quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Anayde Beiriz



“A altivez é o traço predominante do meu caráter, porém minha mágoa mais dolorosa é saber-me impotente para vencer meu destino.”

Poetisa e professora, Anayde Beiriz, escandalizou a sociedade conservadora paraibana na década de 30 com seu estilo vanguardista. Participava dos movimentos intelectuais e se declarava a favor da liberdade e da autonomia feminina. Posteriormente, a ela coube a metáfora de Peregrina da Liberdade.

“Eu possuo essa impetuosidade despreocupada e desinteressada dessa raça mestiça de que descende minha família paterna, também possuo, num grau tão alto como ninguém talvez possui, a altivez e o orgulho dessa raça de sertanejos a que pertence a minha mãe [...].”

Além de ser uma mulher emancipada, Anayde perturbava os moralistas com o uso de roupas decotadas, maquiagem e corte de cabelo “à la garçonne”. Defendia a participação das mulheres na política, numa época em que elas ainda não podiam votar.

“Elevemos a mulher ao eleitorado (...). Em vez de a conservarmos nesta menoridade convidemo-la a colaborar com o homem na oficina política.” (Anayde, apud Joffily, 1840:43)

Passou a escrever em pequenos jornais e revistas e se destacou como a primeira mulher na imprensa alternativa paraibana identificada com o movimento modernista. Lírica, com uma imaginação criadora marcadamente evadindo-se rumo ao sonho, ela escreveu:

“Eu escrevo para criar um mundo no qual possa viver. Procuro criar um mundo como se cria um determinado clima, uma atmosfera onde eu pudesse respirar.
Devemos conquistar nossa força e edificar nossos valores com base no desenvolvimento pessoal e na descoberta de nós mesmos. Contra as desigualdades, as injustiças [...].”


E acrescenta, voluntariamente exilada na produção literária, não apenas em texto acabado, estruturado definitivamente, sobretudo gerador de sentidos:

“Se você não respira quando escreve, não grita, não canta, então sua literatura será limitada. Quando não escrevo, meu universo se reduz, sinto-me numa prisão. Perco minha chama, minhas cores. Escrever para mim é uma necessidade.”

Anayde não era afeita às convenções no que tange a relacionamentos amorosos e foi um destes relacionamentos, com João Dantas, que a fez entrar para a história. Segundo Marcus Aranha, em seu livro “Panthera de Olhos Dormentes”, o grande amor da poetisa foi Heriberto Paiva, conclusão do escritor, após pesquisa em material fornecido pela família de Anayde.

Em meados de 1924 conheceu o paraibano Heriberto Paiva, a quem chamava de Hery, um ano mais novo que ela, filho de abastado comerciante, estudante de medicina no Rio de Janeiro. O namoro foi rejeitado por parte da família dele, tornando a paixão proibida em uma intensa paixão avassaladora, onde os enamorados trocavam cartas repletas de uma verdade doce e envolvente, revelando um misto de romantismo e ousadia. O romance findou em 30 de agosto de 1926.

“(...) O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentidos, que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela altura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade... E eu não quero amar, não quero ser amada assim... Porque quando tudo estivesse findo, quando o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; nem a saudade faria reviver em nossos corações a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual tínhamos sonhado eternos.
Mas não me julgues por isto diferente das outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade primitiva, desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida, nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas da inteligência, da vontade, superiormente dirigida pela delicadeza inata dos sentimentos ou pelo poder selético e dignificador da cultura.
Não amamos num homem apenas a plástica ou o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, as mulheres, não temos meio termo no amor; não amamos as linhas, as formas, o espírito ou essa alguma coisa de indefinível que arrasta vocês, homens, para um ente cuja posse é para vocês um sonho ou raia às lides do impossível. Não, meu Hery, não é assim que as mulheres amam. Amam na plenitude do ser e nesse sentimento concentram, por vezes, todas as forças da sua individualidade física ou moral.
É pois assim que eu te amo, querido; e porque te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-te que sejas paciente. O tempo passa lento, mas passa...
...E porque ele passa, e porque a noite já vai alta, é-me preciso terminar.
Adeus. Beija-te longamente, Anayde”

Em 1928, Anayde iniciou um relacionamento amoroso com João Dantas, político local ligado ao Partido Republicano Paulista, que fazia oposição ao então Governador do Estado da Paraíba, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Depois do violento confronto político que foi chamado República de Princesa, João Dantas acabou se refugiando no Recife, mantendo o relacionamento com Anayde à distância, através de cartas.

João Pessoa, acuado pelos adversários, reagiu e mandou a polícia revistar as casas dos revoltosos e suspeitos, em busca de armas que pudessem ser utilizadas em uma revolta armada. Um desses locais foi o escritório de João Dantas na cidade da Paraíba, invadido em 10 de julho de 1930. Embora não tenham sido encontradas armas, os policiais depredaram as instalações e arrombam o cofre, onde foi encontrada a correspondência de Dantas, inclusive cartas e poemas de amor recebidos de Anayde.

Visando atingir a honra de Dantas, o conteúdo de toda a correspondência furtada foi publicado nos órgãos de imprensa estadual ligados à situação.
Em 26 desse mesmo mês, João Dantas, acompanhado de um cunhado, Augusto Caldas, entra na Confeitaria Glória, no Recife, e dispara contra o peito de João Pessoa, matando-o. Lavava, com esse gesto, a sua honra ofendida.

Criticada publicamente por razões morais e políticas, Anayde sentiu-se acuada após o assassinato de João Pessoa. Desse modo, abandonou sua residência na Paraíba e foi morar em um abrigo no Recife, onde passou a visitar João Dantas, detido em flagrante e recolhido à Casa de Detenção naquela cidade.

Dantas foi encontrado morto em sua cela, degolado, em 3 de outubro do mesmo ano, no início da Revolução de 1930. Embora, à época, tenha sido declarado suicídio como causa mortis, as circunstâncias ainda permanecem obscuras.

Anayde veio a falecer dias depois, aos 25 anos de idade, supostamente também por suicídio, provocado por envenenamento, quando sob os cuidados de freiras. O seu corpo foi sepultado como indigente no Cemitério de Santo Amaro e sua memória foi renegada durante anos pelos paraibanos. Sua imagem só se tornou emblemática quando foi eleita como uma das personagens míticas da história do Brasil, pelo movimento feminista.

“Nasci
Nasceu
Cresceu
Namorou
Noivou
Casou
Noite nupcial
As telhas viram tudo
Se as moças fossem telhas não se casariam”

A memória de Anayde foi resgatada principalmente após a publicação do livro de José Jofilly, intitulado “Anayde – Paixão e Morte na Revolução de 30”. Aproveitando o centenário de nascimento da poetisa em 18 de fevereiro de 2005, o médico e escritor Marcus Aranha lançou o livro “Anayde Beiriz – Panthera dos Olhos Dormentes”, onde ele se propôs a desfazer a detratação mítica feita com a poetisa paraibana: “Sem que tenha cometido quaisquer crimes, sem que sobre ela pesasse nenhuma acusação, Anayde Beiriz foi condenada a primeira vez como prostituta de João Dantas pela Aliança Liberal em 1930, tendo seu nome execrado e expurgado da consciência de quase toda uma geração. Em 1983, por obra e graça de Tizuka Yamasaki (diretora do filme "Parahyba, mulher macho"), Anayde foi condenada mais uma vez, também como libertina e prostituta debochada".

Em seu diário, Anayde escreveu:

“... Os meus amigos que escrevem nos jornais que também escrevo, chamam-me PHANTERA DOS OLHOS DORMENTES... Sabes por que? Porque dizem que nos meus contos sempre ponho uma mancha de sangue e porque gosto de tudo o que é vermelho...
Crêem eles que sou trágica, que gosto desse amor que queima, dessa paixão que devora, dessa febre amorosa que mata...”


Heriberto passou a chamá-la também de “pantera”, desde que ela lhe escreveu:

“A pantera é bem humana, não é verdade, amor? Mansa, dócil, amorosa, em se tratando de ti; mas, para os outros, eu queria poder esmagá-los, a todos… Contudo, gostei desse título de fera que eles me deram; escrevi um conto com esse nome e enviei-o para a ‘Tribuna do Pará’. Creio que brevemente será publicado”.

“De uma carta que te escrevi e não te enviei
(as partes em colchetes estão danificadas no material origem)

Não Eu não hei de chorar [...]
Tu me conheces bem pouco. Por isto é que me falas em lágrimas.
Só os desesperados é que choram e eu continuo a esperar [...]
Pouco se me dá saber da tua nova paixão [...]
É tão vulgar a existência de outra mulher no destino do homem que a gente deseja [...]
E, bem sabes, no amor, como em tudo, apenas me seduz a originalidade [...]
A razão por que gostei de ti?
Porque pensei que tu eras louco [...]
Tive sempre a extravagância de achar deliciosos os loucos que julgam ter juízo [...]
Desiludiste-me afina!
[...] E é tão desinteressante um homem ajuizado que finge de louco [...]
Dizes que me procurarás esquecer. Ingênuo!
Desafio-te a que o consigas [...]
As marcas das minhas carícias não foram feitas para desaparecer facilmente [...]
Mil outros lábios que se incrustarem na tua boca não arrancarão de lá a lembrança da minha [...]
Mas, se ainda assim, o conseguires, a tua vitória não será duradoura.
Não há vantagem em esquecermos hoje o que temos de lembrar amanhã [...]
Apraz-te que eu guarde os meus beijos [...]
Guarda-los-ei, por enquanto.
Advirto-te, porém, que os beijos são como os vinhos raros, quanto mais velhos, Melhor embriagam [...]
Enganas-te se pensas que entre nós dois tudo está terminado [...]
Se agora é que começou [...]
A nossa história, hoje, está bem mais interessante [...]
E tu fizeste para mim, muito mais desejado [...]
Porque tenho que te arrancar do domínio de outra mulher [...]
No entanto, eu já não te amo [...]
Admiro os homens fortes e tu és um covarde: Tens medo do meu amor. Receias o delírio febril do meu desejo, a exaltação diabólica do meu sensualismo, a impetuosidade selvagem da minha volúpia [...]
Sonhar um afeto simples, monótono, banal [...] Um afeto que toda mulher pode dar [...]
Tu, um artista!
Fazes bem em procurá-lo distante de mim
O meu amor é bem diferente: é impulsivo, torturante, estranho, infernal [...]
Ouve, contudo, o que te digo: hás de experimentá-lo ainda uma vez [...]
Então veremos quem de nós dois chorará [...]

“Muitas atitudes minhas, incompreensíveis aos olhos desses fariseus por aí, vinham do angustioso recalque dos ímpetos de minha alma e da obrigação em que estava de dizer pela metade, aquilo que eu poderia dizer totalmente.”
(Lima Barreto, conforme citação de Anayde Beiriz)

Fontes:
Wikipédia
Memorial Pernambuco
Revista O Viés
ClicRN

Retrato de Anayde, óleo sobre tela por Priscila Holanda, Prisca.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Álvares de Azevedo



Minha Desgraça

Minha desgraça não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco...
E, meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...

Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera) é o dinheiro...

Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que meu peito assim blasfema,
É ter por escrever todo um poema
E não ter um vintém para uma vela.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ivan Martins



Solidão contente
O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas

Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.

Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.
Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo!



Tempo
Olavo Bilac

Sou o tempo que passa, que passa

Sem princípio, sem fim, sem medida!
Vou levando a ventura, e a desgraça,
Vou levando as vaidades da vida!

A correr, de segundo em segundo,

Vou formando os minutos que correm...
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que passam e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos...

Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos
Formo um século e passo adiante.

Trabalhai porque a vida é pequena,
E não há para o tempo demoras!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!

Queridos amigos, vamos aproveitar o tempo da melhor maneira possível, cultuando o amor e a amizade, plantando as sementes da esperança e da fé num mundo melhor, distribuindo solidariedade, caminhando lado a lado com a ética e a justiça, exercendo a paz, preservando a natureza, acreditando em um alvorecer sem fome e indigência e acima de tudo dando valor ao nosso bem mais precioso: a vida.
Obrigada a todos que estiveram neste palco de emoções, atuando ou assistindo. Que no novo ano possamos continuar juntos, mantendo sempre acesa a nossa luz interior.
Feliz 2011!
Marise Ribeiro

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Gilda Haubert



Espírito de Natal

Estava eu no burburinho daquela rua, comprando presentes para o Natal, mas sentia-me vazia...
Porque presentes de Natal para quem tem tudo?
Não falta lar, não falta comida, não falta roupa, não falta nem felicidade!
Mas mesmo assim pensando, continuo. Compro presentes de Natal para meus filhos, meus amigos, para quem eu quero bem ou devo favores, coisas assim...
Gasto rios de dinheiro, canso meus pés e já sinto a hora de voltar para casa quando passo em frente de uma igreja.
Passar defronte de uma igreja me causa algum impacto, pedaços da infância que me voltam à mente! Mamãe me levava à igreja e dizia ali morar o Papai do Céu. Vamos fazer-lhe uma visita? Vamos agradecer a Ele tudo o que temos e somos. E entrávamos de mãos dadas, numa atitude de respeito nos benzíamos, nos ajoelhávamos e rezávamos:Pai Nosso, que estais no Céu...
E, recordando tudo isso é que, ao passar defronte daquela igreja, senti vontade de entrar. Não posso definir bem o sentimento que me levou a fazer esta visita ao Pai do Céu, mas entrei... e repeti o ritual, me benzi, me ajoelhei e comecei a rezar...não mais aquela reza de criança Pai Nosso que estais no céu...
Não queria mais o Pai no céu, eu O queria ali, bem perto de mim, pois com Ele por perto, as coisas mudariam... Por isso eu precisava Dele ali ao meu lado. Queria senti-lo bem próximo, tanto que até pudesse tocá-lo, se quisesse...
E continuei a rezar minha reza improvisada. Eram quase só pensares o que povoava minha mente e inquietava minha alma...
Mas, continuava sozinha naquela igreja silenciosa. Rezei, pensei, pensei... Rezei, pedi, pedi saúde para os meus, proteção e forças para seguir minha jornada e me preparei para sair.
Olhei mais uma vez para o Menino Jesus que estava nos braços de sua Mãe Maria naquele altar bonito! Ele era loiro, cabelo cacheado, acho que olhos claros..
E eu queria tanto que o Pai do Céu estivesse ao meu lado...
Dirigi-me à porta, silenciosa, cabeça baixa, ainda pensando no Jesus Menino tão singelo nos braços de sua Mãe Maria, quando nos degraus vi um menino estendendo a mãozinha para receber um troquinho...
Ele era loiro, cabelos cacheados e olhinhos claros talvez e eu queria tanto o Pai do Céu perto de mim que olhei novamente para aquele altar...
E Maria estava sem seu Filho nos braços...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Anna Peralva




Se Possível, Eu Queria...

Queria...
Ah, como eu queria!...
Ver fagulhas-brilhos luzindo
num crescente límpido manancial,
a luz mansa que transforma
apartando as forças do mal!
Queria, em gotas de emoção
o farol cristalino que alumia
corpo, alma e coração!

A pureza no olhar criança
aclarando almas arredias
oprimidas pela solidão!
O sorriso de amizade correndo
nas vestes de um novo tempo
e olhos-águas santas
lavando passados e tormentos.
A verdade em palavras mansas,
a paz laços-abraços construindo
num entrelace de mãos!
Ver, sentir a fé-força renascendo
orvalhada de esperança
nos votos castos da oração.

Queria de uma só vez
a vida sem faz de conta!
O Jesus Menino humilde
distanciando toda a altivez
trazendo floradas de harmonia
entre os povos do mundo
e a irmandade refletindo
qual milenar lampião.
Dos profundos mares fundos
a serenidade que aponta
em ondas suaves e diáfanas
o emergir da união!

Uma alvejada calmaria
da Terra Mãe fluindo
e a felicidade, elevando-se
às alturas atingindo.
Um clarão de bênçãos
fertilizando o nascer do dia.
No ventre de uma nova realidade
a bondade ressurgindo
sem mantos de vaidades.

Ainda, se fosse possível
eu queria:
mais homens e menos deuses!
O ser humano evoluindo
em sua espiritualidade
e altares falsos ruindo!
Queria mais chão floreado
e menos asfalto frio,
sombreado...
Uma estrada mais florida
de justiça e igualdade
a divina sabedoria
traçando nossa caminhada!

Que o eterno aprendiz “ser”
sempre soubesse
nas horas reconstruídas
a precisa valia
do seu desenvolvimento.
E que o querer ter
fosse o necessário
para se poder viver
dignamente,
sem distinção de criatura!

Que a liberdade
não tivesse correntes!
Que o real sentido da Natividade
estivesse intenso e presente
em todos os nossos dias.
Que o livre-arbítrio
não se descompassasse
trazendo atritos
à matéria fraca e sensível
pois não há quem não passe
nesta viagem de aprendizado.

Queria uma chama silente,
alva, como as claras manhãs
sussurrando todos os dias:
É NATAL!

E o amor, sentimento maior
acordando os amanhãs
num encanto sem igual!
Magia que se torna acessível
no perdão a ser conferido
no abençoar e ser abençoado
e agradecer sempre,
sem pressa para as preces!

É NATAL!
Não mais existe
sonho impossível!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Euriano Sales



O Nascimento de Jesus. Um Cordel Sobre o Natal

Dos doze meses do ano

O de dezembro é o mais bonito
Todo mundo prega a paz
Confraternizam em nome de Cristo
Mas ai daquele que não der um presente
Pode gerar até um conflito

É verdade, é assim que acontece
E por favor não me interprete mal
Pois esse mês tão lindo que eu disse
Também é o mês mais comercial
Nascimento de quem? Jesus?
Eu quero é meu presente de natal

Ninguem lembra do começo de tudo
Mas pode deixar, vou refrescar sua memória
Há muito tempo, lá em Belém
Deu início a essa bela história
Do verdadeiro dono da festa
Digno de toda honra e glória

Houve um período na história
Que Deus se calou pro seu povo
Foram cerca de 400 anos
Até surgir um profeta novo
O nome dele seria João
Responsável por esse renovo

Zacarias era um homem bem velho
E Isabel também bem veinha
Ter um minino nessa altura do campeonato
Só podia ser piada de vizinha
Mas como Deus não é homi de piada
Fez nascer justo de onde não vinha

Gabriel, o arcanjo do Senhor
Disse a Zacarias que ele ia se papai
O homi se espantou com aquilo
E disse que não, jamais
Gabriel olhou e disse pra ele:
Tu pensa que eu sou anjo paraguai?

Eu sou é servo de Deus
Que mandou esse recado trazer
Mas como você tá duvidando
Se prepare pro que eu vou fazer
Vai ficar sem falar uma ruma de dia
Até o minino nascer

E assim foi o acontecido
Isabel, bem veinha, embuchou
Zacarias continuava mudo
Mesmo assim a Deus adorou
A mulher já tava com seis meses
Quando o anjo do céu retornou

Mas dessa vez bateu noutra porta
Na de Maria, prima de Isabel
Ela era uma moça bem jovem
Abençoada por Deus, mulher fiel
Ele disse que ela ia ter um minino
Jesus, o nazareno, o Emanuel

Por ser virgem ela achou impossível
Mas não quis do senhor duvidar
Já José, seu noivo na época
O casamento ele quis cancelar
Mas o anjo explicou tudinho
E José se apressou pra casar

Deus quando fala, fala é direito
E toda promessa Dele é confirmada
Esse negócio que o Senhor mandou dizer
Sem confirmação é tudo furada
Tu acredita que Deus confirmou ainda mais
A promessa que já foi aprovada?

Maria foi visitar Isabel
E na chegada a cumprimentou
Isabel quando viu Maria
O minino no bucho balançou
Sabia nem que a outra tava gravida e disse:
Acredite Maria, no que o anjo falou.

Isabel teve o minino
E o povo doido pra saber o nome
Disseram pra por Zacarias Filho
Ela disse que era João e batista o sobrenome
Eles insistiram em chamar Zacarias
E o pai sem falar, escreveu sem cognome

Cognome é o mesmo que apelido
Ele escreveu bem direitin o nome de João
Poderia ter escrito Joazin
Mas o anjo não tava de brincadeira não
Zacarias voltou a falar
E essa história correu a região

Naquela época também tinha IBGE
Que contava o tamanho da população
Mas se eu sou do ceará e morava em alagoas
A contagem não valia não
Tinha que voltar pra minha terrinha
E me apresentar ao escrivão

Foi numa dessa que nasceu Jesus.
José e Maria moravam em Nazaré
Foram a Belém pra tal contagem
150 kilômetros de viajem a pé
O jumentinho era só pra Maria
Coitado dos pés de José

A cidade tava lotada
Não tinha vaga em nenhuma pensão
O minino se aprontou pra nascer
Maria já tava com um barrigão
Correram pra uma estrebaria
E cadê ter médico de plantão?

Jesus nasceu ali mesmo
Simples como devemos ser
Não teve médico, nem enfermeira
Mas Deus assim quis fazer
Pra servir de lição para muitos
Que querem tanto aparecer

Deus se encarregou da Festa
Teve até chá de bebê
Fez nascer no céu uma estrela
Para que todos pudessem ver
Que ali nasceu o minino
Que por nós irá vencer

Três pastores ao ver a estrela
Se perguntavam o que era aquilo
O Anjo de Deus foi até eles
E disse: Rapaz, fique tranquilo
Nasceu o Rei de vocês
Vão lá visitar o pupilo

Os homens pensaram em palácio
E foram até o Rei Herodes
O perguntaram pelo rei que nasceu
- Que rei? Se eu sou o lorde?
O cabra ficou enjuriado
E Chamou o sacerdote

Me diga onde vai nascer o Messias
E fale logo que eu tô aperriado
Responderam que era em Belém
O cabra ficou agoniado
Chamou os pastores pra conversa
E mentiu bem descarado

Vão até lá e achem o minino
Depois voltem pra cá
Quero que me digam direitinho
Onde o Rei pode estar
Pois também quero ir
Me prostar e adorar

O pastores sairam dali
Acreditando que era verdade
O anjo de Deus os guiou
Há uma certa maternidade
Onde nasciam os cavalos e bois
Dos homens daquela cidade

Sentiram a presença de Deus
E choraram aqueles pastores
Quando viram o minino ali

Sem luxo, riqueza e valores
Estava ali o Rei dos Reis
Príncipe da paz, senhor dos senhores


O chá de bebê de Jesus
Aconteceu naquele momento
Ao invés de fralda tinha ouro
De chupeta tinha incenso
Foi dado até um pote de mirra
Como forma de agradecimento

Deus disse pra eles em sonho
Pra mudarem o caminho da volta
Pois Herodes estavam esperando
Armado com sua escolta
A fim de pegar o minino
E fazer uma reviralvolta

Deus disse também a José
Pro Egito ele fugir
Pois o rei ia matar
O bebê nascido ali
Jesus o nazareno
Descendente de Davi

Do Egito eles foram
Conforme disse a profecia
Para a terra de Nazaré
Onde ele cresceria
Foi batizado por João
O filho de Zacaria.

Essa sim é a história
Que todos devemos lembrar
Que eu saiba Jesus não era gordo
E de trenó não costuma andar
E foi dele o maior presente
A salvação que vamos herdar

Isso mesmo, a salvação
Está guardada pra você
Basta olhar pra Jesus Cristo
E entregar o seu viver
Ele é o grande Deus
Pra você servir e crer

Caso queira assistir ao vídeo sobre o cordel, é só clicar na imagem.

Fonte: Cordel Cristão , do autor Euriano Sales

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fluminense - Tricampeão Brasileiro 2010



Parabéns ao meu querido tricolor! Parabéns ao time de guerreiros!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Laurel, Hardy e Santana



Aprecie o encontro dos geniais Laurel e Hardy com o também genial músico Santana, em mais uma ótima montagem virtual.
É só clicar na imagem e se deixar levar por Oye Como Va.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Clarice Lispector



Amor à Terra

Laranja na mesa.

Bendita a árvore
Que te pariu.

sábado, 27 de novembro de 2010

Paz ao meu Rio de Janeiro

Aproveito o emocionante vídeo de lançamento da campanha Carinho de Verdade, do SESI, contra a exploração sexual de menores, para rogar pela paz na minha Cidade Maravilhosa.
Não se esqueça de dar pausa na play list musical do blog.
Caso você queira saber mais sobre a campanha, clique aqui.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Angela Lara



Bordado

Hoje tenho falhas na alma
nos dentes
na memória
Todos em falsetes
felizes e sorridentes
por terem me trazido até aqui

Hoje tenho marcas
que nem poderia dizer
são fundas
são frias
me ajudam a entender
que o amor é difícil
o amor é pra quem quer receber

Tenho marcas que nenhuma
mão consegue apagar

todas desenhadas com alegria
bordadas em renda fina
e rasgadas ao amanhecer
Tenho um cio que confunde a alma
transcende a calma
e me impede de morrer...

© Angela Lara
Porto Alegre (RS) – Brasil


Conheça a sensibilidade de Angela Lara, visitando–a em sua página no Recanto das Letras.

sábado, 20 de novembro de 2010

Ceres Marylise



Memória Genética
(Uma história verídica)

De portas, janelas, varandas enormes,
um tal casarão, de cômodos tantos,
propõe-me um pungente e triste encontro
com o que fui um dia, também ser humano,
mas traste inútil, nos tempos de antanho.

Num quarto imenso, lúgubre, escuro,
do fundo da casa, perto dos currais,
estão sepultados os mortos no tronco,
os negros escravos, pobres, indefesos,
tão brutalizados quanto os animais.

Próximo à cozinha, meio apodrecido,
ainda resiste um tronco com argolas:
grosso pelourinho, cravado no chão
de terra batida do que foi senzala,
guarida de escravos, nos idos de outrora.

Por longos instantes, ali eu reflito
e escuto os lamentos dos meus ancestrais:
vieram de longe arrastando negros,
arrastando índios, arrastando brancos;
genes milenares - trago os seus sinais.

No silêncio do tempo, com voz alquebrada,
ressoa mais forte, aquela mais triste...
delata a presença de todo um passado
de dor, inclemência, cruel, desumano
- do negro que sofre e ainda resiste.

Quantas espadas perfuraram os seus peitos?
Quantos braseiros queimaram seus corpos sãos?
Quantos chicotes rasgaram corpos inteiros?
Quanto sangue jorrou forte e indefeso,
enriquecendo aos senhores e às nações?

Inconformada, infeliz, rio como louca...
e parece que ouço o zunir dos chicotes,
o arrastar de correntes e infinitas dores,
presentes na alma, na carne e no sangue
- memória genética: escrava e senhora!

© Ceres Marylise

Nota da autora: O casarão colonial que se vê no filme ABRIL DESPEDAÇADO, com o ator Rodrigo Santoro, fez parte de minhas adolescência e juventude. A fazenda Santa Bárbara, município de Caetité-BA, foi do Barão de Caetité e com sucessivas posses, chegou a ser parte de minha herança. Hoje, ela é tombada pelo Patrimônio Histórico.

No Dia da Consciência Negra, o Scenarium presta uma homenagem àqueles que, mesmo espoliados, ajudaram a construir o nosso País. Os negros, trazidos da África como escravos, contribuíram na formação da cultura nacional. Além de ser um dia em homenagem à cultura afro-brasileira, é um dia de reflexão, para que construamos uma sociedade mais justa, com oportunidades e direitos iguais a todos.
Agradeço à Poeta Ceres Marylise e à artista e formatadora Denise Moura por autorizarem a publicação de suas criações.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Daysi Duarte



Perdoa...

Perdoa se te amei tão docemente
Que nem mesmo de amor eu te falei.
Na memória te fiz sempre presente
De tal forma que sempre te lembrei.

Perdoa se te amei tão mansamente
Que chegaste a pensar que não te amei.
Foi manso o meu amor, mas foi ardente,
De tal forma que aos poucos me abrasei.

Perdoa se te amei tão loucamente,
E tanto amor aos olhos te ocultei.
Perdoa se te fiz sempre presente
À memória e aos olhos, vivamente,
...E brandamente me afastei.

© Daisy Duarte
Visite Daysi em Sonhos e Saudade

Imagem: Designs by Daiva

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Elvis Presley e Martina McBride



Em 2008, quarenta anos depois da gravação original de Blue Christmas, na interpretação de Elvis Presley, a tecnologia uniu, no mesmo palco, Elvis e Martina McBride.

A entrada em cena de Martina, a reação do público, a sincronia do dueto e até a olhada dos dois, ao final do show, fazem desta montagem um espetáculo maravilhoso.

É só clicar na imagem dos dois e se transportar a 1968 ou, se preferir, a 2008. Depois é só clicar aqui, para saber como tudo foi feito.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Marise Ribeiro - Aviso das Bruxas?



Aviso das Bruxas?

October 31 – dia em que se comemora o Halloween, nos EUA, tradição cultural que nosso país tenta importar e eu me pergunto sempre: Por quê?

Encontrava-me em Manhattan, um dos distritos da cidade de Nova Iorque, no dia 31 deste ano e, por motivos alheios à minha vontade, em vez de participar da nossa festa democrática no 2º turno do pleito eleitoral, aproveitei o “exílio”, para entender o que representa o tão badalado Dia das Bruxas norte-americano.

Estive em Nova Iorque em outras oportunidades, mas nenhuma delas no dia dessa celebração.

No final da semana anterior, havia estado na Filadélfia, Pensilvânia, visitando minha irmã e meu cunhado, residentes daquela cidade. Vi alguns jardins ornamentados com abóboras, fantasminhas feitos com panos brancos ou com sacos de lixo pretos, teias industrializadas que mais pareciam algodões desfiados e alguns espantalhos. Entretanto, bem menos residências enfeitadas do que a quantidade criada pela minha expectativa. Casas assim significam portas abertas à distribuição de guloseimas.
Lá, segundo minha irmã, a data é festejada pelas crianças e pelos jovens que, fantasiados ou mascarados, batem apenas nessas casas assinaladas pelos enfeites. Afora a parte decorativa em imóveis e pessoas, é o nosso Dia de São Cosme e Damião.

Na ilha já é um pouco diferente. Em caminhadas pelas ruas nova-iorquinas, inclusive as residenciais, percebi que a decoração se concentra mais em abóboras nas calçadas do que nas casas. Crianças e adultos se fantasiam desde a véspera e vivem o seu cotidiano desse modo, com vestimentas engraçadas, exóticas ou apenas com adereços na cabeça. Trabalham, vão às compras, aos restaurantes..., como se aquelas roupas fossem casuais ou formais.

Para minha surpresa, não me deparei com monstros, bruxas, fantasmas, ou qualquer outra alusão ao terror, nas ruas da grande maçã. Cruzei com vários marios bros, alices, gatinhos, enfermeiras, abelhinhas, dinossauros, fadas, anjinhos, elvis e adereços singelos na cabeça. Resumindo: é um Carnaval pra lá de sem graça!

Uma das origens do Halloween é a de se comemorar o final do verão, porém, nessa data, o Hemisfério Norte já se encontra há um mês e 10 dias, inserido em pleno Outono. E, pra não dizer que não falei de folhas, ressalto o fascínio que me causa o colorido daquela estação lá, na real simbologia da renovação.

Naquela noite de 31 de Outubro, a uma temperatura de 6º C, fazendo um trajeto turístico que gosto de relembrar, subindo a Broadway, cruzando a 59 - rua do Central Park -, para depois descer a Quinta Avenida, voei como uma folha seca, ao sabor do vento gélido, e fui parar no chão. Levantei-me, sacudi a poeira, fiz cara de paisagem primaveril e continuei minha caminhada.

Nenhum sinal de buracos, degraus ou algo que acusasse o desequilíbrio. Será que já estou também no meu outono, despencando silenciosamente, ou teria sido um aviso das bruxas, por não haver apreciado o seu dia?...
Imagem: Bushkill Falls - Pensilvânia
Amigos, estou de volta e espero por vocês.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Irani Genaro



A Cerca

Pobre cerca de tábuas despencadas,
Eu sei por que tu choras, companheira...

Os anos pesam mais do que as ramadas
Ou galhos da rosada trepadeira!

E sempre que chegavam as floradas,
Teu corpo era engolido e, altaneira,
Tão repleta de flores tu ficavas,
Beijando a rama terna e tão faceira!


Tens hoje a alma triste e já sem sonho.

Dor de saudade é ramo assaz medonho
Que agora se debruça sobre ti!


Não te sintas assim injustiçada,

Nem me ralhes, pois eu não sou culpada;
Repare! - Eu também envelheci!

Irani Genaro
Sorocaba (SP) - Brasil

Visite a sensibilidade de Irani Genaro em seu Paraíso

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Federico García Lorca



"Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia. (Federico García Lorca)"


Poeta e dramaturgo, Lorca tem uma obra extensa e admirável, e este blog apresenta uma pequena mostra de uma das suas criações, Sonetos Del Amor Oscuro. A referida obra é composta de onze sonetos, que podem ser lidos em sua totalidade, clicando aqui. Nesta postagem do Scenarium, apresento apenas quatro deles e, pela polêmica em relação às traduções, optei pelo idioma original.

Depois dos poemas, posto um resumo da análise de Antón Corbacho Quintela, editado no site da Agulha – Revista de Cultura, sobre as traduções goianas da obra de Lorca, destacando os comentários aos Sonetos del Amor Oscuro. Para ler o estudo na íntegra, é só clicar no nome da Revista.


Llagas de Amor

Esta luz, este fuego que devora.
Este paisaje gris que me rodea.
Este dolor por una sola idea.
Esta angustia de cielo, mundo y hora.

Este llanto de sangre que decora
lira sin pulso ya, lúbrica tea.
Este peso del mar que me golpea.
Este alacrán que por mi pecho mora.

Son guirnalda de amor, cama de herido,
donde sin sueño, sueño tu presencia
entre las ruinas de mi pecho hundido.

Y aunque busco la cumbre de prudencia
me da tu corazón valle tendido
con cicuta y pasión de amarga ciencia.



Soneto de La Dulce Queja

Tengo miedo a perder la maravilla
de tus ojos de estatua y el acento
que me pone de noche en la mejilla
la solitaria rosa de tu aliento.

Tengo pena de ser en esta orilla
tronco sin ramas, y lo que más siento
es no tener la flor, pulpa o arcilla,
para el gusano de mi sufrimiento.

Si tú eres el tesoro oculto mío,
si eres mi cruz y mi dolor mojado,
si soy el perro de tu señorío.

No me dejes perder lo que he ganado
y decora las aguas de tu río
con hojas de mi Otoño enajenado.



Noche Del Amor Insomne

Noche arriba los dos con luna llena,
yo me puse a llorar y tú reías.
Tu desdén era un dios, las quejas mías
momentos y palomas en cadena

Noche abajo los dos. Cristal de pena,
llorabas tú por hondas lejanías.
Mi dolor era un grupo de agonías
sobre tu débil corazón de arena.

La aurora nos unió sobre la cama,
las bocas puestas sobre el chorro helado
de una sangre sin fin que se derrama.

Y el sol entró por el balcón cerrado
y el coral de la vida abrió su rama
sobre mi corazón amortajado.



El Amor Duerme En El Pecho Del Poeta

Tú nunca entenderás lo que te quiero
porque duermes en mí y estás dormido.
Yo te oculto llorando, perseguido
por una voz de penetrante acero.

Norma que agita igual carne y lucero
traspasa ya mi pecho dolorido
y las turbias palabras han mordido
las alas de tu espíritu severo.

Grupo de gente salta en los jardines
esperando tu cuerpo y mi agonía
en caballos de luz y verdes crines.

Pero sigue durmiendo, vida mía.
Oye mi sangre rota en los violines.
¡Mira que nos acechan todavía!



(...) Os onze Sonetos do Amor Obscuro, escritos entre 1935 e 1936, foram publicados por primeira vez aos 17 de março de 1984, em uma separata do suplemento cultural do diário ABC, de Madri. No momento de sua publicação, não houve entre a crítica literária espanhola nenhuma dúvida em relação ao fato desses sonetos amorosos reafirmarem a genialidade do autor. Porém levantaram-se acirradas polêmicas sobre se eles confirmavam a homossexualidade do poeta. As discordâncias começaram já pelo título que deveria receber a série de poemas. Segundo Ian Gibson (biógrafo de Lorca), não existe documento conhecido em que Lorca aluda aos seus sonetos sob o título geral dos Sonetos del amor oscuro:

a fonte principal no que se refere a essa denominação é Vicente Aleixandre, que a ouviu do próprio Lorca e em 1937 recordou uma leitura privada dos poemas alguns meses antes da morte do autor. Quando ele acabou de ler, Aleixandre exclamou: “Que coração! Como deve ter amado! Como deve ter sofrido!”.

O crítico e editor de Lorca, Miguel García-Posada, acreditou ao resenhar esses poemas que o simples rótulo Sonetos transmitia de forma mais precisa os perfis do projeto poético que Lorca estava desenvolvendo quando foi assassinado, deixando inconcluso seu propósito de compor poesia seguindo uma poética mais classicista, frente à concepção surrealista de Poeta en Nueva York:

¿Y el mítico título de Sonetos del amor oscuro? Diversos amigos de Lorca, desde Aleixandre a Cernuda, lo han mencionado, y sin duda se lo oyeron al poeta. Basta leer el soneto que comienza: ‘Ay voz secreta del amor oscuro...’ ¿Por qué no lo adoptó el autor de modo definitivo? Aquí se entrecruzan dos problemas [...]. El primero afecta al alcance del sonetario proyectado. Por diversos testimonios coincidentes es lícito inferir que el libro en preparación no iba a constar solo de poemas amorosos.

A partir dessa divergência, que também se refletirá nas traduções de Félix de Sousa e Agel de Melo, surge uma outra discrepância. Para Gibson apresenta-se como inegável que o adjetivo “oscuro” [escuro] aplicado por Lorca ao amor tem um sentido manifestamente homossexual. O biógrafo de Lorca baseia-se na análise das vivências do poeta, durante suas estadias na cidade de Valencia, em 1933 e 1935, para relacionar três dos sonetos com dois amigos do poeta. Assim, “Soneto de la carta” e “El poeta dice la verdad” refletiriam as preocupações, a saudade e o descontentamento de Lorca a respeito do seu relacionamento com Rafael Rodríguez Rapún e o “Soneto gongorino en que el poema manda a su amor una paloma” estaria relacionado com a amizade de Lorca com o poeta valenciano Juan Gil-Albert, homossexual assumido que o presenteara com uma pomba engaiolada. Ao contrário do parecer de Gibson, García-Posada , no prólogo da primeira edição completa dos Sonetos, opinou veementemente que o “amor escuro” do poeta andaluz era, simplesmente, um amor secreto, ausente, um amor que mata ou faz morrer. Esse crítico achava, em 1984, que os sonetos de Lorca estavam longe da literatura pederasta e que neles brotava uma conceição cósmica do amor, fruto de um “pan-sexualismo” vinculado à moral do amor, distante da corrupção e da vileza que sujam e prostituem o sentimento amoroso. Vinte anos depois de escrever sua apologia do “pan-sexualismo” lorquiano refletido nos Sonetos, no prólogo à edição da Poesia Completa III, García-Posada abandonou sua alucinada peneira moralista e praticamente contradisse o que anteriormente expusera com irritado tom taxativo. Assim, em 2003 escreveu que foi a relação com Rafael Rodríguez Rapún o que inspirou a série inconclusa dos “sonetos do amor escuro” e que eles são um inequívoco canto de paixão e de temor à perda do amor. Além disso, inseriu o rótulo Sonetos del amor oscuro como subtítulo de Sonetos.

A primeira divergência nas traduções dos sonetos “póstumos” de Lorca localiza-se no título adotado para o conjunto de poemas. Félix de Sousa opta por traduzir o título espanhol Sonetos del amor oscuro como “Sonetos do amor obscuro”. Aliás, ele discerniu que o título “sonetos do amor obscuro” era simplesmente mais belo e sugestivo, e menos pudoroso, que “sonetos do amor” e que o adjetivo enfatizava a condição clandestina em que era vivido esse amor. Ora, o que não ficou esclarecido é por que ao traduzir oscuro ao português, Félix de Sousa coloca “obscuro”, e não “escuro”, sobretudo se é levado em consideração, por um lado, que, assim como em português existem os adjetivos “obscuro” e “escuro”, em espanhol existem os adjetivos obscuro e oscuro, suas equivalências sinônimas, e por outro, que, caso Lorca, segundo asseverou Vicente Aleixandre, tivesse qualificado amor com um adjetivo, esse adjetivo espanhol foi oscuro e não obscuro. Ao incorporar por primeira vez nove dos Sonetos à sua tradução da Antologia poética completa, Agel de Melo intitulou a série de Sonetos inéditos, evitando assim os devaneios em torno da polêmica do título.

A segunda divergência entre Félix de Sousa e Agel de Melo reside em compreensões parcialmente opostas do trabalho de tradução dos sonetos:

Ao traduzir estes sonetos, procurei fundir o mais possível os recursos proporcionados pelas duas línguas irmãs. A fim de que ao menos se mantivessem próximos da unidade harmônica original, tive que proceder a inversões, alterar ou sacrificar (muitas vezes com sacrifício também meu) uma e outra palavra e imagem, buscar equivalências que em certos casos apenas roçam o sentido. Tinha que ser assim. A tradução destes sonetos não podia ser uma versão literal e portanto esquelética, mas uma tentativa de alcançar em português o reflexo da beleza dos sonetos em castelhano. Não fosse assim, seria melhor não traduzi-los.

Fontes:
Agulha – Revista de Cultura
Poetryweb

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ferreira Gullar



Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém,
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Deixo com vocês o poema de Gullar musicado por Raimundo Fagner, interpretado por ele e Chico Buarque.
Não se esqueçam de acionar a pausa na playlist do blog.