz de Deus e festejar com os amigos as minudências da vida - um leque de memórias, um jogo de cartas, o riso aberto por aquele que se destaca como o melhor contador de piadas.
Desejo um Ano-Novo em que o líder dos direitos humanos não humilhe a mulher em casa; a professora de cidadania não atire papel no chão; as crianças cedam o lugar aos mais velhos; e a distância entre o público e o privado seja encurtada pela ponte da coerência.
Quero um Ano-Novo de livros saboreados como pipoca, o corpo menos entupido de gorduras, a mente livre do estresse, o espírito matriculado num corpo de baile, ao som dos mistérios mais profundos.
Desejo um Ano-Novo em que o governo coloque o país nos eixos, livre a população do pesado tributo da degradação social, e tome no colo milhões de crianças precocemente condenadas ao trabalho, sem outra fantasia senão o medo da morte.
Espero um Ano-Novo cujo principal evento seja a inauguração do Salão da Pessoa, onde se apresentem alternativas para que nunca mais um ser humano se sinta ameaçado pela miséria ou privado de pão, paz e prazer.
Um Ano-Novo em que a competitividade ceda lugar à solidariedade; a acumulação à partilha; a ambição à meditação; a agressão ao respeito; a idolatria ao dinheiro ao espírito das Bem-Aventuranças.
Aspiro a um Ano-Novo de pássaros orquestrados pela aurora, rios desnudados pela transparência das águas, pulmões exultantes de ar puro e mesa farta de alimentos despoluídos.
Rogo por um Ano-Novo que jamais fique velho, assim como os carvalhos que nos dão sombra, a filosofia dos gregos, a luz do Sol, a sabedoria de Jó, o esplendor das montanhas de Minas, a música gregoriana.
Um ano tão novo que traga a impressão de que tudo renasce: o dia, a exuberância do mar, a esperança e nossa capacidade de amar. Exceto o que no passado nos fez menos belos e bons.

Frei Betto

Estes são também os meus desejos para 2012. Agradeço a todos os amigos pela caminhada a meu lado, pelo apoio, pela tolerância com as poucas postagens neste espaço e pelos abraços que me envolveram. Que possamos permanecer irmanados pela paz, pelo amor e pela amizade, cultuando a ética, a dignidade e a solidariedade. Espero que o Scenarium continue a embelezar a minha alma de arte, para que eu possa dividir com vocês estes momentos de beleza e cultura. Feliz 2012!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Mensagem de Natal



Antes de acionar o vídeo, não se esqueça de dar pausa na play list musical do blog.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Il Volo



Em maio de 2009, três adolescentes, Piero Barone, Ignazio Boschetto e Gianluca Ginoble, apareceram no show de talentos "Ti Lascio Una Canzone" e deslumbraram os espectadores com a interpretação impecável de "O Sole Mio". Os meninos, que ganharam a competição com facilidade, foram batizados de "Il Volo", significando assim que esses três jovens tenores estavam prestes a abrir as asas e voar.

Não demorou muito e Michele Torpedine (que já cuidou da carreira de Andrea Bocelli e Zucchero, estrela italiana de rock) e o mundialmente conhecido cantor/produtor Tony Renis, conseguiram um contrato de gravação para o trio com a Universal Music Group, que lançou o álbum IL VOLO, na Itália, em novembro de 2010. O álbum já está na categoria ouro, indo para o status de platina em seu país de origem e teve um lançamento mundial em 2011. Além disso, eles se tornaram os primeiros artistas italianos a assinarem com a Geffen Records nos Estados Unidos, onde o álbum também foi lançado em 2011.

Piero, Ignazio, e Gianluca gravaram Il Volo, em Los Angeles e Roma, bem como no famoso estúdio de Londres, o Abbey Road. O álbum é uma vitrine para o talento estelar destes três jovens cantores.

O lançamento de IL VOLO é apenas o começo do que é certo ser uma aventura emocionante para Gianluca (que vem de Abruzzo), Ignazio (nascido em Bolonha), Piero (que é de Agrigento, na Sicília). Em fevereiro de 2010, o lendário produtor Quincy Jones convidou os meninos para representarem a Itália cantando no single de caridade "We Are The World: 25 para o Haiti", onde eles impressionaram as super-estrelas Celine Dion, Barbra Streisand, e Josh Groban, durante a sessão de gravação. Poucos dias depois, o grupo retornou à Itália para se apresentar no festival anual de música Sanremo 60.

Eles podem ser jovens, mas a missão de IL VOLO é clara: "Queremos compartilhar nosso amor pela música com pessoas de todo o mundo, incluindo jovens da nossa própria idade, o que seria pra nós um sonho”

Deixo para os amigos do Scenarium alguns momentos com os maravilhosos meninos. É só clicarem nos títulos abaixo:






sábado, 3 de dezembro de 2011

Manuel Bandeira



Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Jorge de Lima



Mulher proletária

Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Meio-Dia em Paris



Viajar para o continente europeu é almejar se encantar com a beleza artística que vem a reboque da História. Beleza contada num detalhe do entalhe que ornamenta uma igreja, um museu, um castelo ou as mais antigas moradias de uma cidade. É desvendar diferenças nos estilos e identificar o movimento cultural em que eles se enquadram. Ver-se como uma inspiração do pintor, do escultor, de um poeta ou de um escritor. Para mim, a Europa é o lugar onde me desapego da modernidade, esqueço obrigações e renasço num passado que em outra encarnação sinto que já pisei. E, se na Europa, independente do país ou da cidade, eu me sinto assim, quem me conhece sabe que em Paris, então, eu estou em casa.

Não, não pensem que é esnobismo! Eu digo que estou em casa, porque tenho a impressão que vivi ali em outras eras. Reservo sempre para o final das minhas viagens à Europa uma estada em Paris. É a cereja do bolo que saboreio, deixando no meu percurso o desejo de um breve retorno àquela encantadora cidade.

Mas Paris mudou. Ou será que fui eu que mudei?... Fiquei um tempo sem visitar a minha segunda cidade em preferência – o Rio de Janeiro é a primeiríssima - e já não a reconheci mais.

Paris estava transbordando de gente num mês em que a cidade não costuma lotar. Sabe-se que é a cidade mais visitada do mundo, mas a impressão que eu tinha era a de que todos resolveram ir pra lá, na mesma época. Uma verdadeira babel de idiomas!

Se encontrar uma cidade cheia incomoda, imagine ainda você se deparar com uma cidade amedrontada? E Paris está assim. Sofrendo com a imigração ilegal, aliada à crise que está assolando o continente europeu, a cidade viu aumentar a incidência de golpes em pessoas incautas. Não se vê mais o glamour que recendia da capital francesa. A realidade crua fica estampada na fisionomia desconfiada dos parisienses, quando interceptados para se pedir uma singela informação. Lá, não é comum violências com armas, mas apenas furtos, e para os residentes e, principalmente, para os turistas, fica aquele gosto amargo de que a qualquer momento você pode se tornar uma vítima.

É claro que estes não são motivos para que eu deixe de amar a cidade luz, entretanto, senti necessidade de fazer como Gil, o personagem vivido por Owen Wilson, no filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen. Já que à noite todos os gatos são pardos, ao meio-dia me vi postada nas escadarias da Igreja Saint-Étienne-Du-Mont, esperando a passagem do mesmo carro antigo, que me transportaria de volta àquela Paris que me conquistou.

Amigos, estou retomando as postagens do blog e aproveito para agradecer àqueles que se tornaram seguidores, durante o período de minhas férias.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Até breve!

Amigos, estou saindo de férias e aproveito para me desculpar pelas poucas postagens neste blog. Em novembro, se Deus quiser, estarei de volta e espero ter mais tempo para oferecer novidades a todos vocês.

Abraços e até lá!

Marise Ribeiro

domingo, 11 de setembro de 2011

Rivkah Cohen



Nada doerá mais!

Conheço esse olhar parado, sereno
como quem aguardou setembro
e ele não chegou..
Sei que vieram as estações do tempo,
mas nada do que fizeram,
lhe trouxe alento ou amenizou.

Enfrentei tempestades,
amarguei fortes ventos,
mas nada doerá mais que ter a vontade
de ser setembro
e não sou..

© rivkahcohen
Brasília (DF) - Brasil

Visite a sensibilidade de Rivkah Cohen clicando aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ju Rigoni



Do Espanto

Saí de casa sem sair...
Não me vesti com esmero;
não pintei os lábios;
não levei bolsa,
documentos, dinheiro...

Fui-me,...
em uma ou duas piscadas,
levada pelos sentimentos
que embaralham palavras...

Conversei-me,
desconversei-me,
e, como sempre,
não me entendi...
Ai, que merecia uns tapas!...

(Se do lado de fora
alguém passasse e me visse
em meio a tamanha pendenga
me acreditaria uma louca
a falar com janelas e portas...)

Voltei...
e, finalmente, resolvi sair, -
vestindo o melhor vestido,
usando o batom mais vermelho,
calçando sapatos bonitos,
de saltos altos infinitos...

Nem bolsa, nem documentos,
nem dinheiro.
Mãos... nuas;
coração sobrecarregado,
sem piscar, alcancei a rua.

Na esquina
dei de cara com a sina
de quem sai de casa
levando apenas sonhos
e palavras...

© ju rigoni (2002)
Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

Convido os amigos a conhecerem os espaços onde Ju Rigoni derrama sonhos e palavras:

Dormentes
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Fundo de Mim
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Medo de Avião
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Navegando...
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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sonia Pallone



O Gosto do Beijo

“...Quem sabe o gosto de um beijo desesperado?
Não aquele da cama,
na hora em que a loucura do prazer deixa marcas...
Nem aquele, que apesar de louco,
sabe que vai ter tempo pra continuar
e dar mais um e mais outro...
Eu falo daquele beijo,
que o desejo faz queimar antes de sentir...
Que você antevê com os olhos antes de alcançar a boca...
Daquele que você sabe que não vai poder dar
porque aquela boca é sua,
mas o tempo daquele beijo não é...
Daquele beijo que a letra da música canta
e você fecha os olhos, oferece e sente...
Falo daquele beijo
que o desejo faz querer mais que temer o medo...
Do beijo que arrebatou o único momento possível
e na eternidade desse instante a sós,
implode com raiva, com fúria,
salgado de lágrimas,
amargo de sofreguidão, doce de paixão...
Um beijo desesperado sim,
porque nasceu da vontade do impossível
e deixou para sempre a boca molhada
e ávido o coração..."

Sonia Pallone

http://www.solidaodealma2.blogspot.com/