domingo, 19 de junho de 2011

Elane Tomich



Lá...

Lá é tão longe do mundo,
onde acaba o arrepio,
a quina do meio-fio,
espírito do olhar mais fundo.

onde no abismo caio,
o final do latifúndio
em tanto chão de saudade.

Primeira gota do rio,
o medo do poço fundo
de onde o vento é oriundo,
meia-volta de desvios.

muito além da saciedade
vontade em eterno gerúndio
onde, de amor, desmaio.

© Elane Tomich
Teófilo Otoni (MG) – Brasil

Conheça mais poemas da autora no Recanto das Letras.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Patativa do Assaré



Aposentadoria de Mané do Riachão

Seu moço, fique ciente
De tudo que eu vou contar,
Sou um pobre penitente
Nasci no dia do azá,
Por capricho eu vim ao mundo
Perto de um riacho fundo
No mais feio grutião
E como ali fui nascido,
Fiquei sendo conhecido
Por Mané do Riachão.

Passei a vida penando
No mais crué padecê,
Como tratô trabaiando
Pru filizardo comê,
A minha sorte é trucida
Pá miorar minha vida
Já Rezei e fiz premessa
Mas isso tudo é tolice,
Uma cigana me disse
Que eu nasci foi de trevessa.

Sofrendo grande cancêra
Virei bola de biá
Trabaiano na carrêra
Daqui pra ali pra culá
Fui um eterno criado
Sempre fazendo mandado
Ajudando aos home rico,
Eu andei de grau em grau
Taliquá o pica-pau
Caçando broca em angico.

Sempre entrano pelo cano
E sem podê trabaiá,
Com sessenta e sete ano
Percurei me aposentar,
Fui batê lá no iscritoro
Depois eu fui no cartoro
Porém de nada valeu,
Veja o que foi , cidadão,
Que aquele tabelião
Achou de falar prá eu.

Me disse aquele escrivão
Frangino o côro da testa:
- Seu Mané do Riachão
Esses seus papé não presta,
Isto aqui não vale nada,
Quem fez esta papelada
Era um cara vagabundo,
Prá fazê seu apusento
Tem que trazê decumento
Lá do começo do mundo.

E me disse que só dava
Prá fazê meu aposento
Com coisa que eu só achava
No antigo Testamento,
Eu que tava prazentêro
Mode recebê o dinhêro
Me disse aquele iscrivão
Que precisava do nome
E tombém do subrenome
De Eva e seu marido Adão.

E além da Identidade
De Eva e seu marido Adão
Nome da niversidade
Onde estudou Salomão
E outras coisa custosa,
Bem custosa e cabulosa
Que neste mundo revela
A escritura sagrada
Quatro dedo da quêxada
Que Sanção brigou com ela.

Com a manobra e mais manobra
Prá puder me aposentar,
Levá o nome da cobra
Que mandou Eva pecar
E além de tanto fuxico,
O registro e currico
De Nabucodonosô,
Dizê onde ele morreu,
Onde foi que ele nasceu
E aonde se batizô.

Veja moço, que novela,
Veja que grande caipora
A pior de todas elas
O senhô vai vê agora,
Pra que eu me aposentasse,
Disse que tombém levasse
Terra de cada cratera
Dos vulcão dos istrangero
E o nome do vaquêro
Que amançou a besta fera.

Escutei achando ruim
Com a paciência fraca
E ele olhando prá mim
Com os olhos de jaraca
Disse a coisa aqui é braba
Precisa que você saba
Que sou iscrivão
Ou estas coisa apresenta
Ou você não se aposenta
Seu Mané do Riachão

Veja moço, o grande horrô
Sei que vou morrer depressa
Bem que a cigana falou
Que eu nasci foi de trevessa
Cheio de necessidade
Vou viver da caridade
Uma esmola cidadão
Lhe peço no santo nome
Não deixe morre de fome
O Mané do Riachão

Antonio Gonçalves da Silva
© Patativa do Assaré
Ceará (CE) – Brasil

Para vocês apreciarem um pouco mais a poesia de Patativa do Assaré ou saberem mais sobre a vida e a obra do poeta, visitem os itens abaixo:

- trailer do filme “Patativa do Assaré – Ave Poesia”, de Rosemberg Cariry

- vídeo sobre a trajetória do poeta, feito por Giselle Franca Bernard

- Vaca Estrela e Boi Fubá – de Fagner e Patativa do Assaré

- Sina - de Fagner, Ricardo Bezerra e Patativa do Assaré

sábado, 11 de junho de 2011

Antonieta Elias Manzieri




Sem Vaidades...

Quando chegar a hora da partida,
não levarei bagagem.
Será longa a caminhada.
Para que carregar mais peso?

Não precisarei de mais nada!
Tudo quanto eu possa levar
não será de utilidade,
seriam apenas vaidades
que não terei onde usar.

Nada de material ou supérfluo,
tudo ficará para trás...
Levarei, sim, outros valores,
que não farão nenhum peso,
mas irão acrescentar!

Seguirei tão leve...

Levarei o carinho de quem me amou,
que também amei e sempre amarei!
Levarei a ternura dos amigos queridos
e também muitas saudades...

Comigo irá a certeza que terei deixado
para quem fica o meu maior legado:
minha grande amizade
e o meu amor a eles dedicado.

Deixarei meus versos
para que se lembrem de mim,
quando um dia eu me chamar...
"Saudade”.

(Protegido pela lei dos direitos autorais n° 9610/98).

©Antonieta Elias Manzieri
São Paulo (SP) – Brasil

Você não só se chamará “saudade”, mas também “poesia”.
Esta postagem é uma singela homenagem à querida Anny, que nos deixou nesta data, mas estará sempre presente através de suas letras poéticas.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Lisete Johnson



¿Dónde andan los quijotes?

Mi tierra no es La Mancha
y ni tampoco, Toboso.
Es un país verde amarillo,
muy lejos de los castillos,
muy cerca de los tramposos.

Quisiera que fuese ardiente,
con valles ensolarados,
con Quijotes muy valientes
y con Sanchos muy gallardos.

Que soñar fuese posible,
que no hubiese el hambre
y el monstruo más terrible
fuese molinos de viento,
girando veloz contra el tiempo
sin dejar herida alguna.

Quisiera que los caminos
de todos nobles Quijotes,
caballeros sin destinos,
llevasen a una aldea
donde hubiese Dulcineas
con generosos escotes.

Quisiera que las doncellas
si encantasen por hidalgos
sin plata, pero garbosos
de honor y de buenas ganas
de cambiar el mundo en rosas
mismo que con mente insana.

Que en esta tierra amada,
con falta de Don Quijotes,
venciendo todos peligros,
trayendo consigo el mote;
"Hombre de Triste Figura",
en vez de palabras duras
Sólo hazañas valerosas.

Quisiera que, como él,
hubiese aquí caballeros
enderezando los tuertos,
y deshaciendo agravios,
y repartiendo repuestos
con todos sus compañeros.

Que in my país, cuyo mar,
sólo trae pescados buenos,
llenase los platos del pobre,
que sólo mastica su hambre
y llena de viento su panza
sin perder la esperanza
de tener pez e fiambres.

Que fuese apenas locura
la mirada de los niños,
que viven bajo los puentes,
luchando sin armaduras
y sin ningún Rocinante.

Que hubiese mesa y mantel
con mucho pan y esperanza
pues el dolor más cruel,
ya decía Sancho Panza,
con panes son más pequeñas.

Que los rocinantes de aquí
ganasen pan y cariño
para si aguantar en el trote
de las trillas con espinos
por donde todos Quijotes
buscan siempre sus caminos.

Que en mi país solamente
el seso se perdiese así;
enanos contra gigantes,
escuderos sin su amos
y todos los Rocinantes
cabalgando las estrellas.

Poesia vencedora no concurso promovido pelo Colégio Cervantes e pela Embaixada da Espanha, em 2005, por ocasião da comemoração aos 400 anos do lançamento da obra “Dom Quixote de La Mancha”

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Tim Noble e Sue Webster

Tim Noble e Sue Webster são artistas ingleses, que criam esculturas de sombras. Diversos materiais são utilizados para compor as esculturas: lixo doméstico, sucatas, animais empalhados, etc. Com fontes de luz, dispostas de forma estratégica, as esculturas de sombras são de um realismo impressionante. Apreciem!



































sábado, 21 de maio de 2011

5º Aniversário do Cenário de Sentimentos



O Cenário de Sentimentos está fazendo 5 anos de existência e lá eu guardo meus sentimentos e minhas emoções em forma de poesia, por isso, convido a todos para uma visita, o que me deixará muito feliz.


Para quem quiser entrar pela página principal, é só clicar na imagem. Para quem quiser conhecer apenas os poemas da atualização de aniversário, é só clicar nos links abaixo.

Entreatos

Remanso

Um Olhar Amadurecido

Anistia

Para deixar sua opinião, o que é muito importante pra mim, acesse o link abaixo:

Livro de Visitas

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Silvia Nobre Wajãpi







Convido-os a assistirem, no vídeo acima, a entrevista da primeira mulher indígena a integrar nossas Forças Armadas.
Silvia Wajãpi tem uma história de vida emocionante; seu patriotismo e sua determinação demonstram a garra da mulher genuinamente brasileira. Sua luta aguçou ainda mais sua sensibilidade, levando-a também ao mundo das letras.


Quero apenas um amor

Quero apenas um amor que vasculhe meu corpo e devore a minha carne com a mesma velocidade que pulsa o sangue em minhas veias.
Quero apenas um amor capaz de possuir até minha alma, jogar-me sobre um leito, debruçar-se em meu peito e ouvir as batidas do meu coração.
E meu corpo será dele, minha alma será dele, meu corpo tremerá por ele porque terei a certeza que não mais quererei outro.
E embora noites sejam apenas noites, quero descobrir todos os mistérios e sentir a força do suspiro e do olhar que me arrebata.
E embora noites sejam apenas noites, quero lambuzar-me no néctar da paixão, embriagar-me com ele e entregar-me louca em suas mãos.
E embora noites sejam apenas noites, quero sentir este corpo no meu... E sentir, sentir e sentir... Até que não nos reste mais forças para continuar amando...
Quero apenas um amor...
O amor que é teu!


Mulheres da Floresta

Mulheres cujos olhos brilhavam como estrelas, seduziam a noite escura para conhecerem os mistérios da floresta... Varriam a noite ao doce som de suas gargalhadas inocentes de menina. Mas no seu peito irradiavam o calor e o desejo de amor e em seu ventre eram capazes de escravizar a alma de qualquer mortal. Essas Mulheres da Floresta amavam enlouquecidas! E não se vestindo de nada, eram repletas de tudo...
E era assim que as Mulheres da Floresta escravizavam a alma de seu homem... E nesta União Sagrada ardiam em desejos, devoravam-se como animais ferozes e queimavam como um fogo que nunca se apaga... (do Livro: Olhos da Amazônia - Silvia Nobre)

sábado, 7 de maio de 2011

Augusto dos Anjos



Mater

Como a crisálida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!

E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
- Fecunda fonte desse mesmo leite
Que amamentou os éfebos de Esparta -

Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!

Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas coisas pequeninas
A um biscuit de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.

Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescer, há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias.
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!

Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos,
Relembrarás chorando o que eu te disse,
À sombra dos sicômoros eternos!

Pau d‘Arco,1905 - Paraíba
(In Eu)


O Scenarium deseja a todos um Feliz Dia das Mães!

domingo, 10 de abril de 2011

Andrea Bocelli e Sarah Brightman




Curtam este belíssimo momento, mas não se esqueçam de acionar a pausa na play list musical do blog.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Naldo Velho - A Dança do Tempo



(...) Naldo alcança o que tantos perseguem e nunca conseguem: um estilo próprio. Pois, em "A DANÇA DO TEMPO", encontramos, com prazer, o estilo "naldovelho" de fazer poesia: um lirismo pontiagudo, perverso, cruel, erótico, sensual, extrovertido, e, ao mesmo tempo, e paradoxalmente, intimista, suave, musical, doce — apaixonado e apaixonante — comovente! Em seu novo livro, o poeta, em sua madureza, consegue timbres e dicções só seus, executados e pensados fluentemente. E, ao mesmo tempo em que se mostra se esconde, deixando ao leitor descobrir a sua face verdadeira entre as muitas antíteses de seu fazer poético. (...)
Tanussi Cardoso - Poeta e jornalista. Presidente do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro (SEERJ)
(...) A leitura destes poemas exige fôlego, tal a força de sua linguagem metafórica, através da qual há um pensar angustiado sobre o mundo em pleno movimento. Escrever evidencia-se vital para Naldo Velho, porque o poeta sabe que sua palavra é coisa viva, que tanto não se acomoda literariamente em formas pré-estabelecidas, quanto não se limita existencialmente a padrões de pensamentos. Neste livro não importa o som final de cada verso, uma vez que ele sempre rima com inquietude e libertação. (...)
Marcus Vinicius - Poeta e crítico literário
O lado de lá... Repensando os versos dessa obra, questiono-me, inquietantemente — o que faz dos versos a poesia? Como desconstruir os hiatos silentes do poema? É, meu amigo. Esse é Naldo Velho. Apontando-nos o lado de lá da poesia. Um ambicioso autor traçando e desvelando linhas e cantigas. Dançando no tempo. O seu alvo, a alma. Perceber e compreender a linguagem da sensibilidade que combinam arranjos verbais e significações pelos quais vislumbramos nossos sentimentos e recordações. É verdade: do "lado de cá mora um poeta" que navega em águas revoltas e desconhecidas. Desbravador, solitário almirante. Um poeta. Fazendo-nos compreender a natureza da fala poética.
Mozart Carvalho - Poeta e professor de literatura

Quando Alongo Olhos

Quando alongo olhos de horizonte,
percebo a pequenez da palavra pavio,
a complexidade do emaranhado de fios,
a amplitude das coisas sem dono
e a insensatez de vivermos com pressa.

Quando alongo olhos de cidade,
percebo a pequenez da palavra distância,
a complexidade da palavra conversa,
a frustração de acordar de um sonho
e descobrir que somos apenas humanos.

Quando alongo olhos de permanecer,
percebo a pequenez da palavra descrença,
a complexidade do ciclo das águas,
a “infinitude” da palavra caminho,
e reconheço que ainda há muito a aprender.

Poeta É Uma Merda!

Tem certas palavras
que vivem de "foder" o juízo!
Devoram entranhas,
matam aos pouquinhos.

A palavra inquietude é uma merda!
Devorou parte do meu fígado,
parte do pâncreas, o baço
e um pedaço do intestino.
Fez com que eu "descomesse"
palavras e significados,
tudo misturado numa massa pastosa,
que alguns chamam de verso.

Pior do que ela,
só a palavra amargura.
Lembra coisa pesada,
e de solidez cristalizada,
em nódulos, abscessos...
Faz adormecer pedra
e acordar depressão.

Poeta é uma merda!
Ou vive de inquietude,
ou morre de solidão.

Lua Cheia

Aberta a janela,
lua cheia invadiu meu quarto.
Sem sequer pedir licença
deitou em minha cama,
sugou do meu corpo:
sangue, suor, saliva, sêmen.
Pela manhã:
lençóis umedecidos,
travesseiros emudecidos...
Solidão!

Se você gostou deste aperitivo de A Dança do Tempo, entre em contato com o Poeta Naldo Velho, clicando aqui, e peça o seu exemplar. Se quiser conhecer mais a sensibilidade do Poeta, visite-o em http://poemaspoesiasnaldovelho.blogspot.com/


Nota: Estou com sérios problemas na configuração deste blog. Há algum script em conflito com o html que não me deixa arrumar os textos corretamente. Por conta disto, os poemas ficaram com os versos espaçados.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Leonardo Boff



Interpretação feminista do relato da criação
As teólogas feministas nos despertaram para traços antifeministas no atual relato da criação de Eva (Gn 1,18-25) e da queda original (Gn 3,1-19), o que veio reforçar na cultura o preconceito contra as mulheres. Consoante este relato, a mulher é formada da costela de Adão que, ao vê-la, exclama: “eis os ossos de meus ossos, a carne de minha carne; chamar-se-á varoa (hebraico: ishá) porque foi tirada do varão (ish); por isso o varão deixará pai e mãe para se unir a sua varoa: e os dois serão uma só carne” (2,23-25).
O sentido originário visava mostrar a unidade homem/mulher. Mas a anterioridade de Adão e a formação a partir de sua costela foi, porém, interpretada como superioridade masculina. O relato da queda soa também antifeminista: “Viu, pois, a mulher que o fruto daquela árvore era bom para comer... tomou do fruto e o comeu; deu-o também a seu marido e comeu; imediatamente se lhes abriram os olhos e se deram conta de que estavam nus” (Gn 3,6-7).
Interpreta-se a mulher como sexo fraco, pois foi ela que caiu na tentação e, a partir daí, seduziu o homem. Eis a razão de seu submetimento histórico, agora ideologicamente justificado: “estarás sob o poder de teu marido e ele te dominará” (Gn 3,16).
Há uma leitura mais radical, apresentada por duas teólogas feministas, entre outras: Riane Eisler (Sacred Pleasure, Sex Myth and the Politics of the Body,1995) e Françoise Gange (Les dieux menteurs 1997) que aquí resumo. Estas autoras partem do dado histórico de que houve uma era matriarcal anterior à patriarcal. Segundo elas, o relato do pecado original seria introduzido no interesse do patriarcado como uma peça de culpabilização das mulheres para arrebatar-lhes o poder e consolidar o domínio do homem. Os ritos e os símbolos sagrados do matriarcado teriam sido diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior. O atual relato do pecado original coloca em xeque os quatro símbolos fundamentais do matriarcado.
O primeiro símbolo atacado é a mulher em si que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal ela simbolizava a Grande-Mãe. Agora é feita a grande sedutora.
No segundo, desconstrói-se o símbolo da serpente que representava a sabedoria divina que se renovava sempre como se renova a pele da serpente.
No terceiro, desfigura-se a árvore da vida, tida como um dos símbolos principais da vida, gestada pelas mulheres, agora colocada sob o interdito: “não comais nem toqueis de seu fruto” (3,3).
No quarto, se distorce o caráter simbólico da sexualidade, tida como sagrada, pois permitia o acesso ao êxtase e ao conhecimento místico, representada pela relação homem-mulher.
Ora, o que faz o atual relato do pecado original? Inverte totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Desacraliza-os, diaboliza-os e transforma o que era bênção em maldição.
A mulher é eternamente maldita, feita um ser inferior, sedutora do homem que “a dominará” (Gen 3,16). O poder de dar a vida será realizado entre dores (Gn 3,16).
A serpente será maldita, feita inimigo fidagal da mulher que lhe ferirá a cabeça, mas que será mordida no calcanhar (Gn 3,15).
A árvore da vida e da sabedoria cai sob o signo do interdito. Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora comer dela significa perigo letal (Gn 3,3).
O laço sagrado entre o homem e a mulher é substituído pelo laço matrimonial, ocupando o homem o lugar de chefe e a mulher de dominada (Gn 3,16).
Aqui se operou uma desconstrução profunda do relato anterior, feminino e sacral. Hoje todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador como está no Gênesis.
Por que escrever sobre isso? É para reforçar o trabalho das teólogas feministas que nos apontam quão profundas são as raízes da dominação das mulheres. Ao resgatarem o relato mais arcaico, feminista, elas visam propor uma alternativa mais originária e positiva na qual apareça uma relação nova com a vida, com os gêneros, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade.
Leonardo Boff
Filósofo/Teólogo
Leonardo Boff escreveu com Rose Marie Muraro o livro “Feminino&Masculino”, Record 2010.
Fonte: Letras Et Cetera

domingo, 27 de março de 2011

Almas Douradas me abraçou!



No mesmo dia em que postei a mensagem abaixo sobre a necessidade de um abraço, também relembrei, para alguns amigos, um texto da minha Série Entreatos, que se encontra editada em meu site Cenário de Sentimentos.

Não demorou e ganhei um grande abraço virtual do amigo José Carlos Cardoso Manzano, em seu blog Almas Douradas. Agradecida pelo carinho, convido os amigos e seguidores a visitarem um dos belos espaços do José Carlos. É só clicar na imagem acima.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Às vezes, um abraço é tudo o que precisamos.

Recebi este vídeo de uma amiga e achei a idéia genial. Resolvi pesquisar sobre sua história e aqui está um resumo de como nasceu essa linda campanha.

"Free hugs" é uma história real e controversa de Juan Mann, um homem cujo único intento era o de abraçar um estranho para iluminar a vida daquela pessoa e a sua própria.

Como tudo começou:

Juan Mann estava morando em Londres, quando seu mundo virou de cabeça pra baixo e ele teve de voltar pra casa, em Sydney. No momento em que seu avião pousou, tudo o que ele tinha eram uma bagagem de mão cheia de roupas e um mundo de problemas. Ninguém para recebê-lo de volta e nem um lugar para chamar de lar. Ele era um turista em sua cidade natal. De pé no terminal de chegadas, observando os outros passageiros se encontrarem com amigos e familiares que estavam à espera, de braços abertos e faces sorridentes, ele queria que alguém estivesse esperando por ele. Alguém que ficasse feliz em vê-lo, que sorrisse pra ele, que o abraçasse. Então, de posse de um papel e de uma caneta marcadora escreveu algo. Colocou-se no mais movimentado cruzamento de pedestres da cidade e levantou o cartaz com as palavras "Free Hugs” (abraço grátis) em ambos os lados. Por 15 minutos, as pessoas passaram por ele e apenas o olharam. A primeira pessoa que parou, bateu no seu ombro e lhe contou que seu cachorro tinha morrido naquela manhã e que naquela manhã tinha sido o aniversário de um ano de sua única filha, morta em um acidente de carro. Tudo o que ela precisava agora era de um abraço. Exatamente como ele se sentiu no aeroporto. Ele se postou de joelhos, se abraçaram e, quando se separaram, a mulher estava sorrindo.
Todo mundo tem problemas, mas ver alguém que se aproxima com o semblante fechado, o sorriso, mesmo que por um momento, vale a pena o tempo todo.

Esta história é contada pelo próprio Juan Mann e eu apenas a coloquei na 3ª pessoa.
Nesta era de distanciamento social e falta de contato humano, os efeitos da campanha Free Hugs se tornaram um fenômeno.
Vocês encontrarão vídeos da campanha em outras cidades e ela chegou a ser proibida pelas autoridades policiais de Sydney.
O fundo musical de todos os vídeos da campanha é “All the Same”, do Sick Puppies. Para ouvi-lo melhor neste vídeo acima, não se esqueça de dar pausa na playlist musical do blog, que se encontra no layout lateral.

Fonte:
http://www.freehugscampaign.org/

domingo, 20 de março de 2011

Camilo Pessanha



Caminho

Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

Camilo Pessanha
(In Clepsidra e outros poemas - Coleção Poesia - Edições Ática 1973)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Parabéns às Mulheres e ao Scenarium!



No dia 8 de Março, este blog estará completando dois anos de existência. Em virtude de pequeno recesso, por conta da folia momesca, deixo o meu agradecimento aos amigos e seguidores que estiveram conosco durante este período.

Como o Scenarium foi lançado no Dia Internacional da Mulher, dedico a todas as mulheres o excelente texto abaixo, de autoria de Jenny Londoño, que tenho guardado há muito tempo. O texto foi premiado em primeiro lugar no concurso de poesia Gabriela Mistral, em Quito, Equador, no ano de 1992. Trata-se de um retrato do que vem acontecendo com as mulheres desde tempos remotos: submissão, maus-tratos, exploração sexual, etc.

Reencarnaciones

Vengo desde el ayer, desde el pasado oscuro y olvidado con las manos atadas por el tiempo, con la boca sellada desde épocas remotas.

Vengo cargada de dolores antiguos, recogidos por siglos, arrastrando cadenas largas e indestructibles.

Vengo desde la oscuridad del pozo del olvido, con el silencio a cuestas, con el miedo ancestral que ha corroído mi alma desde el principio de los tiempos.

Vengo de ser esclava por milenios, esclava de maneras diferentes, sometida al deseo de mi raptor en Persia, esclavizada en Grecia, bajo el poder romano. Convertida en vestal, en las tierras de Egipto, ofrecida a los dioses de ritos milenarios, vendida en el desierto o canjeada como una mercancía.

Vengo de ser apedreada por adúltera en las calles de Jerusalén, por una turba de hipócritas, pecadores de todas las especies, que clamaban al cielo mi castigo.

He sido mutilada en muchos pueblos para privar mi cuerpo de placeres y convertida en animal de carga, trabajadora y paridora de la especie.

Me han violado sin límite, en todos los rincones del planeta, sin que cuente mi edad madura o tierna o importe mi color o mi estatura.

Debí servir ayer a los señores, prestarme a sus deseos, entregarme, donarme, destruirme, olvidarme de ser una entre miles.

He sido barragana de un señor de Castilla, esposa de un Marqués y concubina de un comerciante griego, prostituta en Bombay y filipinas y siempre ha sido igual mi tratamiento.

De unos y de otros siempre esclava, de unos y de otros dependiente, menor de edad en todos los asuntos, invisible en la historia mas lejana, olvidada en la historia más reciente.
Yo no tuve la luz del alfabeto durante largos siglos. Aboné con mis lágrimas la tierra que debí cultivar desde mi infancia.

He recorrido el mundo en millares de vidas que me han sido entregadas una a una.
Y he conocido a todos los hombres del planeta: los grandes y pequeños, los bravos y cobardes, los viles, los honestos, los buenos, los terribles.

Mas casi todos llevan la marca de los tiempos. Unos manejan vidas como amos y señores, asfixian, aprisionan, succionan y aniquilan.

Otros manejan almas: comercian con ideas, asustan o seducen, manipulan y oprimen.
Unos cuentan las horas con el filo del hambre, atravesado en medio de la angustia. Otros viajan desnudos por su propio desierto y duermen con la muerte en la mitad del día.
Yo los conozco a todos. Estuve cerca de unos y de otros, sirviendo cada día, recogiendo las migajas, bajando la cerviz a cada paso, cumpliendo con mi karma.

He recorrido todos los caminos. He arañado paredes y ensayado cilicios, tratando de cumplir con el mandato de ser como ellos quieren, mas no lo he conseguido.

Jamás se permitió que yo escogiera el rumbo de mi vida. He caminado siempre en una disyuntiva, ser santa o prostituta.

He conocido el odio de los inquisidores que a nombre de "la santa madre iglesia", condenaron mi cuerpo a su sevicia o a las infames llamas de la hoguera.

Me han llamado de múltiples maneras: bruja, loca, adivina, pervertida, aliada de Satán, esclava de la carne, seductora, ninfómana, culpable de los males de la tierra.

Pero seguí viviendo, arando, cosechando, cosiendo, construyendo, cocinando, tejiendo, curando, protegiendo, pariendo, criando, amamantando, cuidando, y sobre todo amando.

He poblado la tierra de amos y de esclavos, de ricos y mendigos, de genios y de idiotas, pero todos tuvieron el calor de mi vientre, mi sangre y mi aliento, y se llevaron un poco de mi vida.

Logré sobrevivir a la conquista brutal y despiadada de Castilla en las tierras de América, pero perdí mis dioses y mi tierra y mi vientre parió a gente mestiza, después de que el castellano me tomara por la fuerza.

Y en este continente mancillado proseguí mi existencia, cargada de dolores cotidianos. Negra y esclava en medio de la hacienda, me vi obligada a recibir al amo cuantas veces quisiera, sin poder expresar ninguna queja.

Después fui costurera, campesina, sirvienta, labradora, madre de muchos hijos miserables, vendedora ambulante, curandera, cuidadora de niños y de ancianos, artesana de manos prodigiosas, tejedora, bordadora, obrera, maestra, secretaria o enfermera.

Siempre sirviendo a todos, convertida en abeja o sementera, cumpliendo las tareas más ingratas, moldeada como cántaro por las manos ajenas.

Y un día me dolí de mis angustias. Un día me cansé de mis trajines, abandoné el desierto y el océano, bajé de la montaña, atravesé las selvas y confines y convertí mi voz dulce y tranquila en bocina del viento, en grito universal y enloquecido.

Y convoqué a la viuda, a la casada, a la mujer del pueblo, a la soltera, a la madre angustiada, a la fea, a la recién parida, a la violada, a la triste, a la callada, a la hermosa, a la pobre, a la afligida, a la ignorante, a la fiel, a la engañada, a la prostituta.
Vinieron miles de mujeres, juntas, a escuchar mis arengas. Se habló de los dolores milenarios, de las largas cadenas que los siglos nos cargaron a cuestas.

Y formamos con todas nuestras quejas un caudaloso río que empezó a recorrer el universo, ahogando la injusticia y el olvido.

El mundo se quedó paralizado. ¡los hombres sin mujeres no caminan!

Se pararon las máquinas, los tornos, los grandes edificios y las fábricas, ministerios y hoteles, talleres y oficinas, hospitales y tiendas, hogares y cocinas.

Las mujeres, por fin, lo descubrimos. ¡somos tan poderosas como ellos y somos muchas más sobre la tierra ! ¡ más que el silencio y más que el sufrimiento ! ¡ más que la infamia y más que la miseria !

Que este canto resuene en las lejanas tierras de indochina, en las arenas cálidas del África, en Alaska o en America latina, llamando a la igualdad entre los géneros, a construir un mundo solidario -- distinto, horizontal, sin poderíos -- a conjugar ternura, paz y vida, a beber de la ciencia sin distingos.

A derrotar el odio y los prejuicios, el poder de unos pocos, las mezquinas fronteras. A amasar con las manos de ambos sexos el pan de la existencia.

Jenny del Pilar Londoño López

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Luli Coutinho



Solitude

Meus olhos andam cansados
Procuro cores na paisagem
No horizonte olhar fixado
Relembra aquela imagem...

Invisíveis e sem resposta
Não mais encontro lugares
Dia turvo embaça a música
Jazem as cores meus luares

Levo o sorriso que não tenho
Num anjo de mármore impuro
Lágrimas e lembranças ocultas
Em máscaras nos dias duros

E o peso do mundo me consome
Perdoa-me não aflorar a poesia
A inspiração hoje é sem nome
Solitude inunda os olhos do dia.

© Luli Coutinho
São Paulo (SP) – Brasil

Visite a sensibilidade de Luli Coutinho em:
- Luli Coutinho
- Recanto das Letras

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cecília Rodrigues



Soneto Leve

Na hora mais serena eu penso em ti!
Na brisa mais amena, sinto-o leve;
Tal como um suave beijo do Bem-Te-Vi,
Visto-me deste sonho que me embebe...

Remansos de mim, poesia se atreve
Vítima de nós, e eu vítima de ti;
Passos de letras sós, i'nda que breves,
I'nda que lentos, esmorecem aqui!

Neste poema, d'intemporal quimera
Leio e releio, qual infinita era...
Talvez te encontre naquilo que eu reli;

Talvez, eu te sinta um sinuoso poema...
Sigo o caminho desta minha pena...
E ao cantar o amor, digo: - Não te perdi!

© Cecília Rodrigues
Viseu – Portugal


Visite Cecília em seu espaço Cecy Poemas

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Carmel A-Cappella



Carmel A-Capella é um quinteto vocal de Haifa, Israel, composto por mulheres, e sua característica musical principal é a de cantar a capela.
O repertório do grupo inclui arranjos vocais de clássicos instrumentais, canções israelenses, canções folclóricas de diversos países, canções de musicais famosos, jazz e música latina.
O quinteto tem como diretora e arranjadora musical a argentina Shula Erez.
Para apreciar a performance do quintento, interpretando "A Primavera", de Vivaldi, é só clicar na imagem.
A seguir, mais duas interpretações do grupo:

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Jarbas Agnelli e Paulo Pinto



Em “A Arte de Ser Feliz”, Cecília Meireles diz que “quando fala de pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim” e foi exatamente com o olhar de poesia que Jarbas Agnelli traduziu uma foto de pássaros pousados nos fios de luz de uma rua, feita pelo repórter fotográfico Paulo Pinto, no interior do Rio Grande do Sul, para o jornal O Estado de São Paulo.

É só clicar na imagem, ouvir a história de Jarbas Agnelli e apreciar sua interpretação artística para a foto dos pássaros.