Seja bem-vindo a mais um palco do Cenário de Sentimentos
(www.mariseribeiro.com).
Este espaço é um abraço à sensibilidade, independente da forma como é apresentada: um poema, uma canção, um pensamento, uma pintura, uma charge... O que alimenta a minha emoção torna-se arte e toda arte é especial, é incomum, é rara.
Se você não é comum, você é Scenarium!
Vozes para a Paz (Músicos Solidários), fundada em 1998 por Juan Carlos Arnanz Villalta, como uma associação independente de ajuda humanitária e sem fins lucrativos, é composta por mais de 300 músicos profissionais, que pertencem a importantes orquestras (Orquestra e Coro Nacional de Espanha, Orquestra e Coro da RTVE, Orquestra e Coro da Sinfônica de Madri, Orquestra e Coro da Comunidade de Madri, Banda Sinfônica Municipal de Madri, Coro do Teatro Nacional da Zarzuela, etc) e várias pessoas vinculadas ao mundo da música.
Eles têm como objetivo apresentar concertos de solidariedade, arrecadando fundos e conseguindo apoios para projetos que auxiliem e protejam os mais necessitados.
Para “Vozes para a Paz”, música, amor e justiça são a mesma coisa.
O Concerto:
Em 10 de junho de 2007, sob a batuta do maestro D. Enrique Garcia Asensio, no Auditório Nacional de Música de Madri, a orquestra se apresentou para um concerto solidário com a finalidade de adquirir uma Unidade Móvel Sanitária, que atendesse a necessidades de 3.600 pessoas que se encontram espalhadas em pequenos povoados entre as montanhas andinas de Huancavelica (Peru). A música apresentada foi La Boda de Luis Alonso, composta por Gerónimo Gimenez..
A Solista:
Lucero Tena é uma bailarina de flamenco de origem mexicana , que reside na Espanha desde 1958. Integrou a companhia de Carmen Amaya e posteriormente criou seu próprio grupo de dança flamenca. Além de excepcional bailarina, é também uma extraordinária executante de castanholas na interpretação de obras clássicas. É professora daquele instrumento no Conservatório de Madri. A arte de tocar castanholas de Lucero Tena é bastante notável. É sabido que o instrumento tem uma longa história e é derivado do “crotales” do mundo antigo. Chegou a ter um lugar especial na dança espanhola popular e clássica. Alguns dançarinos se destacaram por sua habilidade em tocar as castanholas, mas nenhum deles tornou esta arte em si, um meio de expressão estética. Lucero Tena se destaca por isso e por demonstrar sensibilidade rítmica, equilíbrio das variadas sonoridades possíveis, e domínio original do instrumento. Vários músicos já compuseram para essa grande artista, incluindo Joaquín Rodrigo, que em 1966 compôs e dedicou a ela duas danças espanholas. No decorrer de uma distinta carreira Lucero Tena tem aparecido em salas de concertos em todo o mundo. Ela também se apresenta em recitais com acompanhamento de violão ou piano.
Aprecie esse grande espetáculo, clicando na imagem acima ou aqui.
Fontes: Youtube, Wikipédia, Vozes Para a Paz, Naxos
Quis Deus que eu fosse esta fraca figura, Que não tivesse nem terras nem empresas, E deu-me por espinhos excessiva ternura Com que visto as minhas muitas incertezas.
E o sono vem sempre tarde por esta altura, Quando a partilha é solidão e reais certezas... E o vetusto caminho, de minha candura, É uma paisagem vazia de mãos ilesas.
Assim sou dois, o que quer e o que rejeita. E revolta-se-me o coração, a toda a hora porvir, A vida e com ela o amor que me enjeita.
Ah, dêem-me rosas, e um mar de calma! Brancos braços de mulher onde dormir, O meu desassossego, a minha alma!
Uma aristocrata senhora inglesa (atriz May Warden) quer comemorar seu 90 º aniversário com os amigos de sempre: Sir Toby, o Almirante von Schneider, Sir Pommeroy e Sir Winterbottom; mas eles já estão mortos. Então, seu mordomo (ator Freddie Frinton), se faz passar por aquelas pessoas. Só não descrevo o que acontece, para não tirar a comicidade da cena. A cada prato servido, ele pergunta à senhora: O mesmo procedimento do ano passado, Miss Sophie? E ela então responde: Como todos os anos, James! O comportamento fleumático da velha senhora não nos deixa imaginar o final da cena, sugerido pelo fino humor inglês. O vídeo está em inglês e as legendas em francês, o que não impede o seu entendimento até para os que não dominam os citados idiomas. Agradeço à querida amiga Astir pelo envio deste vídeo. É só clicar na imagem acima, ajustar em tela cheia e se acabar de rir.
Apenas a título de curiosidade: Esta sátira se tornou muito famosa na Alemanha, desde sua primeira divulgação. A cada ano, véspera de Ano Novo, ela é transmitida na TV em quase todos os canais do país. Até hoje não foi lançada nos EUA e, na Suécia, sua exibição está proibida por causa do abuso de álcool. Também é bem conhecida na Áustria, Dinamarca e Noruega. No filme francês Le Père Noël Est Une Ordure (Papai Noel É Um Lixo, no Brasil), adaptado de uma peça teatral, em 1982, por Jean-Marie Poiré, há uma cena semelhante a este jantar.
Pré-história Mamãe vestida de rendas Tocava piano no caos. Uma noite abriu as asas Cansada de tanto som, Equilibrou-se no azul, De tonta não mais olhou Para mim, para ninguém! Caiu no álbum de retratos.
Amigos leitores e seguidores do Scenarium, volto a me dedicar a este espaço, depois de um período de descanso. Agradeço a todos que aqui estiveram apenas nos visitando ou deixando seus comentários. Aproveitei para consertar alguns links que haviam se agrupado, e caso algo mais for encontrado fora dos trilhos será ajeitado na medida do possível. Deixo com vocês uma bela crônica da Martha Medeiros, que a mim diz muito, muito mesmo!
A nova minoria
É um grupo formado por poucos integrantes. Acredito que hoje estejam até em menor número do que a comunidade indígena, que se tornou minoria por força da dizimação de suas tribos. A minoria a que me refiro também está sendo exterminada do planeta, e pouca gente tem se dado conta. Me refiro aos sensatos. A comunidade dos sensatos nunca se organizou formalmente. Seus antepassados acasalaram-se com insensatos, e geraram filhos e netos e bisnetos mistos, o que poderia ser considerada uma bem-vinda diversidade cultural, mas não resultou em grande coisa. Os seres mistos seguiram procriando com outros insensatos, até que a insensatez passou a ser o gene dominante da raça. Restaram poucos sensatos puros. Reconhecê-los não é difícil. Eles costumam ser objetivos em suas conversas, dizendo claramente o que pensam e baseando seus argumentos no raro e desprestigiado bom senso. Analisam as situações por mais de um ângulo antes de se posicionarem. Tomam decisões justas, mesmo que para isso tenham que ferir suscetibilidades. Não se comovem com os exageros e delírios de seus pares, preferindo manter-se do lado da razão. Serão pessoas frias? É o que dizem deles, mas ninguém imagina como sofrem intimamente por não serem compreendidos. O sensato age de forma óbvia. Ele conhece o caminho mais curto para fazer as coisas acontecerem, mas as coisas só acontecem quando há um empenho conjunto. Sozinho ele não pode fazer nada contra a avassaladora reação dos que, diferentemente dele, dedicam suas vidas a complicar tudo. Para muita gente, a simplicidade é sempre suspeita, vá entender. O sensato obedece regras ancestrais, como, por exemplo, dar valor ao que é emocional e desprezar o que é mesquinho. Ele não ocupa o tempo dos outros com fofocas maldosas e de origem incerta. Ele não concorda com muita coisa que lê e ouve por aí, mas nem por isso exercita o espírito de porco agredindo pessoas que não conhece. Se é impelido a se manifestar, defende sua posição com ideias, sem precisar usar o recurso da violência. O sensato privilegia tudo o que possui conteúdo, pois está de acordo com a máxima que diz que a vida é muito curta para ser pequena. Sendo assim, ele faz valer o seu tempo. Não tem paciência para os que são regidos pela vaidade e não dizem nada que preste. Constrange-se de testemunhar o vazio da banalidade sendo passado de geração para geração. Ouvi de um sensato, dia desses: “Perdi minha turma. Eu convivia com pessoas criativas, que falavam a minha língua, que prezavam a liberdade, pessoas antenadas que não perdiam tempo com mediocridades. A gente se dispersou.” Ele parecia um índio. Mesmo com poucas chances de sobrevivência, que se morra em combate. Sensatos, resistam.
Ano Novo O rei chegou E já mandou tocar os sinos Na cidade inteira É pra cantar os hinos Hastear bandeiras E eu que sou menino Muito obediente Estava indiferente Logo me comovo Pra ficar contente Porque é Ano Novo Há muito tempo Que essa minha gente Vai vivendo a muque É o mesmo batente É o mesmo batuque Já ficou descrente É sempre o mesmo truque E que já viu de pé O mesmo velho ovo Hoje fica contente Porque é Ano Novo A minha nega me pediu um vestido Novo e colorido Pra comemorar Eu disse: Finja que não está descalça Dance alguma valsa Quero ser seu par E ao meu amigo que não vê mais graça Todo ano que passa Só lhe faz chorar Eu disse: Homem, tenha seu orgulho Não faça barulho O rei não vai gostar E quem for cego veja de repente Todo o azul da vida Quem estiver doente Saia na corrida Quem tiver presente Traga o mais vistoso Quem tiver juízo Fique bem ditoso Quem tiver sorriso Fique lá na frente Pois vendo valente E tão leal seu povo O rei fica contente Porque é Ano Novo
Soneto de Natal Essa mulher, que sonha, sofre e chora, E o escasso seio estende, e o acaricia, Ao filho magro, que seu leite implora, Podia se chamar Virgem Maria. O que lhe importa se essa noite é fria E além da porta é Natal lá fora, Se Jesus Cristo nasce todo dia E está dormindo no seu colo agora? Ela é Nossa Senhora da Pureza, Cuida da nossa vida de pobreza E ora por nós que somos filhos seus... Essa Mulher, que sonha, sofre e chora, Só pode ser então Nossa Senhora, A Mãe de todos nós... A Mãe de Deus!
É meia noite... O sino alvissareiro, Lá da igrejinha branca pendurado, Como n’um sonho místico e fagueiro, Vem relembrar o tempo do passado. Ó velho sino, ó bronze abençoado, Na alegria e na mágoa companheiro! Tu me recordas o sorrir primeiro De menino Jesus imaculado. E enquanto escuto a tua voz dolente, Meu ser que geme dolorosamente Da desventura, aos gélidos açoites... Bebe em teus sons tanta alegria, tanta! Sino que lembras uma noite santa, Noite bendita mais que as outras noites!
Se este é o palco onde divulgo tudo aquilo que me emociona ou me encanta, então não poderia faltar a minha paixão pelo Fluminense. Tivemos um ano sofrido, mas a demonstração de amor e de esperança da nossa linda e pacífica torcida, somada à garra dos jogadores, deu-nos ao final do Campeonato Brasileiro um sabor de vitória. Para os matemáticos, o nosso descenso à Série B já estava sacramentado em números, só que eles se esqueceram de contabilizar o que estava nos corações dos torcedores e do time tricolor: a paixão, a esperança e a garra. Selecionei cinco momentos de emoção, envolvendo ilustres tricolores de coração e a torcida do Flu.
1-) O texto abaixo foi escrito por Artur da Távola e traduz, perfeitamente, o sentimento do que é ser Fluminense.
“Ser Fluminense
Ser Fluminense é entender esporte como bom gosto. É ser leal sem ser boboca e ser limpo sem ser ingênuo.
Ser Fluminense é aplicar o senso estético à vida e misturar as cores de modo certo, dosar a largura do grená, a profundidade do verde com as planuras do branco.
Ser Fluminense é saber pensar ao lado de sentir e emocionar-se com dignidade e discrição. É guardar modéstia, a disfarçar decisão, vontade e determinação. É calar o orgulho sem o perder. É reconhecer a qualidade alheia, aprimorando-se até suplantá-la.
Ser Fluminense não é ser melhor, mas ser certo. Não é vencer a qualquer preço, mas vencer-se primeiro para ser vitorioso depois. É não perder a capacidade de admirar e de (se) colocar metas sempre mais altas, aprimorando-se na busca! E jamais perder a esperança até o minuto final.
Ser Fluminense é gostar de talento, honradez, equilíbrio, limpeza, poesia, trabalho, paz, construção, justiça, criatividade, coragem serena e serenidade decidida.
Ser Fluminense é rejeitar abuso, humilhação, manha, soslaio, sorrateiros, desleais, temerosos, pretensão, soberba, tocaia, solércia, arrogância, suborno ou hipocrisia. É pelejar, tentar, ousar, crescer, descobrir-se, viver, saber, vislumbrar, ter curiosidade e construir.
Ser Fluminense é unir caráter com decisão, sentimento com ação, razão com justiça, vontade com sonho, percepção com fé, agudeza com profundidade, alegria com ser, fazer com construir, esperar com obter. É ter os olhos limpos, sem despeito, e claro como a esperança.
Ser Fluminense, enfim, é descobrir o melhor de cada um, para reparti-lo com os demais e saber a cada dia, amanhecer melhor, feliz pelo milagre da vida como prodígio de compreensão e trabalho, para construir o mundo de todos e de cada um, mundo no qual tremulará a bandeira tricolor. (Artur da Távola)”
2-) Aproveite para assistir também à interpretação do jornalista-tricolor Pedro Bial, para alguns trechos do texto de Távola, clicando aqui.
3-) O fragmento abaixo, pinçado do artigo Um Tricolor em Roma, de Chico Buarque, escrito para O Pasquim, em 1969, ocasião em que ele se encontrava exilado naquela cidade, tornou-se uma peça de orgulho para todos os tricolores. Caso queira ler o texto na íntegra é só clicar aqui.
"É muito fácil ser rubro-negro, fácil demais! É como ser a favor do sol no meio do deserto, ou comemorar o Dia da Árvore no coração da Amazônia. Aliás, nunca existiu um flamenguista. Flamengar é verbo imperfeito que só se conjuga no plural. Por exemplo: Eu advogo, tu bates o ponto, ele mata mosquito; nós flamengamos, vós flamengais, eles flamengam. Mas torcer pelo Fluminense, modéstia à parte, requer outros talentos. Precisa saber dançar sem batucada. O tricolor chora e ri sem ninguém por perto. Sua luz vem de dentro! É habituado com alegrias choradas e gols no finalzinho, de pé, mão, barriga, bunda e nariz, sem esse papo de maioria ou de mais querido. Afinal, o amor sincero não se discute." (Chico Buarque de Hollanda)
4-) Clicando aqui, você pode apreciar os vários mosaicos criados pela torcida tricolor e copiados pelas outras torcidas.
5-) E para fechar esta homenagem ao meu querido time, apreciem o Hino do Fluminense, executado ao piano, pelo ilustre tricolor e maestro Arthur Moreira Lima. É só clicar aqui.
Cordilheira Cordilheira cadeia de rancores trinca escolhe o caminho. Descoberto o vento retrai tédios parte-se e parte. Caminha apesar do sangue a escorrer chora copiosa esquecida. Cala nega quão doloroso retorno -Será a guerra? O deserto a encobre ausente de oásis dunas se formam ondulando as esfinges. O Oráculo da Morte sentencia: - Cordilheira em transe esperas a eternidade?
Kseniya Simonova, uma artista performática de 24 anos, criou numa mesa iluminada, uma série de imagens desenhadas com areia, onde mostrava como as pessoas comuns foram afetadas pela invasão alemã, durante a Segunda Guerra Mundial.
As imagens, projetadas em uma tela grande, levaram algumas pessoas da platéia às lágrimas, tornando-a ganhadora da versão ucraniana do Britain's Got Talent.
Ela começa desenhando, sob um céu estrelado, um casal de mãos dadas sentados em um banco, logo depois aviões aparecem e a cena feliz é apagada. Aquela cena é substituída pelo rosto de uma mulher chorando, um bebê chega e a mulher sorri novamente. Simonova retorna mais uma vez à guerra, lançando areia no caos, rostos horrorizados, e a mulher surgindo com uma carta para um soldado.
A viuvez e o rosto enrugado e triste da mesma mulher se transformam em um monumento ao Soldado Desconhecido. Na cena final, mais uma família dizendo adeus a um soldado.
A Grande Guerra Patriótica, como é chamada a 2ª Guerra na Ucrânia, resultou na morte de 8 milhões de pessoas, ou seja, um quarto de sua população.
Assista ao vídeo acima, já acessado por dois milhões de usuários. Não se esqueça de dar pausa na playlist.
Veja também a mesma técnica desenvolvida por Ilana Yahav
Passa o tempo, passa o vento, Passa a vida, passa o grito, Passa a raiva. E num passe, num transpasse, Passas triste e eu não passo...
Muda a muda, muda o mundo, Eu, inerte, chão imundo, Muda a música, muda a dança, E a mudança muda a gente, E no passo de um compasso, Muda o passo do passado, Passas triste e eu não passo...
A estátua desta imagem encontra-se em Kaunas, na Lituânia e retrata um camponês. Recebeu o nome de Seeder (O Semeador) e seria mais uma simples estátua se um artista não tivesse usado sua sensibilidade e a transformado numa linda poesia visual. Apreciem a imagem seguinte, quando anoitece.
Na verdade, as estrelas são um grafite (forma de expressão da arte urbana) criadas pelo artista Morfai. Ele estudou o que iria desenhar e gravou tudo em um vídeo que você pode ver aqui. O vídeo e todas as diversas obras de Morfai estão disponíveis em seu blog.
Para melhor visualização do efeito é só clicar nas imagens.
Antes que chegue enfim, a mulher esperada, flores eu cantarei desfiando em cada canto, a vagarosa luz de um crepúsculo santo ainda na cortina alta, lisa, parada...
Colocarei na branca sala iluminada um arranjo floral de lírios e amaranto, a lua a pendurar o transparente manto na porta silenciosa, antiga, entrecerrada.
E na hora escura, quando brilharem as tiaras de um abajur azul de finas sedas claras e claras fímbrias a pestanejarem luz
porei também, na minha alcova desolada, um púlpito com uma página sagrada, e duas rimas acesas numa mesma cruz...
Amo-te nas perenes primaveras, No estio dos setembros repetidos, Nas letras comungando com as esperas Dos livros - os penhores nunca lidos.
No balé dos meus sonhos te adiantas Te dando à inocência... Tudo em vão! Meu corpo, o repasto... e tu jantas E encontras o pulsar de um coração
Amo-te como o sol beija na testa, A semente a eclodir no solo bruto. Céu-risos, o perfume, o ar em festa Da terra chora o útero em luto.
Já chega o junho, amor... Já é tão tarde! Se fiel ao amor?... Nem sei se o tenho! Nem sei se é própria a dor do amor que invade O amor ou se é igual a que eu contenho.
Amo-te, nos lamentos outonais. É meia noite... Ah! inquietações E, em tua boca doce... Quero mais! E durmo, arquitetando ilusões.
Que importam meus cantos solitários - Se, um a um, a cega pauta tomba - Darem vozes aos tempos libertários, Se afogam-se à noite. Grande onda!
Amo-te qual farrapo e descrente. Se descrente, o desejo só embriaga. Eis-me à sede, à deriva e indigente, Sem um chão, um cobertor. Dá-me água!
Amor, não vês? Sujeita ao teu domínio, Afundo-me nos choros sem pudores. Tu mentes! Pois se és filho do destino Por que só dás a mim tuas próprias dores?
As cenas da ópera Sansão e Dalila, que o Scenarium traz para vocês, foram apresentadas em 1981 no The San Francisco Opera. Com orquesta e coro do teatro de San Francisco, sob regência do maestro Julius Rudel, seu elenco principal era composto por Plácido Domingo, Shirley Verrett, Wolfgang Brendel, Kevin Langan e Arnold Woketaitis.
Uma outra encenação, que também se encontra aqui, foi apresentada no Palacio de Bellas Artes, no México, sob a regência do maestro Guido Maria Guida. Plácido Domingo também interpretava Sansão.
Para apreciarem os vídeos, não se esqueçam de dar pausa na play list musical do blog.
“Sansão e Dalila é uma ópera em três atos do compositor francês Camille Saint-Saëns, com libreto de Ferdinand Lemaire, baseado nos capítulos 13 a 16 do Livro dos Juízes da Bíblia. Estreou a 2 de dezembro de 1877 no Hoftheater de Weimar, na Alemanha.
Personagens Sansão (guerreiro-chefe dos hebreus) – tenor Dalila (sacerdotisa dos filisteus) – mezzo-soprano Sumo Sacerdote de Dagom (Deus dos filisteus) – barítono Abimeleque (Governador Provincial de Gaza – condena os hebreus por se negarem a aceitar Dagom como seu deus) - baixo
Sinopse
É a história de um homem que foi forte o suficiente para derrotar os inimigos de Israel, os filisteus, mas não o suficiente para resistir à malícia de uma mulher.
Ato I
A história se passa na Palestina entre os anos 1050 a.C. e 1000 a.C.. Uma praça pública em Gaza, junto à entrada do templo de Dagom. Uma multidão de hebreus, homens e mulheres, choram sua derrota diante dos filisteus, e invocam a piedade do Deus de Israel. Entre eles está Sansão, que assume a liderança e os exorta a não perderem a fé nem a esperança. A princípio, a multidão parece desanimada e descrente, mas pouco a pouco Sansão consegue reacender neles a chama do fervor e da coragem. Chega Abimeleque, que insulta com grande insolência o povo hebreu e seu Deus: "Não vedes que vosso Deus permanece surdo aos vossos gritos? Ele que mostre seu poder, e venha quebrar vossas correias e vos dar a liberdade! Vosso Deus treme diante de Dagom, o maior dos deuses!" Os hebreus cantam um hino de desafio: Israël romps tachaîne! O peuple, lève-toi! Abimeleque se precipita sobre Sansão com a espada na mão para feri-lo; Sansão, num golpe de arte marcial o lança ao chão e, pegando da espada, dá morte a Abimeleque ali mesmo.
Reina grande confusão, e os hebreus fogem seguindo Sansão. O Sumo Sacerdote de Dagom sai do templo, acompanhado de guardas e soldados, e se depara com o cadáver de Abimeleque. O sacerdote os incita a vingarem aquela morte e a exterminarem da face da terra os filhos de Israel, mas os filisteus são tomados de terror. Soldados filisteus carregam o corpo de Abimeleque. Um mensageiro palestino traz a notícia de que os israelitas, liderados por Sansão, causam devastação, terror e morte entre os filisteus. Alguns velhos hebreus reunidos na praça cantam um hino de louvor ao Deus de Israel. Sansão reaparece, acompanhado de alguns hebreus. As portas do templo de Dagon se abrem e surge Dalila acompanhada de lindas jovens palestinas que levam nas mãos buquês de flores e, com suaves cânticos, saúdam a chegada da primavera. Dalila começa a empregar suas armas de sedução, dirigindo-se a Sansão: Je viens célébrer la victoire, eu venho celebrar a vitória daquele que reina em meu coração. O ato termina com Dalila cantando uma ária com tal poder de sedução que é muito difícil pôr a culpa em Sansão - quem não se deixaria seduzir? - Printemps qui commence. A ária é plena de um lânguido sensualismo oriental, de forma que, ao terminar de ouvi-la, estamos totalmente embriagados.
Ato II
O vale de Sorec, na Palestina Vê-se à esquerda a habitação de Dalila, com um ligeiro pórtico recoberto de verdejantes folhagens e plantas orientais. Sentada sobre uma rocha, deslumbrantemente vestida, Dalila parece pensativa. A orquestra toca uma música sensual, sugerindo odaliscas dançando nuas. Dalila se preocupa: será que Sansão virá? Será que eu vou poder seduzi-lo? Amour, viens aider ma faiblesse. O Sumo Sacerdote chega para conversar com Dalila. Eles cantam um longo dueto, exprimindo suas preocupações e ansiedades. Ambos estão interessados na destruição de Sansão. O sacerdote oferece à Dalila dinheiro para que ela descubra o segredo da força de Sansão. Ela diz a ele que não se preocupe: seu desejo de vingança já é mais que suficiente. O dueto termina num reverberante pacto de vingança: Unissons-nous tous deux! Mort au chef des hébreux! O sacerdote agora se afasta, para não ser surpreendido por Sansão que já vem chegando. Dalila o cobre de carícias numa ária de resplandecente beleza, Mon coeur s'ouvre à ta voix.
Na conversa com Sansão, porém, ela bate sempre na mesma tecla: "Tu não me amas de verdade, Sansão, porque se tu me amasses, tu me revelarias o segredo da tua força." Quando Sansão nasceu, seus pais fizeram uma promessa ao Deus de Israel: Sansão seria consagrado a Deus, seu cabelo jamais seria cortado. Sansão não pode revelar este segredo a ninguém. O que começou num terno diálogo de amor termina numa discussão violenta: Dalila pede a Sansão que saia de sua presença e não volte mais. Sansão hesita. Voltando-se para Dalila, ele acaba lhe revelando o segredo fatal. Os dois entram na casa. A tempestade, o trovão e o relâmpago açoitam com fúria aquela casa. Assim que Sansão adormece, Dalila abre a janela e acena para uns soldados filisteus que se escondiam na moita. Sansão grita: Trahison!
Ato III Cena 1
Uma prisão em Gaza Cortaram os cabelos de Sansão, o cegaram e o acorrentaram. Nós o vemos atado a uma manivela que move a pedra de um moinho. Ouve-se uma música triste, fúnebre, pesada e angustiada. Vois ma misère, hélas! Vois ma détresse! geme Sansão. Lá fora, ouve-se o coro dos hebreus escravizados, que o recriminam sem parar. Na verdade, é a própria consciência de Sansão que o atormenta.
Cena 2
Interior do templo de Dagom No interior do templo, vê-se uma estátua do deus, semelhante a um peixe, e a mesa dos sacrifícios. No meio do santuário, duas colunas de mármore parecem sustentar todo o edifício. Vemos o Sumo Sacerdote de Dagon circundado de príncipes filisteus e Dalila junto com jovens palestinas coroadas de flores e com taças na mão. O templo está cheio de gente. Cantam um hino em homenagem a Dagon e depois vem o Bacanal, uma peça orquestral muito excitante, um balé em homenagem ao deus dos filisteus. Sansão entra, conduzido por um garoto. A humilhação de Sansão é o ponto alto do espetáculo; Dalila e o Sumo Sacerdote zombam dele. O sacerdote ordena ao garoto que conduza Sansão para o centro do templo, para que todo o povo possa vê-lo. Apoiando-se nas colunas do templo, Sansão faz uma prece ao Deus de Israel: "Permite-me, Senhor, vingar meus olhos aos filisteus!" Jeová ouve-lhe a prece, e lhe restitui a força no último momento da sua vida. O templo desaba, matando Sansão, Dalila, e mais filisteus do que Sansão matou em toda a sua vida."
Cantas a lua cheia, fogosa e vadia, enquanto canto a minguante, nau do infinito, onde debruço anseios que não se definem, paixões que não redimem.
Cantas o sorriso aberto das tardes de sol... Eu seco as gotas da chuva das poças lamacentas, tentando impedir que apodreçam as sementes lançadas, por descuido, em chão estéril.
Cantas a brisa mansa e fresca das velhas madrugadas... E eu sigo, em alvoroço, usando as travas das portas para que o vento forte não quebre meus vasos trincados, nem destrua os muros das minhas defesas.
Cantas o mar em calmaria... Eu tento o rumo entre a fúria das ondas revoltas, sem certeza de alcançar a terra firme, sem previsões de tempo e espaço.
Domas a fera... Eu me escondo em tentativas frustradas, enroscando-me em armadilhas que jamais preparei.
Enterras tuas lágrimas em tumbas faraônicas... As minhas correm a céu aberto, entre pedras e minérios, esperando o calor para evaporarem.
No entanto, nuvens barram a tua lua e eu sigo navegando na minha. Morrem as tuas sementes e as minhas vingam porque não descuidei delas. Cansaste das tuas madrugadas de brisa e eu sorrio dos meus vasos que os ventos não conseguiram mudar de lugar. Morres nas calmarias enquanto meu barco amanhece sob aves barulhentas que me apontam a praia segura. Tua fera amiga te devora enquanto dormes... A minha lambe as minhas feridas. Não encontras tuas lágrimas para tantas dores, mas as minhas continuam a cair, lavando minha alma cicatrizada, que sorri a cada amanhecer. Tu foste! Eu sou! Nada como o depois!
Parada frente al espejo, lentamente voy dibujando la máscara de mi rostro. Le doy una pincelada azul al contorno de mis ojos, para que nadie descubra mi tristeza. Cubro mis ojeras con un tono mate, así no se notará cuan grande es mi pena. Tapo con pinceladas de polvo el rastro que dejaron mis lágrimas. Resalto con rubor rosado suave mis pómulos, con el afán de cambiar mis rasgos. Con la fina punta de un lápiz, delineo mis labios, remarcando la comisura, y me esfuerzo una vez en pintarme la sonrisa de un rosa brillante y nacarado. Cepillo mi cabellera de falso color rubio, necesario para que tapen las canas que han pintado el tiempo y los desengaños. Y lentamente voy dando forma al conjunto de cabellos que terminará como rodete adosado en mi nuca. Unas gotas de perfume en los lóbulos de mis orejas. Me coloco los aros y el colgante. Ajusto el reloj a mi muñeca. Observo que toda mi ropa esté en orden, alisándola con un gesto automático. Acomodo mi chaqueta y tomo mi bolso. Por último me coloco las gafas. Respiro hondo, una vez más... y el aire que exhalo sale como un lamento que intento disimular tarareando.
Un día más en la jungla de cemento. Nuevamente la profesional respetada enfrentará el mundo en donde la has abandonado. Y el dolor será guardado con doble llave, en el último rincón de mi alma, hasta que nuevamente retorne a casa, dejando los tacos en la entrada, iré sembrando chaqueta y bolso, y frente al espejo lavaré mi cara, donde se dibujará tu ausencia y el sentimiento que aun arde en el alma.
As letras desencontram-se das minhas mãos Acenam-me lenços de palavras em silêncio Ignoram a súplica que me habita os olhares. Hoje, meus versos são navios de partida Um trecho de história não vivida.
É como se a caligrafia fosse sombra Cansada de perseguir os mesmos sonhos Talvez por saber que a caneta rabiscará As antigas algemas que dizem da espera E da saudade que insiste em escrever teu nome.
Colho dos lábios da noite um sorriso de giz E nos olhos nublados da folha em branco Há a permanente ausência, a distância Soladas pelos meus dedos zíngaros O mesmo ponto, fim de linha.
Não poderia faltar no Scenarium os cenários urbanos que me encantam, por isso começo homenageando a minha cidade, um cenário de encantos e desencantos como cantei em minha poesia “Rio de Janeiro”.
O destaque do vídeo é ver a paulista Rita Lee louvando as belezas da Cidade Maravilhosa, cantando Valsa de Uma Cidade. Para apreciá-lo melhor, acione a pausa da play list no layout lateral.
Você poderá apreciar também mais três vídeos de encher os olhos e encantar a alma:
Rio Antigo - uma homenagem saudosista do cearense Chico Anysio, na voz de Alcione
Completando a homenagem ao Rio, escolhi um poema do mineiro Drummond, que amou esta cidade mais do que muitos cariocas.
Canto do Rio em Sol (Carlos Drummond de Andrade)
I
Guanabara, seio, braço de a-mar: em teu nome, a sigla rara dos tempos do verbo mar.
Os que te amamos sentimos e não sabemos cantar o que é sombra do Silvestre sol da Urca dengue flamingo mitos da Tijuca de Alencar.
Guanabara, saia clara estufando em redondel: que é carne, que é terra e alísio em teu crisol?
Nunca vi terra tão gente nem gente tão florival. Teu frêmito é teu encanto (sem decreto) capital. Agora, que te fitamos nos olhos, e que neles pressentimos o ser telúrico, essencial, agora sim és Estado de graça, condado real.
II
Rio, nome sussurrante, Rio que te vais passando a mar de estórias e sonhos e em teu constante janeiro corres pela nossa vida como sangue, como seiva -- não são imagens exangues como perfume na fronha ... como pupila do gato risca o topázio no escuro. Rio-tato- -vista-gosto-risco-vertigem Rio-antúrio
Rio das quatro lagoas de quatro túneis irmãos Rio em ã Maracanã Sacopenapã Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho de amorzinho benzinho dá-se um jeitinho do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda como quem do alto do Morro Cara de Cão chama pelos tamoios errantes em suas pirogas Rio, milhão de coisas luminosardentissuavimariposas: como te explicar à luz da Constituição?
III
Irajá Pavuna Ilha do Gato -- emudeceram as aldeias gentílicas? A Festa das Canoas dispersou-se? Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José pastoreando os fiéis da várzea? Soou o toque do Aragão sobre a cidade?
Não não não não não não não Rio, mágico, dás uma cabriola, teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos, teu acordar, um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo o tempo que humaniza e jovializa as cidades. Rio novo a cada menino que nasce a cada casamento a cada namorado que te descobre enquanto rio-rindo. assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas.
"Nova Reunião", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1985.
Desde minha infância, os jardins sempre me emocionaram. Esqueço das horas, quando me encontro dentro de um emaranhado de folhas e flores, independente se um jardim natural ou projetado. Todos me encantam. Todos têm o toque artístico de Deus. Escolhi este belo texto de Rubem Alves pela real simbologia de um jardim.
Jardim
Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos "conhecimento de palavras eignorância da Palavra". A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria.
Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.
O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava, eu encostava a escada no muro e ficava espiando. Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.
Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constroem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!
Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...
Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:
Se, no teu centro um Paraíso não puderes encontrar, não existe chance alguma de, algum dia, nele entrar.
Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:
"No mistério do Sem-Fim, equilibra-se um planeta. E, no planeta, um jardim, e, no jardim, um canteiro: no canteiro, urna violeta, e, sobre ela, o dia inteiro, entre o planeta e o Sem-Fim, a asa de urna borboleta."
Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso." (O retorno eterno, p 65).
A garota da esplanada Sentou-se frente a mim, numa esplanada. E num gesto lascivo, lento e lindo, As pernas, pouco a pouco, foi abrindo Até ver-se a calcinha avermelhada. Estava distraída, relaxada, Uma madeixa o rosto lhe cobrindo, Era a expressão mais pura do divino Por minha inconsciência profanada. Meu pensamento é um depravado Por um gesto bonito, descuidado, Perdeu-se em rubras quebras de juízo, Só porque aquela imagem de beleza, Sentada ali em frente à sua mesa, Era toda a visão do Paraíso.
Retrato de Machado de Assis, 1905 Henrique Bernardelli (Brasil, 1858 – 1936) Óleo sobre tela - Academia Brasileira de Letras, RJ A Carolina Querida, ao pé do leito derradeiro Em que descansas dessa longa vida, Aqui venho e virei, pobre querida, Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Que, a despeito de toda humana lida, Fez a nossa existência apetecida E num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, - restos arrancados Da terra que nos viu passar unidos E ora mortos nos deixa separados. Que eu, se tenho nos olhos malferidos Pensamentos de vida formulados, São pensamentos idos e vividos.
O soneto, intitulado "A Carolina", faz parte do livro "Relíquias de Casa Velha", publicado em 1906, e foi o último escrito pelo autor. O também escritor Manuel Bandeira destacou este poema como uma das peças mais comoventes da literatura brasileira, de acordo com o “Almanaque Machado de Assis”.
O livro “Toda Poesia de Machado de Assis”, de Cláudio Murilo Leal, que reúne pela primeira vez toda a obra poética de Machado de Assis, apresenta o poema e traz um breve comentário.
“Carolina Augusta Xavier de Novaes e Joaquim Maria Machado de Assis casaram-se no dia 12 de novembro de 1869 e viveram uma plácida e amorosa vida conjugal durante 35 anos. A morte da esposa, em 1904, deixa Machado abatido e queixoso. Em carta a Joaquim Nabuco, datada de 20 de novembro do mesmo ano, escreve, lamentando-se: "Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo."
Em 1906, depois de terem sido publicadas as Poesias completas, o poeta escreve seu mais pessoal e profundamente sofrido poema, um verdadeiro réquiem, intitulado "A Carolina". Talvez, para não demonstrar vestígios de um sentimentalismo piegas, Machado elege uma forma poética que reverencia também, sutilmente, o tom e a textura camonianos. Essa aproximação estilística à linguagem castiça, que renova, mais do que copia, no século XX, o sabor do verso quinhentista, foi observada por J. Mattoso Câmara, no ensaio "Um soneto de Machado de Assis".
Ao lado de conhecidos poemas como "Círculo vicioso" e "A mosca azul", o soneto "A Carolina" é considerado a mais comovente pedra de toque da obra poética de Machado de Assis.
No ano de 2006, comemorou-se o centenário de "A Carolina", publicado pela primeira vez no livro Relíquias de casa velha, soneto que não foi recolhido em algumas edições das poesias completas.”
Fonte: FolhaOnline
Curiosidade
O Jornal do Comércio publicou um interessante artigo do jornalista Antonio Gonçalves Filho sobre os escritores brasileiros mais citados por 55 tradutores, professores e bibliotecários de 19 diferentes países. E para surpresa dos organizadores do projeto, “Conexões Itaú Cultural – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira”, que encomendou a pesquisa, contrário à expectativa de que Paulo Coelho seria o escritor contemporâneo mais citado, foi o gaúcho Moacyr Scliar, quem surpreendeu.
Os dez escritores mais citados pelos especialistas estrangeiros consultados na pesquisa realizada pelo Itaú Cultural são os seguintes:
1- Machado de Assis 2- Clarice Lispector 3- Guimarães Rosa 4- Graciliano Ramos 5- Jorge Amado 6- José de Alencar 7- Manuel Bandeira 8- Moacyr Scliar 9- Rubem Fonseca 10- Drummond de Andrade.
Jornal do Comércio, 29 de maio de 2009, Caderno C, página 5.
Fazer amor é coisa séria demais... Não basta um corpo e outro corpo, misturados num desejo insosso, desses que dão feito fome trivial, nascida da gula descuidada, aplacada sem zelo, sem composturas, sem respeito, atendendo exclusivamente a voracidade do apetite.
Fazer amor é percorrer as trilhas da alma, uma alma tateando outra alma, desvendando véus, descobrindo profundezas, penetrando nos escondidos, sem pressa, com delicadeza... porque alma tem tessitura de cristal, deve ser tocada nas levezas, apalpada com amaciamentos... até que o corpo descubra cada uma das suas funções.
Quando a descoberta acontece é que o ato de amor começa. As mãos deslizam sobre as curvas, como se tocando nuvens, a boca vai acordando e retirando gostos, provando os sabores, bebendo a seiva que jorra das nascentes escorrendo em dons, é o côncavo e o convexo em amorosa conjunção.
Fazer amor é Ressurreição! É nascer de novo: no abraço que aperta sem sufocamentos, no beijo que cala a sede gritante, na escalada dos degraus celestiais que levam ao gozo.
Vale chorar, vale gemer... vale gritar, porque aí já se chegou ao paraíso, e qualquer som há de sair melódico e afinado, seja grave, agudo, pianinho... há de ser sempre o acorde faltante quando amantes iniciam o milagre do encontro. Corpos se ajustaram, almas matizaram... Fez-se o Êxtase! É o instante da Paz... É a escritura da serenidade! E os amantes em assunção pisam eternidades!
(Texto atribuído a um Frei do Colégio Santo Agostinho)
Tenho este texto guardado há algum tempo e pra mim é uma das descrições mais perfeitas de um ato de amor carnal; é pura poesia. Tenho dúvidas quanto à autoria do texto, que é atribuída a um Frei do Colégio Santo Agostinho. Fiz pesquisas cansativas, é um texto publicado em vários sites e blogs, mas esbarrei na mesma informação que está aqui. Caso alguém tenha outra informação sobre a autoria, por favor, é só deixar um recadinho nos comentários.
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