quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Feliz Ano-Novo!



Feliz Ano-Novo

Quero um Ano-Novo em que todas as crianças, ao ligarem a tevê, recebam um banho de Mozart, Pixinguinha e Noel Rosa; aprendam a diferença entre impressionistas e expressionistas; vejam espetáculos que reconstituem a Balaiada, a Confederação do Equador e a Guerra dos Emboabas; e durmam após fazer suas orações.
Desejo um Ano-Novo em que, no campo, todos tenham seu pedaço de terra, onde vicejem laranjas e alfaces e voejem bem-te-vis entre vacas leiteiras. Na cidade, um teto sob o qual reluz o fogão de panelas cheias, a sala atapetada por remendos coloridos, a foto colorida do casal exposta em moldura oval sobre o sofá.
Espero um Ano-Novo em que as igrejas abram portas ao silêncio do coração, o órgão sussurre o cantar dos anjos, a Bíblia seja repartida como pão. A fé, de mãos dadas com a justiça, faça com que o céu deixe de concentrar o olhar daqueles aos quais é negada a felicidade nesta terra.
Um Feliz Ano-Novo com casais ociosos na arte de amar, o lar recendendo a perfume, os filhos contemplando o rosto apaixonado dos pais, a família tão entretida no diálogo que nem se dá conta de que o televisor é um aparelho mudo e cego num canto da sala.
Desejo um Ano-Novo em que os sonhos libertários sejam tão fortes que os jovens, com o coração a pulsar ideais, não recorram à química das drogas, não temam o futuro nem se expressem em dialetos ininteligíveis. Sejam, todos eles, viciados em utopia.
Espero um Ano-Novo em que cada um de nós evite alfinetar rancores nas dobras do coração e lave as paredes da memória de iras e mágoas; não aposte corrida com o tempo nem marque a velocidade da vida pelos batimentos cardíacos.
Um Ano-Novo para saborear a brevidade da existência como se ela fosse perene, em companhia de ourives de encantos, cujos hábeis dedos incrustam na rotina dos dias jóias ternas e eternas.
Quero um Ano-Novo em que a cada um seja assegurado o direito do emprego, a honra do salário digno, as condições humanas de trabalho, as potencialidades da profissão e a alegria da vocação. Um novo ano capaz de saciar a nossa fome de pão e de beleza.
Rogo por um Ano-Novo em que a polícia seja conhecida pelas vidas que protege e não pelos assassinatos que comete; os presos reeducados para a vida social; e que os pobres logrem repor nos olhos da Justiça a tarja da cegueira que lhe imprime isenção.
Um Ano-Novo sem políticos mentirosos, autoridades arrogantes, funcionários corruptos, bajuladores de toda espécie. Livre de arroubos infantis, seja a política a multiplicação dos pães sem milagres, dever de uns e direito de todos.
Espero um Ano-Novo em que as cidades voltem a ter praças arborizadas; as praças, bancos acolhedores; os bancos, cidadãos entregues ao sadio ócio de contemplar a natureza, ouvir no silêncio a voz de Deus e festejar com os amigos as minudências da vida - um leque de memórias, um jogo de cartas, o riso aberto por aquele que se destaca como o melhor contador de piadas.
Desejo um Ano-Novo em que o líder dos direitos humanos não humilhe a mulher em casa; a professora de cidadania não atire papel no chão; as crianças cedam o lugar aos mais velhos; e a distância entre o público e o privado seja encurtada pela ponte da coerência.
Quero um Ano-Novo de livros saboreados como pipoca, o corpo menos entupido de gorduras, a mente livre do estresse, o espírito matriculado num corpo de baile, ao som dos mistérios mais profundos.
Desejo um Ano-Novo em que o governo coloque o país nos eixos, livre a população do pesado tributo da degradação social, e tome no colo milhões de crianças precocemente condenadas ao trabalho, sem outra fantasia senão o medo da morte.
Espero um Ano-Novo cujo principal evento seja a inauguração do Salão da Pessoa, onde se apresentem alternativas para que nunca mais um ser humano se sinta ameaçado pela miséria ou privado de pão, paz e prazer.
Um Ano-Novo em que a competitividade ceda lugar à solidariedade; a acumulação à partilha; a ambição à meditação; a agressão ao respeito; a idolatria ao dinheiro ao espírito das Bem-Aventuranças.
Aspiro a um Ano-Novo de pássaros orquestrados pela aurora, rios desnudados pela transparência das águas, pulmões exultantes de ar puro e mesa farta de alimentos despoluídos.
Rogo por um Ano-Novo que jamais fique velho, assim como os carvalhos que nos dão sombra, a filosofia dos gregos, a luz do Sol, a sabedoria de Jó, o esplendor das montanhas de Minas, a música gregoriana.
Um ano tão novo que traga a impressão de que tudo renasce: o dia, a exuberância do mar, a esperança e nossa capacidade de amar. Exceto o que no passado nos fez menos belos e bons.

Frei Betto

Estes são também os meus desejos para 2012. Agradeço a todos os amigos pela caminhada a meu lado, pelo apoio, pela tolerância com as poucas postagens neste espaço e pelos abraços que me envolveram. Que possamos permanecer irmanados pela paz, pelo amor e pela amizade, cultuando a ética, a dignidade e a solidariedade. Espero que o Scenarium continue a embelezar a minha alma de arte, para que eu possa dividir com vocês estes momentos de beleza e cultura. Feliz 2012!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Mensagem de Natal



Antes de acionar o vídeo, não se esqueça de dar pausa na play list musical do blog.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Il Volo



Em maio de 2009, três adolescentes, Piero Barone, Ignazio Boschetto e Gianluca Ginoble, apareceram no show de talentos "Ti Lascio Una Canzone" e deslumbraram os espectadores com a interpretação impecável de "O Sole Mio". Os meninos, que ganharam a competição com facilidade, foram batizados de "Il Volo", significando assim que esses três jovens tenores estavam prestes a abrir as asas e voar.

Não demorou muito e Michele Torpedine (que já cuidou da carreira de Andrea Bocelli e Zucchero, estrela italiana de rock) e o mundialmente conhecido cantor/produtor Tony Renis, conseguiram um contrato de gravação para o trio com a Universal Music Group, que lançou o álbum IL VOLO, na Itália, em novembro de 2010. O álbum já está na categoria ouro, indo para o status de platina em seu país de origem e teve um lançamento mundial em 2011. Além disso, eles se tornaram os primeiros artistas italianos a assinarem com a Geffen Records nos Estados Unidos, onde o álbum também foi lançado em 2011.

Piero, Ignazio, e Gianluca gravaram Il Volo, em Los Angeles e Roma, bem como no famoso estúdio de Londres, o Abbey Road. O álbum é uma vitrine para o talento estelar destes três jovens cantores.

O lançamento de IL VOLO é apenas o começo do que é certo ser uma aventura emocionante para Gianluca (que vem de Abruzzo), Ignazio (nascido em Bolonha), Piero (que é de Agrigento, na Sicília). Em fevereiro de 2010, o lendário produtor Quincy Jones convidou os meninos para representarem a Itália cantando no single de caridade "We Are The World: 25 para o Haiti", onde eles impressionaram as super-estrelas Celine Dion, Barbra Streisand, e Josh Groban, durante a sessão de gravação. Poucos dias depois, o grupo retornou à Itália para se apresentar no festival anual de música Sanremo 60.

Eles podem ser jovens, mas a missão de IL VOLO é clara: "Queremos compartilhar nosso amor pela música com pessoas de todo o mundo, incluindo jovens da nossa própria idade, o que seria pra nós um sonho”

Deixo para os amigos do Scenarium alguns momentos com os maravilhosos meninos. É só clicarem nos títulos abaixo:






sábado, 3 de dezembro de 2011

Manuel Bandeira



Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Jorge de Lima



Mulher proletária

Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Meio-Dia em Paris



Viajar para o continente europeu é almejar se encantar com a beleza artística que vem a reboque da História. Beleza contada num detalhe do entalhe que ornamenta uma igreja, um museu, um castelo ou as mais antigas moradias de uma cidade. É desvendar diferenças nos estilos e identificar o movimento cultural em que eles se enquadram. Ver-se como uma inspiração do pintor, do escultor, de um poeta ou de um escritor. Para mim, a Europa é o lugar onde me desapego da modernidade, esqueço obrigações e renasço num passado que em outra encarnação sinto que já pisei. E, se na Europa, independente do país ou da cidade, eu me sinto assim, quem me conhece sabe que em Paris, então, eu estou em casa.

Não, não pensem que é esnobismo! Eu digo que estou em casa, porque tenho a impressão que vivi ali em outras eras. Reservo sempre para o final das minhas viagens à Europa uma estada em Paris. É a cereja do bolo que saboreio, deixando no meu percurso o desejo de um breve retorno àquela encantadora cidade.

Mas Paris mudou. Ou será que fui eu que mudei?... Fiquei um tempo sem visitar a minha segunda cidade em preferência – o Rio de Janeiro é a primeiríssima - e já não a reconheci mais.

Paris estava transbordando de gente num mês em que a cidade não costuma lotar. Sabe-se que é a cidade mais visitada do mundo, mas a impressão que eu tinha era a de que todos resolveram ir pra lá, na mesma época. Uma verdadeira babel de idiomas!

Se encontrar uma cidade cheia incomoda, imagine ainda você se deparar com uma cidade amedrontada? E Paris está assim. Sofrendo com a imigração ilegal, aliada à crise que está assolando o continente europeu, a cidade viu aumentar a incidência de golpes em pessoas incautas. Não se vê mais o glamour que recendia da capital francesa. A realidade crua fica estampada na fisionomia desconfiada dos parisienses, quando interceptados para se pedir uma singela informação. Lá, não é comum violências com armas, mas apenas furtos, e para os residentes e, principalmente, para os turistas, fica aquele gosto amargo de que a qualquer momento você pode se tornar uma vítima.

É claro que estes não são motivos para que eu deixe de amar a cidade luz, entretanto, senti necessidade de fazer como Gil, o personagem vivido por Owen Wilson, no filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen. Já que à noite todos os gatos são pardos, ao meio-dia me vi postada nas escadarias da Igreja Saint-Étienne-Du-Mont, esperando a passagem do mesmo carro antigo, que me transportaria de volta àquela Paris que me conquistou.

Amigos, estou retomando as postagens do blog e aproveito para agradecer àqueles que se tornaram seguidores, durante o período de minhas férias.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Até breve!

Amigos, estou saindo de férias e aproveito para me desculpar pelas poucas postagens neste blog. Em novembro, se Deus quiser, estarei de volta e espero ter mais tempo para oferecer novidades a todos vocês.

Abraços e até lá!

Marise Ribeiro

domingo, 11 de setembro de 2011

Rivkah Cohen



Nada doerá mais!

Conheço esse olhar parado, sereno
como quem aguardou setembro
e ele não chegou..
Sei que vieram as estações do tempo,
mas nada do que fizeram,
lhe trouxe alento ou amenizou.

Enfrentei tempestades,
amarguei fortes ventos,
mas nada doerá mais que ter a vontade
de ser setembro
e não sou..

© rivkahcohen
Brasília (DF) - Brasil

Visite a sensibilidade de Rivkah Cohen clicando aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ju Rigoni



Do Espanto

Saí de casa sem sair...
Não me vesti com esmero;
não pintei os lábios;
não levei bolsa,
documentos, dinheiro...

Fui-me,...
em uma ou duas piscadas,
levada pelos sentimentos
que embaralham palavras...

Conversei-me,
desconversei-me,
e, como sempre,
não me entendi...
Ai, que merecia uns tapas!...

(Se do lado de fora
alguém passasse e me visse
em meio a tamanha pendenga
me acreditaria uma louca
a falar com janelas e portas...)

Voltei...
e, finalmente, resolvi sair, -
vestindo o melhor vestido,
usando o batom mais vermelho,
calçando sapatos bonitos,
de saltos altos infinitos...

Nem bolsa, nem documentos,
nem dinheiro.
Mãos... nuas;
coração sobrecarregado,
sem piscar, alcancei a rua.

Na esquina
dei de cara com a sina
de quem sai de casa
levando apenas sonhos
e palavras...

© ju rigoni (2002)
Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

Convido os amigos a conhecerem os espaços onde Ju Rigoni derrama sonhos e palavras:

Dormentes
http://dormentes.blogspot.com/

Fundo de Mim
http://jurigoni.blogspot.com/

Medo de Avião
http://medodeaviao.blogspot.com/

Navegando...
http://planetazora.blogspot.com/

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sonia Pallone



O Gosto do Beijo

“...Quem sabe o gosto de um beijo desesperado?
Não aquele da cama,
na hora em que a loucura do prazer deixa marcas...
Nem aquele, que apesar de louco,
sabe que vai ter tempo pra continuar
e dar mais um e mais outro...
Eu falo daquele beijo,
que o desejo faz queimar antes de sentir...
Que você antevê com os olhos antes de alcançar a boca...
Daquele que você sabe que não vai poder dar
porque aquela boca é sua,
mas o tempo daquele beijo não é...
Daquele beijo que a letra da música canta
e você fecha os olhos, oferece e sente...
Falo daquele beijo
que o desejo faz querer mais que temer o medo...
Do beijo que arrebatou o único momento possível
e na eternidade desse instante a sós,
implode com raiva, com fúria,
salgado de lágrimas,
amargo de sofreguidão, doce de paixão...
Um beijo desesperado sim,
porque nasceu da vontade do impossível
e deixou para sempre a boca molhada
e ávido o coração..."

Sonia Pallone

http://www.solidaodealma2.blogspot.com/

sábado, 27 de agosto de 2011

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Antonio Villeroy



Heroína E Vilã

Letra e Música: Antonio Villeroy

Estenda no chão
O tapete que eu quero passar
Esqueça a razão
Deixe tudo pra me adorar

Ponha em minha mão
Uma pedra bonita
Eu lhe segredo mentiras
Você acredita

Não ouça não
O que andam falando de mim
Por puro ciúme, despeito
Inveja ou coisas assim

Perca a noção
Do perigo que espreita
Eu faço a cama na lama
E você se deita

Você vai me seguir
Sou sua heroína e vilã
Viva comigo essa noite
E esqueça o amanhã

Não diga não
Aos caprichos de uma mulher
Preste atenção
Se você realmente me quer

Em compensação
Vou mudar sua vida
Mas se você não quiser
Já estou de saída

Você vai me seguir
Sou sua heroína e vilã
Viva comigo essa noite
E esqueça o amanhã

Escolhi esta bela canção de Antonio Villeroy como um efetivo exemplo do poder da metáfora num texto poético. Não se deixe influenciar por esta bela mulher, diga não às drogas!

Aprecie a interpretação de Ana Carolina, clicando aqui.

domingo, 26 de junho de 2011

Anna Müller



Término

Todas as flores morreram;
a terra já não é fértil,
as águas já não são límpidas,
já não se ouve o gorjeio dos pássaros.
O sol já perdeu seu calor,
deu-se adeus ao arco-íris!
As folhas amareladas
caem sufocantes pelo chão;
nem mais as lágrimas orvalhadas
escorrem nas manhãs de primavera.
Já não há primaveras,
esgotaram-se os verões,
foi o último outono
que trouxe o inverno eterno.
O vento já não faz brisa;
roça gélido na pele,
pintando de branco
o sangue impuro dos mortais.
A vida já não tem mais
a mesma alegria da infância;
ela açoita os últimos momentos
e sangra silenciosa
o grito de desespero...
Não há mais esperança.
O gelo sobre a pedra
começa a marcar o fim
de um tempo que não
é possível retroceder.
Os montes verdejantes agora são
cascalhos duros e sem vida.
Tudo em volta está se acabando;
o mar, antes bravejante,
agora é manso e silencioso,
negro como as profundezas.
Os rios perderam suas forças,
apenas correm para morrer no mar,
misturam-se...E morrem.
Nada tem mais sentido;
nada mais tem valor.
A chuva queima feito ácido,
todas as cores em branco e preto.
Como um quadro queimado
a vida acaba em cinzas.
Um sopro...
me torno inexistente.

© Anna Müller
Roraima (RR) - Brasil
RR, 23/06/2011

Para ouvir este poema interpretado pela autora, clique aqui, mas antes disso não se esqueça de dar pausa na playlist musical do blog.


Não deixe de visitar a sensibilidade de Anna Müller no Canto da Poesia.

domingo, 19 de junho de 2011

Elane Tomich



Lá...

Lá é tão longe do mundo,
onde acaba o arrepio,
a quina do meio-fio,
espírito do olhar mais fundo.

onde no abismo caio,
o final do latifúndio
em tanto chão de saudade.

Primeira gota do rio,
o medo do poço fundo
de onde o vento é oriundo,
meia-volta de desvios.

muito além da saciedade
vontade em eterno gerúndio
onde, de amor, desmaio.

© Elane Tomich
Teófilo Otoni (MG) – Brasil

Conheça mais poemas da autora no Recanto das Letras.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Patativa do Assaré



Aposentadoria de Mané do Riachão

Seu moço, fique ciente
De tudo que eu vou contar,
Sou um pobre penitente
Nasci no dia do azá,
Por capricho eu vim ao mundo
Perto de um riacho fundo
No mais feio grutião
E como ali fui nascido,
Fiquei sendo conhecido
Por Mané do Riachão.

Passei a vida penando
No mais crué padecê,
Como tratô trabaiando
Pru filizardo comê,
A minha sorte é trucida
Pá miorar minha vida
Já Rezei e fiz premessa
Mas isso tudo é tolice,
Uma cigana me disse
Que eu nasci foi de trevessa.

Sofrendo grande cancêra
Virei bola de biá
Trabaiano na carrêra
Daqui pra ali pra culá
Fui um eterno criado
Sempre fazendo mandado
Ajudando aos home rico,
Eu andei de grau em grau
Taliquá o pica-pau
Caçando broca em angico.

Sempre entrano pelo cano
E sem podê trabaiá,
Com sessenta e sete ano
Percurei me aposentar,
Fui batê lá no iscritoro
Depois eu fui no cartoro
Porém de nada valeu,
Veja o que foi , cidadão,
Que aquele tabelião
Achou de falar prá eu.

Me disse aquele escrivão
Frangino o côro da testa:
- Seu Mané do Riachão
Esses seus papé não presta,
Isto aqui não vale nada,
Quem fez esta papelada
Era um cara vagabundo,
Prá fazê seu apusento
Tem que trazê decumento
Lá do começo do mundo.

E me disse que só dava
Prá fazê meu aposento
Com coisa que eu só achava
No antigo Testamento,
Eu que tava prazentêro
Mode recebê o dinhêro
Me disse aquele iscrivão
Que precisava do nome
E tombém do subrenome
De Eva e seu marido Adão.

E além da Identidade
De Eva e seu marido Adão
Nome da niversidade
Onde estudou Salomão
E outras coisa custosa,
Bem custosa e cabulosa
Que neste mundo revela
A escritura sagrada
Quatro dedo da quêxada
Que Sanção brigou com ela.

Com a manobra e mais manobra
Prá puder me aposentar,
Levá o nome da cobra
Que mandou Eva pecar
E além de tanto fuxico,
O registro e currico
De Nabucodonosô,
Dizê onde ele morreu,
Onde foi que ele nasceu
E aonde se batizô.

Veja moço, que novela,
Veja que grande caipora
A pior de todas elas
O senhô vai vê agora,
Pra que eu me aposentasse,
Disse que tombém levasse
Terra de cada cratera
Dos vulcão dos istrangero
E o nome do vaquêro
Que amançou a besta fera.

Escutei achando ruim
Com a paciência fraca
E ele olhando prá mim
Com os olhos de jaraca
Disse a coisa aqui é braba
Precisa que você saba
Que sou iscrivão
Ou estas coisa apresenta
Ou você não se aposenta
Seu Mané do Riachão

Veja moço, o grande horrô
Sei que vou morrer depressa
Bem que a cigana falou
Que eu nasci foi de trevessa
Cheio de necessidade
Vou viver da caridade
Uma esmola cidadão
Lhe peço no santo nome
Não deixe morre de fome
O Mané do Riachão

Antonio Gonçalves da Silva
© Patativa do Assaré
Ceará (CE) – Brasil

Para vocês apreciarem um pouco mais a poesia de Patativa do Assaré ou saberem mais sobre a vida e a obra do poeta, visitem os itens abaixo:

- trailer do filme “Patativa do Assaré – Ave Poesia”, de Rosemberg Cariry

- vídeo sobre a trajetória do poeta, feito por Giselle Franca Bernard

- Vaca Estrela e Boi Fubá – de Fagner e Patativa do Assaré

- Sina - de Fagner, Ricardo Bezerra e Patativa do Assaré

sábado, 11 de junho de 2011

Antonieta Elias Manzieri




Sem Vaidades...

Quando chegar a hora da partida,
não levarei bagagem.
Será longa a caminhada.
Para que carregar mais peso?

Não precisarei de mais nada!
Tudo quanto eu possa levar
não será de utilidade,
seriam apenas vaidades
que não terei onde usar.

Nada de material ou supérfluo,
tudo ficará para trás...
Levarei, sim, outros valores,
que não farão nenhum peso,
mas irão acrescentar!

Seguirei tão leve...

Levarei o carinho de quem me amou,
que também amei e sempre amarei!
Levarei a ternura dos amigos queridos
e também muitas saudades...

Comigo irá a certeza que terei deixado
para quem fica o meu maior legado:
minha grande amizade
e o meu amor a eles dedicado.

Deixarei meus versos
para que se lembrem de mim,
quando um dia eu me chamar...
"Saudade”.

(Protegido pela lei dos direitos autorais n° 9610/98).

©Antonieta Elias Manzieri
São Paulo (SP) – Brasil

Você não só se chamará “saudade”, mas também “poesia”.
Esta postagem é uma singela homenagem à querida Anny, que nos deixou nesta data, mas estará sempre presente através de suas letras poéticas.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Lisete Johnson



¿Dónde andan los quijotes?

Mi tierra no es La Mancha
y ni tampoco, Toboso.
Es un país verde amarillo,
muy lejos de los castillos,
muy cerca de los tramposos.

Quisiera que fuese ardiente,
con valles ensolarados,
con Quijotes muy valientes
y con Sanchos muy gallardos.

Que soñar fuese posible,
que no hubiese el hambre
y el monstruo más terrible
fuese molinos de viento,
girando veloz contra el tiempo
sin dejar herida alguna.

Quisiera que los caminos
de todos nobles Quijotes,
caballeros sin destinos,
llevasen a una aldea
donde hubiese Dulcineas
con generosos escotes.

Quisiera que las doncellas
si encantasen por hidalgos
sin plata, pero garbosos
de honor y de buenas ganas
de cambiar el mundo en rosas
mismo que con mente insana.

Que en esta tierra amada,
con falta de Don Quijotes,
venciendo todos peligros,
trayendo consigo el mote;
"Hombre de Triste Figura",
en vez de palabras duras
Sólo hazañas valerosas.

Quisiera que, como él,
hubiese aquí caballeros
enderezando los tuertos,
y deshaciendo agravios,
y repartiendo repuestos
con todos sus compañeros.

Que in my país, cuyo mar,
sólo trae pescados buenos,
llenase los platos del pobre,
que sólo mastica su hambre
y llena de viento su panza
sin perder la esperanza
de tener pez e fiambres.

Que fuese apenas locura
la mirada de los niños,
que viven bajo los puentes,
luchando sin armaduras
y sin ningún Rocinante.

Que hubiese mesa y mantel
con mucho pan y esperanza
pues el dolor más cruel,
ya decía Sancho Panza,
con panes son más pequeñas.

Que los rocinantes de aquí
ganasen pan y cariño
para si aguantar en el trote
de las trillas con espinos
por donde todos Quijotes
buscan siempre sus caminos.

Que en mi país solamente
el seso se perdiese así;
enanos contra gigantes,
escuderos sin su amos
y todos los Rocinantes
cabalgando las estrellas.

Poesia vencedora no concurso promovido pelo Colégio Cervantes e pela Embaixada da Espanha, em 2005, por ocasião da comemoração aos 400 anos do lançamento da obra “Dom Quixote de La Mancha”

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Tim Noble e Sue Webster

Tim Noble e Sue Webster são artistas ingleses, que criam esculturas de sombras. Diversos materiais são utilizados para compor as esculturas: lixo doméstico, sucatas, animais empalhados, etc. Com fontes de luz, dispostas de forma estratégica, as esculturas de sombras são de um realismo impressionante. Apreciem!



































sábado, 21 de maio de 2011

5º Aniversário do Cenário de Sentimentos



O Cenário de Sentimentos está fazendo 5 anos de existência e lá eu guardo meus sentimentos e minhas emoções em forma de poesia, por isso, convido a todos para uma visita, o que me deixará muito feliz.


Para quem quiser entrar pela página principal, é só clicar na imagem. Para quem quiser conhecer apenas os poemas da atualização de aniversário, é só clicar nos links abaixo.

Entreatos

Remanso

Um Olhar Amadurecido

Anistia

Para deixar sua opinião, o que é muito importante pra mim, acesse o link abaixo:

Livro de Visitas

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Silvia Nobre Wajãpi







Convido-os a assistirem, no vídeo acima, a entrevista da primeira mulher indígena a integrar nossas Forças Armadas.
Silvia Wajãpi tem uma história de vida emocionante; seu patriotismo e sua determinação demonstram a garra da mulher genuinamente brasileira. Sua luta aguçou ainda mais sua sensibilidade, levando-a também ao mundo das letras.


Quero apenas um amor

Quero apenas um amor que vasculhe meu corpo e devore a minha carne com a mesma velocidade que pulsa o sangue em minhas veias.
Quero apenas um amor capaz de possuir até minha alma, jogar-me sobre um leito, debruçar-se em meu peito e ouvir as batidas do meu coração.
E meu corpo será dele, minha alma será dele, meu corpo tremerá por ele porque terei a certeza que não mais quererei outro.
E embora noites sejam apenas noites, quero descobrir todos os mistérios e sentir a força do suspiro e do olhar que me arrebata.
E embora noites sejam apenas noites, quero lambuzar-me no néctar da paixão, embriagar-me com ele e entregar-me louca em suas mãos.
E embora noites sejam apenas noites, quero sentir este corpo no meu... E sentir, sentir e sentir... Até que não nos reste mais forças para continuar amando...
Quero apenas um amor...
O amor que é teu!


Mulheres da Floresta

Mulheres cujos olhos brilhavam como estrelas, seduziam a noite escura para conhecerem os mistérios da floresta... Varriam a noite ao doce som de suas gargalhadas inocentes de menina. Mas no seu peito irradiavam o calor e o desejo de amor e em seu ventre eram capazes de escravizar a alma de qualquer mortal. Essas Mulheres da Floresta amavam enlouquecidas! E não se vestindo de nada, eram repletas de tudo...
E era assim que as Mulheres da Floresta escravizavam a alma de seu homem... E nesta União Sagrada ardiam em desejos, devoravam-se como animais ferozes e queimavam como um fogo que nunca se apaga... (do Livro: Olhos da Amazônia - Silvia Nobre)