domingo, 15 de agosto de 2010

Cecílio Elias Netto



Eu tinha intenção de postar esta crônica no Dia dos Pais, mas acabei não fazendo. Divulgo-a hoje, uma vez que sua mensagem não se prende a datas, ela será sempre atual para os pais que não dão limites aos filhos nem os ensinam a buscar seus ideais.

A Lua Que Não Dei

Compreendo pais - e me encanto com eles - que desejariam dar o mundo de presente aos filhos. E, no entanto, abomino os que, a cada fim de semana, dão tudo o que filhos lhes pedem nos shoppings onde exercitam arremedos de paternidade. E não há paradoxo nisso. Dar o mundo é sentir-se um pouco como Deus, que é essa a condição de um pai. Dar futilidades como barganha de amor é, penso eu, renunciar ao sagrado.
Volto a narrar, por me parecer apropriado à croniqueta, o que me aconteceu ao ser pai pela primeira vez. Lá se vão, pois, 45 anos. Deslumbrado de paixão, eu olhava a menina no berço, via-a sugando os seios da mãe, esperneando na banheira, dormindo como anjo de carne. E, então, eu me prometia, prometendo-lhe: "Dar-lhe-ei o mundo, meu amor." E não lho dei. E foi o que me salvou do egoísmo, da tola pretensão e da estupidez de confundir valores materiais com morais e espirituais.
Não dei o mundo à minha filha, mas ela quis a Lua. E não me esqueço de como ela pediu, a Lua, há anos já tão distantes. Eu a carregava nos braços, pequenina e apenas balbuciante, andando na calçada de nosso quarteirão, em tempos mais amenos, quando as pessoas conversavam às portas das casas. Com ela junto ao peito, sentia-me o mais feliz homem do mundo, andando, cantarolando cantigas de ninar em plena calçada. Pois é a plenitude da felicidade um homem jovem poder carregar um filho como se acariciando as próprias entranhas. Minha filha era eu e eu era ela. Um pai é, sim, um pequeno Deus, o criador. E seu filho, a criatura bem amada.
E foi, então, que conheci a impotência e os limites humanos. Pois a filhinha - a quem eu prometera o mundo - ergueu os bracinhos para o alto e começou a quase gritar, assanhada, deslumbrada: "Dá, dá, dá..." Ela descobrira a Lua e a queria para si, como ursinho de pelúcia, uma luminosa bola de brincar. Diante da magia do céu enfeitado de estrelas e de luar, minha filha me pediu a Lua e eu não lha pude dar.
A certeza de meus limites permitiu, porém, criar um pacto entre pai e filhos: se eles quisessem o impossível, fossem em busca dele. Eu lhes dera a vida, asas de voar, diretrizes, crença no amor e, portanto, estímulo aos grandes sonhos. E o sonho da primogênita começou a acontecer, num simbolismo que, ainda hoje, me amolece o coração. Pois, ainda adolescente, lá se foi ela embora, querendo estudar no Exterior. Vi-a embarcar, a alma sangrando-me de saudade, a voz profética de Kalil Gibran em sussurros de consolo:
"Vossos filhos não são vossos filhos, mas são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Eles vêm através de vós, mas não de nós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. (...) Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas."
Foi o que vivi, quando o avião decolou, minha criança a bordo. No céu, havia uma Lua enorme, imensa. A certeza da separação foi dilacerante. Minha filha fôra buscar a Lua que eu não lhe dera.
E eu precisava conviver com a coerência do que transmitira aos filhos: "O lar não é o lugar de se ficar, mas para onde voltar."
Que os filhos sejam preparados para irem-se, com a certeza de ter para onde voltar quando o cansaço, a derrota ou o desânimo inevitáveis lhes machucarem a alma. Ao ver o avião, como num filme de Spielberg, sombrear a Lua, levando-me a filha querida, o salgado das lágrimas se transformou em doçura de conforto com Kalil Gibran: como pai, não dando o mundo nem Lua aos filhos, me senti arqueiro e arco, arremessando a flecha viva em direção ao mistério.
Ora, mesmo sendo avós, temos, sim e ainda, filhos a criar, pois família é uma tribo em construção permanente. Pais envelhecem, filhos crescem, dão-nos netos e isso é a construção, o centro do mundo onde a obra da criação se renova sem nunca completar-se. De guerreiros que foram, pais se tornam pajés. E mães, curandeiras de alma e de corpo. É quando a tribo se fortalece com conselheiros, sábios que conhecem os mistérios da grande arquitetura familiar, com régua, esquadro, compasso e fio de prumo. E com palmatória moral para ensinar o óbvio: se o dever premia, o erro cobra.
Escrevo, pois, de angústias, acho que angústias de pajé, de índio velho. A nossa construção está ruindo, pois feita em areia movediça. É minúsculo o mundo que pais querem dar aos filhos: o dos shoppings. E não há mais crianças e adolescentes desejando a Lua como brinquedo ou como conquista. Sem sonhos, os tetos são baixos e o infinito pode ser comprado em lojas. Sem sonhos, não há necessidade de arqueiros arremessando flechas vivas.
Na construção familiar, temos erguido paredes. Mas, dentro delas, haverá gente de verdade?
Cecílio Elias Netto é jornalista e seu blog pode ser acessado por aqui.

Antero de Quental



Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão onde se esconde
O inconsciente imortal só me responde
Um bramido, um queixume e nada mais.

(in Antologia – 1871 - Soneto dedicado a A. de Azevedo Castello Branco)

domingo, 8 de agosto de 2010

Ao meu saudoso Pai

recados orkut

Mario Quintana



As Mãos do Meu Pai

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis

sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,

essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,

vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida

que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...

domingo, 25 de julho de 2010

World Builder

Um homem constrói um mundo para a mulher que ama, utilizando ferramentas holográficas.
Este premiado filme foi criado pelo cineasta Bruce Branit, conhecido como um dos criadores do filme “405”.

Para apreciar a beleza do filme, não se esqueça de acionar a pausa na playlist musical do blog.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Feliz Dia do Amigo!



Amizade

O amigo é uma bênção que nos cabe cultivar no clima da gratidão.
Quem diz que ama e não procura compreender e nem auxiliar, nem amparar e nem servir, não saiu de si mesmo ao encontro do amor de alguém.
A amizade verdadeira não é cega, mas se enxerga defeitos nos corações amigos, sabe amá-los e entendê-los mesmo assim.
Teremos vencido o egoísmo em nós, quando nos decidirmos ajudar os entes amados a realizarem a felicidade própria, tal qual entendem eles, deva ser a felicidade que procuram, sem cogitar de nossa própria felicidade.
Em geral, pensamos que os nossos amigos pensam como pensamos, no entanto, precisamos reconhecer que os pensamentos deles são criações originais deles próprios.
A ventura real da amizade é o bem dos entes queridos. Assim como espero que os amigos me aceitem como sou, devo de minha parte, aceitá-los como são.
Toda vez que buscamos desacreditar esse ou aquele amigo, depois de havermos trocado convivência e intimidade, estaremos desmoralizando a nós mesmos.
Em qualquer dificuldade com as relações afetivas é preciso lembrar que toda a criatura humana é um ser inteligente em transformação incessante e, por vezes, a mudança das pessoas que amamos não se verifica na direção de nossas próprias escolhas.
Quanto mais amizade você der, mais amizade receberá.
Se Jesus nos recomendou amar os inimigos, imaginemos com que imenso amor nos compete amar aqueles que nos oferecem o coração.

André Luiz – Francisco Cândido Xavier

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Affonso Romano de Sant'Anna



Separação

Desmontar a casa

e o amor.
Despregar os sentimentos
das paredes e lençóis.

Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.

O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
- pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

© Affonso Romano de Sant'Anna
Rio de Janeiro (RJ) – Brasil

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Augusta Schimidt


Sinergias

Há um sol
Naquele poente
Resplandecente...
Há fumaça sem voz
Com jeito de amor,
Em voejos de pombas,
Leveza de aceno...
Há um rancho de espera,
Um poço de pranto,
Um olhar de espanto...
Há um rio que é poeta
A sonhar com a paz,
Fecundando sementes
Num leito de solidão.
Há pressa e vagar
Nos seres humanos...
Há sonhos pintados
Nos sonhos da gente,
De repente...

23/02/2010

© Augusta Schimidt
Campinas (SP) - Brasil

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Danuza Leão



Um quintal

Quando uma pessoa começa a melhorar de vida, pensa logo em comprar uma boa casa. E o que é uma boa casa? É preciso um jardim e uma piscina, imaginam os pais. Eles querem para as crianças uma infância saudável, com confortos que nunca tiveram, mas não pensam no principal: um quintal. Um quintal não precisa ser grande, e o chão deve ser de terra batida. Nele deve haver algumas árvores que não pareçam ter sido plantadas, mas sempre existido. Um abacateiro e uma goiabeira, de goiaba vermelha, são fundamentais. No fundo, um galinheiro tosco, com uma porta quebrada, para que as três ou quatro galinhas possam correr quando alguém quiser pegá-las. Nenhum computador levará uma criança ao deslumbramento que ela terá ao encontrar um ovo e segurá-lo, ainda quentinho. É o mistério da vida nas mãos dela, mais absoluto e mais simples do que qualquer livro de filosofia.

Um dia, a cozinheira avisa que vai matar uma galinha para o molho pardo. Os meninos pedem para ver a cena trágica; a mãe não quer, mas a empregada, acostumada, com o facão na mão, facilita. Se a galinha tiver dentro da barriga aquele monte de ovinhos, aí a lição de morte – e de vida – será ainda mais completa. E mais lições serão aprendidas quando alguém sugerir fazer uma peteca com as penas mais duras e algumas palhas de milho. Mas será que alguém sabe do que estou falando?

Voltando: esse quintal deve ser meio abandonado, mas muito limpo; duas vezes por dia a empregada, cantando bem alto, dá uma varrida. É importante também que haja um tanque para lavar o pé de alguma criança quando ela pisar descalça numa porcaria, e um varal com pregadores de roupa de madeira. Nesse lugar, não vai ter horta nem pomar organizado. Em compensação, é bom que exista do outro lado do muro uma enorme mangueira para que se possa praticar o melhor crime do mundo: roubar as frutas do vizinho. Nos fundos de um quintal, deve haver também uma touceira de bananeiras ou bambus e, claro, um adulto dizendo sempre para tomar cuidado, pois ali pode ter uma cobra. Não há infância que se preze sem medo de cobra. Quando as goiabas começam a crescer, fica todo mundo de olho até a primeira delas estar no ponto para ser arrancada e mordida ali mesmo, sem lavar. E que sensação terrível quando se vê o bicho da goiaba se mexendo. Aí, sem que ninguém precise dizer nada, você começa a aprender que a vida é assim: ou se compra uma goiaba bonita, mas sem gosto, ou se espera com paciência ela amadurecer no pé até desfrutar o supremo prazer de dar aquela dentada – com direito a bicho e tudo.

Mas o tempo voa. De repente você se sente só, abre o caderno de telefones e percebe sua pouca afinidade com os nomes que estão lá, que tem vivido uma vida que não tem nada a ver e começa a procurar um sentido para as coisas. Não encontra resposta, claro, mas um dia está no trânsito, vê um terreno baldio, se lembra daquele quintal no qual não pensa há anos e percebe que essa é a lembrança mais importante e mais feliz de sua vida. E passa a olhar o mundo com a superioridade de quem tem um tesouro guardado dentro do peito, mas ninguém sabe.

Este texto, publicado na Revista Claudia, é de grande beleza e somente quem vivenciou aquela época pode afirmar como era gostoso ter um quintal onde brincar, onde exercitar a imaginação e a fantasia, enfim, onde aprender, crescer, amadurecer, assim como as frutas que se colhia naqueles pequenos recantos. Por ter sido criada em uma casa com quintal, há dois anos fiz este singelo soneto e aproveito para reeditá-lo aqui. Ele também pode ser lido no site Cenário de Sentimentos.

No Tempo dos Quintais

A saudade me leva pro passado
E, no fechar dos olhos... tal e qual,
Vejo a minha casinha e seu quintal
Como se fora um sonho bem sonhado.

O galinheiro sendo derrubado...
No lugar, um telhado com beiral...
Não mais teria o canto matinal
Do galo a uma panela condenado.

Outros bichos moraram lá depois:
Uma bela jandaia e cães, só dois...
A jandaia fugiu, cães não há mais...

Sem gritos e latidos de animais,
O som que vem e ecoa de emoção
É o pranto do saudoso coração...

15/02/08
Marise Ribeiro (RJ) - Brasil

domingo, 4 de julho de 2010

Gilka Machado


Gilka Machado – Desenho em lápis de cera de Amaury Menezes (neto da escritora)

“Sonhei em ser útil à humanidade. Não consegui, mas fiz versos. Estou convicta de que a poesia é tão indispensável à existência como a água, o ar, a luz, a crença, o pão e o amor" – Gilka Machado

"A forma ousada dos seus versos, de um ritmo livre e bastante pessoal, harmoniza-se com a liberdade de inspiração, onde predomina um forte sensualismo, tão forte que Humberto de Campos notava-lhe nos poemas verdadeiras 'tempestades de carne'... Seus livros provocavam, simultaneamente, admiração e escândalo, já que a poetisa confessava sentir pelos no vento', desejava penetrar o amado 'pelo olfato, assim como as espiras/invisíveis do aroma...' e declarava, sem rebuços: 'Eu sinto que nasci para o pecado'."
Góes, Fernando [1960]. Gilka da Costa Melo Machado. In: Panorama da poesia brasileira: o pré-modernismo. p.165.


Analogia

“Sempre que o frio chega o meu pesar sorri,
pois te adoro no Inverno e adoro o Inverno em ti...”

Amo o Inverno assim triste, assim sombrio,
lembrando alguém que já não sabe amar;
e sempre, quando o sinto e quando o espio,
julgo-te eterizado, esparso no ar.

Afoita, a alma do Inverno desafio,
para inda te querer e te pensar…
para gozá-lo e gozar-te, que arrepio!…
que semelhança em ambos singular!…

Loucura pertinaz do meu anelo:
— emprestar-te, emprestar-lhe uma emoção,
— pelo mal de perder-te querer tê-lo…

Amor! Inverno! Minha aspiração!
quem me dera resfriar-me no teu gelo!
quem me dera aquecer-te em meu Verão!…

(In Mulher Nua – 1922)

Poema de Amor
(Versos Antigos)

Na plena solidão de um amplo descampado
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda a feição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.

O vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado,
que te sinto no vento e a ele, feliz, me exponho!

Com carícias brutas e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me apenas tua,
— sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças.

E não podes saber do meu gozo violento
quando me fico, assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à volúpia do vento!

No livro “Estados de Alma”, de 1917, Gilka Machado denominou “Poemas de Amor (Versos Antigos)” a uma série de poemas que podem ser divulgados isoladamente. Ao longo do tempo, estes poemas foram recebendo títulos diferentes e podem ser encontrados virtualmente com os seguintes títulos: O Vento, A Volúpia do Vento e Particularidade.

"Se é intensiva a experiência de Gilka Machado, como poetisa e mulher reivindicadora, há outras barreiras a vencer entre a militância poética e a militância doméstica. Havia uma distância, na sua época, entre o campo da sacralidade da arte e certos aspectos da vida rotineira, que o simbolismo intensifica, o modernismo desenvolve e autoras mais contemporâneas, como Adélia Prado, consumam."

Gotlib, Nádia Battella [1982]. Com dona Gilka Machado, Eros pede a palavra: poesia erótica feminina brasileira nos inícios do século XX. Polímica: Revista de Crítica e Criação. p.46-47.


Ser Mulher ...

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

(In Cristais Partidos – 1915)

Naldo Velho



A Linguagem das Sombras

Ando aprendendo a linguagem das sombras.
Não das que causam arrepio,
mas das que evidenciam contornos
num plano pleno de luz que absorvo.

Outro dia consegui ler um rochedo
com toda sua história ali preservada...
Só agora entender eu consigo,
a aspereza que trago comigo.

Ando aprendendo a exercer sutilezas
só assim poderei caminhar pelas sombras,
não aquelas que nos provocam o medo,
mas as que nos vivenciam os rochedos.

Outro dia consegui desvendar um enredo
com todos os seus numerosos segredos,
quantos e preciosos caminhos,
emaranhados de muitos destinos.

Ando exercendo a palavra delicadeza,
poemas semeados sem pressa.
Qualquer dia desses vou adormecer riacho,
acordar corredeira, morrer em seus braços,
renascer em você.

Ando aprendendo a exercer existências.

© Naldovelho
Niterói (RJ) – Brasil

Seu nome, Ronaldo Buonincontro, mas todos o conhecem como Naldo Velho, poeta e músico. Desde que um poema de Naldo chegou a mim, enviado por Rivkah Cohen, tornei-me admiradora de sua escrita. Posteriormente, passei a conviver com sua brilhante inspiração nos grupos de poesia. Apreciem a riqueza poética de Naldo Velho visitando-o em Naldo Velho – Oficina de Trabalho.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Marise Ribeiro - Copa 2010



De Quem é a Culpa?

Brasileiro tem sempre a mania de escolher culpados, quando seus intentos dão insucesso e, se o assunto então for futebol, aí o bicho pega.

Na derrota há pouco de nossa seleção, o brasileiro culpará o Dunga, porque convocou jogadores de baixa qualidade técnica, encheu o time de volantes, deixou de convocar Ganso e Neymar, deu ataques nervosos e descambou impropérios contra a poderosa Globo, não tem experiência pra ser técnico, e por aí vai...

Se salvar a cara do Dunga, culpará o Lula dizendo que o Presidente é um grande pé- frio, que a seleção não deveria ter se despedido dele antes de embarcar, que seu histórico de visitas a outros eventos deu azar, etc.

O Brasil jogou de uniforme azul, o segundo uniforme, isso também não foi bom, as "estatísticas" mostram que sempre fomos melhores com a amarelinha, afinal somos a seleção canarinho.

Culparão Mick Jagger, o “Ice Jagger”, porque jamais viu uma vitória de time para o qual estivesse torcendo e, hoje, com seu filho brasileiro, torcia pra gente.

Ah, sim, tem o juiz, que também sempre é o culpado, afinal truncou o jogo, caiu nas manhas do adversário, não expulsou nenhum jogador holandês em faltas praticadas.

Eu ficaria aqui enumerando uma série de motivos, para justificar nossa derrota, mas há uma só: a seleção holandesa foi superior, porque teve sangue-frio. Já os pentacampeões...

www.mariseribeiro.com

sábado, 26 de junho de 2010

Zelisa Camargo




Desencontro

pensei

quis
fui
e nada encontrei
frustrei-me diante do amor.

o riso estagnou no canto da boca
a tristeza aumentou
a angústia cresceu
e o desespero...
era inevitável.

tudo se tornou vazio
uma saudade dolente,
sem explicação de ser
e eu nada mais entendo


só sei que vim trazendo a angústia do desencontro.


Saudades...

Saudade de doer.
Olhar o tempo e nada ver.
Procurar o tato e nada ter.
E querer chorar e nada pensar.
Saudade de doer...
E essa musica lenta que traz você.
É esse toque suave em seu rosto.
É esse olhar que se perde na imensidão.
É sentir-se aí e estar aqui.
É perceber e nada entender.
É ouvir sua voz sem som
Falando em minha alma.
Saudade de doer...
É querer voar e não poder
É querer findar e não conseguir
É querer ir, mas ter que permanecer
No aqui e agora, nesse momento de dor
Que lateja peito, que rasga alma.
É querer ir para casa, mas onde é nossa casa?
E porque dessa saudade infinda?
Nada sei...
Apenas sentir,
Deixar as lágrimas descerem...
Dormir, acordar...
Aqui é terra ainda.
Sonhar...
E esquecer essa saudade de doer de você.


Nesta data, em que a querida Zelisa Camargo estaria aniversariando, o Scenarium presta uma singela homenagem à poeta, através de suas eternas palavras.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago



Poema à boca fechada

Não direi:

Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

Aprendamos, Amor

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.


Estudo de Nu

Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.

Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.

Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.


José de Sousa Saramago
16 de Novembro de 1922 — 18 de Junho de 2010

Singela homenagem do Scenarium ao grande escritor português, falecido nesta data.

domingo, 6 de junho de 2010

Chopin e Yundi Li


Monumento a Chopin no Parque Real Lazienki, em Varsóvia

Neste ano, comemora-se 200 anos de nascimento de Frédéric François Chopin ou Fryderyk Franciszek Chopin, e o Scenarium não poderia deixar de homenagear um dos maiores compositores clássicos da história. Chopin se destacou por sua técnica refinada e elaboração harmônica em composições para piano, criando novas formas musicais, como a balada, e inovando sonatas, valsas, prelúdios, etc.
Sua vida e sua obra, para quem ainda não as conhece, podem ser acompanhadas em diversos endereços virtuais, por isso, nossa homenagem será um pequeno apanhado do talento genial que Chopin nos proporciona até hoje.

Não sendo uma estudiosa dessa maravilhosa arte, mas apenas grande admiradora, apresento neste blog o talento de Yundi Li, pianista chinês, hoje com 28 anos de idade, que me encantou desde que assisti a um concerto do artista. Com 18 anos de idade, Yundi Li venceu a Competição Internacional Chopin de Piano, em Varsóvia, sendo o mais jovem pianista a se consagrar naquela competição.

Então, amigos e seguidores, usufruam dos maravilhosos momentos abaixo selecionados, inclusive a grandiosa apresentação do jovem pianista, em Varsóvia, com duração de 1 hora.

"Fantasie" Impromptu, Op. 66

Nocturne Op. 9 No. 2

Waltz No. 5 in a flat major, Op. 42

Polonaise Op. 22

Ballade No. 4 Op. 52 in F Minor

14th International Chopin Competition (2000)

Fontes: Wikipédia e You Tube

sábado, 5 de junho de 2010

Um Mundo Bem Melhor (We are the World - Brasil)

“Em 1985, Michael Jackson e Lionel Richie compuseram We are the World (Nós somos o mundo), que foi gravada por 45 artistas americanos em prol do combate à fome na África.

25 anos depois, esta mesma música foi regravada para ajudar as vítimas do terremoto que abalou o Haiti e causou danos tanto ao país quanto ao coração de seu povo. O Brasil também marca presença neste momento, ao seguir a iniciativa de outros grupos ao redor do mundo que fizeram suas próprias versões da música We Are The World 25 for Haiti.

O projeto Um Mundo bem Melhor - versão brasileira do movimento, idealizada pelos músicos e produtores brasilienses Walter Amantéa e Hudson Borges - tem propósito mais abrangente do que ajudar as comunidades do Haiti e do Chile, prejudicadas pelos fortes terremotos dos últimos meses. O movimento visa também colaborar com campanhas de solidariedade e amor ao próximo, mobilizações e ações em prol da construção de um Brasil ambientalmente sustentável, livre da fome e da miséria.

Com uma versão em português da canção, e com a participação de dezenas de grandes artistas de Brasília, o projeto busca sensibilizar as pessoas para o fato de que cada um é responsável por construir um mundo melhor."

Texto transcrito do site www.ummundobemmelhor.com.br. Não deixe de visitar o site citado e não se esqueça de dar pausa na playlist musical do blog, para apreciação do vídeo acima.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Francisca Júlia da Silva



A Florista

Suspensa ao braço a grávida corbelha,
Segue a passo, tranqüila... O sol faísca...
Os seus carmíneos lábios de mourisca
Se abrem, sorrindo, numa flor vermelha.

Deita à sombra de uma árvore. Uma abelha
Zumbe em torno ao cabaz... Uma ave, arisca,
Bem perto dela pelo chão lambisca,
Olhando-a, às vezes, trêmula, de esguelha...

Aos ouvidos lhe soa um rumor brando
De folhas... Pouco a pouco, um leve sono
Lhe vai as grandes pálpebras cerrando...

Cai-lhe de um pé o rústico tamanco...
E assim descalça, mostra, em abandono,
O vultinho de um pé macio e branco.

(In Mármores – 1895)



À Noite

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra;
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois, a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um réquiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite escura assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor tão cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

(In Esfinges – 1ª edição, 1903 e 2ª edição, 1920)


Em sessão mediúnica de Chico Xavier, o espírito de André Luiz diz: “apresentamos à nossa casa a irmã Francisca Júlia da Silva, que, havendo atravessado aflitivas provações, à morte do corpo físico, atualmente se propõe trabalhar no combate ao suicídio. Rogamos, assim, alguns minutos de silêncio, a fim de que ela possa transmitir sua mensagem.”

Logo após retirar-se, a poetisa anunciada tomou as possibilidades mediúnicas, com maneiras características, e pronunciou o belo soneto que ela própria intitulou com o expressivo apelo Lutai!

Para melhor entendimento do poema abaixo, cabe informar aqui que Francisca Júlia se suicidou no dia do enterro de seu marido.

Lutai!

Por mais vos fira o sonho, a rajada violenta
Do temporal de fel que enlouquece e vergasta,
Suportai, com denodo, a fúria iconoclasta
E o granizo cruel da lúrida tormenta.

Carreia a dor consigo a beleza opulenta
Da verdade suprema, eternamente casta;
Recebei-lhe o aguilhão que nos lacera e arrasta,
Ouvindo a voz da fé que vos guarda e apascenta.

De alma erguida ao Senhor varai a sombra fria!…
Por mais horrenda noite, há sempre um novo dia,
Ao calor da esperança a luz que nos enleva…

A aflição sem revolta é paz que nos redime.
Não olvides na cruz redentora e sublime
Que a fuga para a morte é um salto para a treva.

In De Vozes do Grande Além, de Francisco Cândido Xavier, diversos Espíritos

Fontes:

Brasiliana USP (o site disponibiliza os livros originais da poetisa)

Mensagens Espíritas

sábado, 29 de maio de 2010

Mensagem - A Fascinação dos Números



A fascinação dos números

O inesquecível personagem de Saint-Exupéry, o Pequeno Príncipe, trouxe inúmeros pensamentos sábios ao mundo.

Uma de suas constatações nos diz que as pessoas grandes adoram números.

"Quando a gente fala de um novo amigo, elas nunca se interessam em saber como ele realmente é." afirma ele.

"Não perguntam: Qual é o som da sua voz? Quais são seus brinquedos preferidos? Ele coleciona borboletas?

Mas sempre perguntam: Qual é a sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto o pai dele ganha?

Só então elas acham que o conhecem." termina ele por dizer.

Exupéry nos convida a redescobrirmos o que há de bom na infância, a redescobrir a pureza, a essência das coisas e da vida.

E quando nos fala, de forma até inocente, sobre as pessoas e os números, nos alerta para algo muito grave: viciamo-nos em números.

Associamos o tempo sempre a números.

Esquecemos que os numerais atribuídos à medição do tempo são convenções, e nos escravizamos a elas.

Muito tempo; pouco tempo; não vai dar tempo; tempo de sobra.

60 segundos; 60 minutos; 24 horas; 365 dias: são números que parecem nos perseguir. Vivem em nossos sonhos, pesadelos e em nossas urgências maiores.

Esquecemos que o tempo é oportunidade, é sucessão de experiências e de fatos, e que deve ser aproveitado ao máximo, tendo em vista nosso crescimento espiritual.

15 anos de vida; 30 anos; quarentões; sessentões; terceira idade: são todos rótulos que criamos no mundo, e que, na verdade, não correspondem à idade verdadeira, à idade da alma.

A idade da alma está associada não ao tempo dos números, mas à disposição, ao humor, ao ânimo, à coragem.

Encantamo-nos ao ver relatos de pessoas que depois dos 90 anos vão aprender a ler, e dizem-se realizadas, sentindo-se mais jovens do que nunca!

Não é força de expressão! Elas são jovens mesmo. A idade do corpo pode ser disfarçada, maquiada. A da alma, nunca.

Como avaliar, julgar alguém, pelo número de dígitos em sua folha de pagamento? Pelas roupas que pode comprar; pelas viagens que pode fazer; pelo ano de seu automóvel?

Dizendo assim, parece absurdo, exagero, mas é a forma de muitos procederem no que diz respeito aos números e aos julgamentos que fazemos.

Muitos têm números como objetivos: números na balança; números das loterias; número de clientes; números de metas de vendas, etc.

Ainda não descobriram que o mundo verdadeiro não é feito de numerais, que os objetivos maiores da vida, as aquisições de maior valor, nunca poderão ser mensurados desta forma.

É tempo de conhecer os outros e a nós mesmos pelo que somos, e não por tudo aquilo que os números podem contar.

Números nunca poderão medir felicidade. Números nunca poderão mensurar alegria. Nunca poderão ponderar o amor.

* * *
Mas se neste mundo ainda não pudermos escapar dos números, pensemos nestes:

Quantos sorrisos damos ao dia?

Há quanto tempo não dizemos que amamos alguém? Não este "Eu te amo" de novela, mas aquele dito e sentido por todas as partes da alma.

Quantos segundos duram seu abraço?

Qual a data que você escolheu para abandonar um vício, para se libertar de algo que o escraviza?

Quantos dias faltam para você começar a ser feliz?

Texto da Redação do Momento Espírita com base em citação da obra O pequeno príncipe, do livro Felicidade, amor e amizade - a sabedoria de Antoine de Saint-Exupéry, ed. Sextante.

Almeida Garrett



Não És Tu

Era assim tímido esse olhar,

A mesma graça, o mesmo ar;
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,

O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; e seu falar,

Ingênuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,

No seio o mesmo perfume,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu... ai! não és:

Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.

In Folhas Caídas
Almeida Garrett (1799 – 1854)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Azulejo Espanhol



No es la pura verdad?

Para melhor visualização, é só clicar na imagem.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Marilena Trujillo




Palavras...

Palavras são armas, palavras são fortes...
Palavras são tiros certeiros... mortais...
Há palavras que tiram o rumo, o norte...
Devorando feito feras irracionais.

Palavras fazem bem... fazem mal também.
Acariciam, enternecem ou jogam no chão.
Palavras impensadas vão muito além...
Aniquilam um amante e frágil coração.

Palavras são doces favos de mel...
Injustas, são um veneno potente.
Acre e borbulhante taça de fel.
Corte de navalha afiada, contundente!

Palavras são inesquecíveis momentos...
De amor... ternura... compreensão...
Impensadas são morte... tormento!
Trucidando o belo, o amor e a paixão!

Palavras ditas... jamais serão apagadas,
Sejam elas de cisma ou acusação...
Ficarão no peito escritas... grifadas...
Causando sempre tristeza e aflição!

Palavras são armas... palavras são fortes!
Benditas... são... as que pedem perdão!

04/05/2010
© Mary Trujillo
São Paulo (SP) – Brasil

Visite Mary Trujillo nos seguintes espaços:

Canto Mágico de Marilena Trujillo

Sou Poesia... Mary Trujillo

Magia Cigana Mary Trujillo

Luiz Eduardo Caminha



Festa na ilha

Primeiro friozinho d'outono
Lá vêm faceiras tainhas
Comida de sobra, festa na mesa
Pescador, pesca, pescada, doutor.

Primeiro calorzinho da primavera
Lá vêm raparigas faceiras
Saia rendada, sorriso convite
Festa, amasso, cama... namorador.

Aquelas, que dão de sobra,
No mar, nas redes, n'areias,
Comidas de toda maneira.

Estas, mocinhas dadeiras,
Nas praias, nas dunas d’areia,
Levanta a saia que sobra.

E como sobra!
Se sobra? Como!!!

12/05/2010
© Luiz Eduardo Caminha
Distrito de Ratones, Florianópolis (SC) - Brasil

Conheça a poesia do Caminha clicando aqui

sábado, 15 de maio de 2010

Fernando Sabino



Vistas da Floresta da Tijuca ou Parque Nacional da Tijuca


Carioca

Carioca, como se sabe, é um estado de espírito: o de alguém que, tendo nascido em qualquer parte do Brasil (ou do mundo) mora no Rio de Janeiro e enche de vida as ruas da cidade.

A começar pelos que fazem a melhor parte sua população, a gente do povo: porteiros, garçons, cabineiros, operários, mensageiros, sambistas, favelados. Ou simplesmente os que as notícias de jornal chamam populares: esses que se detêm horas e horas na rua, como se não tivessem mais o que fazer, apreciando um incidente qualquer, um camelô exibindo no chão a sua mercadoria, um propagandista fazendo mágicas. A improvisação é o seu forte, e irresistível a inclinação para fazer o que bem entende, na convicção de que no fim dá certo — se não deu é porque não chegou ao fim.

E contrariando todas as leis da ciência e as previsões históricas, acaba dando certo mesmo porque, como afirma ele, Deus é brasileiro — e sendo assim, muito possivelmente carioca.

Pois também sou filho de Deus — ele não se cansa de repetir, reivindicando um direito qualquer. Que pode ser pura e simplesmente o de dar um jeitinho, descobrir um 'macete', arranjar lugar para mais um.

Toda relação começa por ser pessoal, e nos melhores termos de camaradagem. Para conseguir alguma coisa em algum lugar conhece sempre alguém que trabalha lá: procure o Juca no primeiro andar, ou o Nonô, no Gabinete, diga que fui eu que mandei. Até os porteiros, serventes ou ascensoristas têm prestigio e servem de acesso aos figurões. Todo mundo é 'meu chapa', 'velhinho', 'nossa amizade'. Todos se tratam pelo nome de batismo a partir do primeiro encontro. E se tornam amigos de infância a partir do segundo, com tapas nas costas e abraços efusivos em plena rua, para celebrar este extraordinário acontecimento que é o de se terem encontrado.

A maioria dos encontros é casual, e em geral em plena rua — pois ninguém resiste às ruas do Rio: a gente se vê por ai, quando puder eu apareço. Os compromissos de hora marcada são mera formalidade de boa educação, da boca para fora. Mesmo estabelecido, de pedra e cal, há uma sutileza qualquer na conversa, que escapa aos ouvidos incautos do estrangeiro, indicando se são ou não para valer. Na linguagem do carioca, 'pois não' quer dizer 'sim', 'pois sim' quer dizer 'não'; 'com certeza', 'certamente', 'sem dúvida' são afirmações categóricas que em geral significam apenas uma possibilidade.

Encontrando-se ou se desencontrando, como se mexem! As ruas do Rio, mesmo em dias comuns, vivem cheias como em festejos contínuos. Todos andam de um lado para outro, a passeio, sem parecer que estejam indo especialmente a lugar nenhum. As esquinas, as portas dos botequins e casas de comércio, os shopping-centers cada vez mais numerosos, todos os lugares, mesmo de simples passagem, são obstruídos por aglomerações de pessoas a conversar em grande animação.

E como conversam! Falam, gesticulam, cutucam-se mutuamente, contam anedotas, riem, calam-se para ver passar uma bela mulher, dirigem-lhe galanteios amáveis, voltam a conversar. Ninguém parece estar ouvindo ninguém, todos falam ao mesmo tempo, numa seqüência de gargalhadas. Em meio à conversa, um se despede em largos gestos e se atira no ônibus que se detém para ele fora do ponto, a caminho da Zona Sul.

Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon — praias cheias de cariocas, como se todos os dias da semana fossem domingos ou feriados. Espalhados na areia, ou andando no calçadão, se misturam jovens e velhos de calção, mulheres em sumárias roupas de banho, gente bonita ou feia, alta ou baixa, magra ou gorda, na mais surpreendente exibição de naturalidade em relação ao próprio corpo de que é capaz o ser humano.

Do Leblon em diante, convém por hoje não se aventurar: São Conrado, Barra, Jacarepaguá, Floresta da Tijuca — o dia não terá mais fim. Em vez disso, se o visitante, depois de se deslumbrar com a Lagoa Rodrigo de Freitas, dobrar uma esquina do Jardim Botânico, Botafogo ou Flamengo, de repente se verá numa rua sossegada, ladeira acima, com casarões antigos cobertos de azulejos que o atiram aos tempos coloniais. Laranjeiras, Cosme Velho — uma viela tortuosa o conduz a um recôndito Largo do Boticário, de singela beleza arquitetônica, que faz lembrar Florença.

Se o visitante subir esta outra rua, logo se verá cercado de verde por todos os lados, à sombra de frondosas árvores onde cantam passarinhos e esvoaçam borboletas — podendo até mesmo surpreender num galho as macaquices de um sagüi.

E do alto do morro, verá a paisagem abrir-se a seus pés, exibindo lá embaixo a cidade inteira, do Corcovado ao Pão de Açúcar, entre montanhas e o mar. Depois de admirá-la, sentirá vontade de integrar-se a ela, regressar ao bulício das ruas e ao excitante convívio dos cariocas.

A partir deste instante estará correndo sério risco de ficar no Rio para sempre e se tomar carioca também.

In 'Livro aberto', Editora Record – Rio de Janeiro, 2001.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Carlos Drummond de Andrade



Às Mães
Suas Mãos


Aquele doce que ela faz

quem mais saberia fazê-lo?
Tentam. Insistem, caprichando.

Mandam vir o leite mais nobre.
Ovos de qualidade são os mesmos,
manteiga, a mesma,
iguais açúcar e canela.
É tudo igual. As mãos (as mães?)
são diferentes.

Carmo Vasconcelos



Mãe

Tal Rainha Santa que das rosas fez o pão,
Tu tornas, mãe, nesse teu ventre, o amor em filhos!
Nessa alquimia, os vais juntando, quais cadilhos,
À nívea franja do teu grande coração!

Não sendo tu Rainha ou Santa, és abençoada,
Por milagrosamente o teu corpo gerar
O poema excelso, transcendente e milenar,
Parido em sangue e dor na carne lacerada!

Dores atrozes que, extasiada, desmereces
Ao no regaço ter o frágil ser que aqueces
Ao calor ímpar desse instante divinal!

E desligado o ténue fio umbilical,
Só rompe a morte esse amarrado amor materno,
Posto que atado foi no céu plo Pai Eterno!

Maio/2008
© Carmo Vasconcelos
Lisboa - Portugal
In E-Book “Sonetos escolhidos III”

Visite Carmo Vasconcelos clicando aqui.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

José Ernesto Ferraresso e Marise Ribeiro

Convido-os a apreciarem o vídeo-arte feito pelo amigo e poeta José Ernesto Ferraresso, embelezando o meu poema Os Sentidos da Alma, a quem agradeço pelo carinho.

Para ouvirem o som do vídeo, não se esqueçam de acionar a pausa na play list do blog.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Tom Jobim e Frank Sinatra

Sempre que puder trarei pra vocês momentos musicais ou cenas do cinema, do teatro e da TV que são inesquecíveis. Vamos curtir este encontro de dois gênios da música: a voz e o compositor.

Olavo Bilac



Delírio

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
- Mais abaixo, meu bem! - disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...

Clarice Lispector e Aracy Balabanian

Das Vantagens de Ser Bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

12 de Setembro de 1970

Aprecie o vídeo com a interpretação de Aracy Balabanian, mas não se esqueça de dar pausa na play list musical.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Antonieta Elias Manzieri



Sonho Extinto

Frases desconexas, banais,
tempo que passa fortuito.
Sabes, não volto, não mais!
Não há empenho, intuito...

Virou cinza, está acabado,
hoje, nada faz diferença...
Sem presente, ou passado,
é página virada, descrença.

Quanta tristeza, meu amor!
Parecia um sonho dourado,
mas mudou, perdeu a cor...
Nada restou, morreu calado.

Quero esquecer as horas,
embriagar-me com o mar.
Encantar-me com auroras,
em doce enlevo sob o luar.

1 de abril de 2009
©Antonieta Elias Manzieri
São Pedro (SP) - Brasil

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Jessier Quirino



"Jessier Quirino é arquiteto por profissão, poeta por vocação, matuto por convicção. Apareceu na folhinha no ano de 1954 na cidade de Campina Grande, Paraíba e é filho adotivo de Itabaiana também na Paraíba, onde reside desde 1983.

Estudou em Campina Grande até o ginásio, fez o curso científico em Recife e faculdade de Arquitetura em João Pessoa. Apesar da agenda artística literária sempre requisitada, ainda atua na arquitetura. Na área artística, é autodidata como instrumentista (violão) e fez cursos de desenho artístico e desenho arquitetônico. Na área de literatura, não fez nenhum curso e trabalha a prosa, a métrica e a rima como um mero domador de palavras.

Preenchendo uma lacuna deixada pelos grandes menestréis do pensamento popular nordestino, o poeta Jessier Quirino tem chamado a atenção do público e da crítica, principalmente pela presença de palco, por uma memória extraordinária e pelo varejo das histórias, que vão desde a poesia matuta, impregnada de humor, neologismos, sarcasmo, amor e ódio, até causos, cantorias musicais, piadas e textos de nordestinidade apurada.

Dono de um estilo próprio "domador de palavras" - até discutido em sala de aula - de uma verve apurada e de um extremo preciosismo no manejo da métrica e da rima, o poeta, ao contrário dos repentistas que se apresentam em duplas, mostra-se sozinho feito boi de arado e sabe como prender a atenção do distinto público.

Apesar de muitos considerá-lo um humorista, opta pela denominação de poeta, onde procura mostrar o bom humor e a esperteza do matuto sertanejo, sem, no entanto fugir ao lirismo poético e literário."

Fonte: Wikipedia

Conheça a obra de Jessier Quirino visitando-o em seu site ou apreciando os vídeos abaixo. Alguns vídeos valem mais pela parte sonora. Caso queira acompanhar as letras dos poemas é só clicar aqui.

Poesia
Paisagem de Interior
Zé Qualquer e Chica Boa
Agruras da Lata D’água
Vou-me Embora Pro Passado
Parafuso de Cano de Serrote

Humor (textos e causos)
O Candidato
O Matuto No Cinema
Lelé Garrinha e Narração de Casamento

domingo, 11 de abril de 2010

Susan Andrews - Mensagem



O coração tem razões...
Você se lembra daquela tocante história do livro O Pequeno Príncipe? Bom, existe uma história mais tocante ainda que aconteceu de fato com o criador do Pequeno Príncipe, o escritor francês Antoine de St. Exupéry. Poucas pessoas sabem que ele lutou na Guerra Civil Espanhola, quando foi capturado pelo inimigo e levado ao cárcere para ser executado no dia seguinte. Nervoso, ele procurou em sua bolsa um cigarro, e achou um, mas suas mãos estavam tremendo tanto que ele não podia nem mesmo levá-lo à boca. Procurou fósforos, mas não tinha, porque os soldados haviam tirado todos os fósforos de sua bolsa. Ele olhou então para o carcereiro e disse: "Por favor, usted tiene fósforo?". O carcereiro olhou para ele e chegou perto para acender seu cigarro. Naquela fração de segundo, seus olhos se encontraram, e St. Exupéry sorriu.

Depois ele disse que não sabia por que sorriu, mas pode ser que quando se chega perto de outro ser humano seja difícil não sorrir. Naquele instante, uma chama pulou no espaço entre o coração dos dois homens e gerou um sorriso no rosto do carcereiro também. Ele acendeu o cigarro de St. Exupéry e ficou perto, olhando diretamente em seus olhos, e continuou sorrindo. St. Exupéry também continuou sorrindo para ele, vendo-o agora como pessoa, e não como carcereiro.

Parece que o carcereiro também começou a olhar St. Exupéry como pessoa, porque lhe perguntou: "Você tem filhos?". "Sim", St. Exupéry respondeu, e tirou da bolsa fotos de seus filhos. O carcereiro mostrou fotos de seus filhos também, e contou todos os seus planos e esperanças para o futuro deles. Os olhos de St. Exupéry se encheram de lágrimas quando disse que não tinha mais planos, porque ele jamais os veria de novo. Os olhos do carcereiro se encheram de lágrimas também. E de repente, sem nenhuma palavra, ele abriu a cela e guiou St. Exupéry para fora do cárcere, através das sinuosas ruas, para fora da cidade, e o libertou. Sem nenhuma palavra, o carcereiro deu meia-volta e retornou por onde veio. St. Exupéry disse: "Minha vida foi salva por um sorriso do coração".

Trecho extraído da coluna Sua Vida, de Susan Andrews, publicado na Revista Época. Caso queira ler a matéria completa sobre os benefícios de se sorrir com o coração, é só clicar aqui.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Marilda Conceição



Poeta de Alma e Coração

Não sou máquina de fazer poesias,
nem sou poeta de profissão.
Não escrevo a toda hora
nem todo dia,
poetizo quando surge a inspiração.

Não uso técnica,
nem sigo métrica.
Escrevo por intuição.
Tenho o dom de expressar sentimentos,
que brotam do meu coração.

Não sou poeta literário.
Transbordo sensibilidade e emoção.
Traço os sonhos mais diversos,
vou além do imaginário.
Choro e sorrio em versos
Sou poeta de alma e coração.

© Marilda Ternura
Rio de Janeiro (RJ) – Brasil

Conheça mais poemas de Marilda visitando-a em Marilda Ternura Home Page

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Eliana Ellinger



Tímido Vôo

Dos meus sonhos fui a musa
Meus desejos, meus anseios,
perdidos confusos esteios,
sozinha na multidão.
Uma flor viçosa efêmera
sorvendo com avidez teu orvalho,
de esperança desvairada,
alegria antecipada,
sem saber se na verdade
tu me querias ou não.
Como pássaro cativo
procurando uma saída,
na gaiola construída
com pedaços de ilusão.
Incentivada pela brisa
de tuas inebriantes palavras,
das promessas de teus gestos,
do teu venenoso olhar,
ousei ignorar as grades, alçar vôo...
Que loucura!
Um só tiro bem certeiro,
de uma frase sem mira,
pois desviaste o olhar,
atingiu meu peito em cheio,
matando-me os sonhos, os veios,
tirando dos versos as rimas,
escurecendo o luar.

© Eliana Ellinger

Hazorea - Israel
(In Pedaços de Mim)

domingo, 21 de março de 2010

Dia Internacional da Poesia



Versos

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...

Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...

Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar,
Um verso é o teu sorriso e os de Dante
Eram o teu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês...

(Florbela Espanca in "A Mensageira das Violetas")

A minha homenagem aos amantes da Poesia.