Seja bem-vindo a mais um palco do Cenário de Sentimentos
(www.mariseribeiro.com).
Este espaço é um abraço à sensibilidade, independente da forma como é apresentada: um poema, uma canção, um pensamento, uma pintura, uma charge... O que alimenta a minha emoção torna-se arte e toda arte é especial, é incomum, é rara.
Se você não é comum, você é Scenarium!
Amigos leitores e seguidores do Scenarium, volto a me dedicar a este espaço, depois de um período de descanso. Agradeço a todos que aqui estiveram apenas nos visitando ou deixando seus comentários. Aproveitei para consertar alguns links que haviam se agrupado, e caso algo mais for encontrado fora dos trilhos será ajeitado na medida do possível. Deixo com vocês uma bela crônica da Martha Medeiros, que a mim diz muito, muito mesmo!
A nova minoria
É um grupo formado por poucos integrantes. Acredito que hoje estejam até em menor número do que a comunidade indígena, que se tornou minoria por força da dizimação de suas tribos. A minoria a que me refiro também está sendo exterminada do planeta, e pouca gente tem se dado conta. Me refiro aos sensatos. A comunidade dos sensatos nunca se organizou formalmente. Seus antepassados acasalaram-se com insensatos, e geraram filhos e netos e bisnetos mistos, o que poderia ser considerada uma bem-vinda diversidade cultural, mas não resultou em grande coisa. Os seres mistos seguiram procriando com outros insensatos, até que a insensatez passou a ser o gene dominante da raça. Restaram poucos sensatos puros. Reconhecê-los não é difícil. Eles costumam ser objetivos em suas conversas, dizendo claramente o que pensam e baseando seus argumentos no raro e desprestigiado bom senso. Analisam as situações por mais de um ângulo antes de se posicionarem. Tomam decisões justas, mesmo que para isso tenham que ferir suscetibilidades. Não se comovem com os exageros e delírios de seus pares, preferindo manter-se do lado da razão. Serão pessoas frias? É o que dizem deles, mas ninguém imagina como sofrem intimamente por não serem compreendidos. O sensato age de forma óbvia. Ele conhece o caminho mais curto para fazer as coisas acontecerem, mas as coisas só acontecem quando há um empenho conjunto. Sozinho ele não pode fazer nada contra a avassaladora reação dos que, diferentemente dele, dedicam suas vidas a complicar tudo. Para muita gente, a simplicidade é sempre suspeita, vá entender. O sensato obedece regras ancestrais, como, por exemplo, dar valor ao que é emocional e desprezar o que é mesquinho. Ele não ocupa o tempo dos outros com fofocas maldosas e de origem incerta. Ele não concorda com muita coisa que lê e ouve por aí, mas nem por isso exercita o espírito de porco agredindo pessoas que não conhece. Se é impelido a se manifestar, defende sua posição com ideias, sem precisar usar o recurso da violência. O sensato privilegia tudo o que possui conteúdo, pois está de acordo com a máxima que diz que a vida é muito curta para ser pequena. Sendo assim, ele faz valer o seu tempo. Não tem paciência para os que são regidos pela vaidade e não dizem nada que preste. Constrange-se de testemunhar o vazio da banalidade sendo passado de geração para geração. Ouvi de um sensato, dia desses: “Perdi minha turma. Eu convivia com pessoas criativas, que falavam a minha língua, que prezavam a liberdade, pessoas antenadas que não perdiam tempo com mediocridades. A gente se dispersou.” Ele parecia um índio. Mesmo com poucas chances de sobrevivência, que se morra em combate. Sensatos, resistam.
Ano Novo O rei chegou E já mandou tocar os sinos Na cidade inteira É pra cantar os hinos Hastear bandeiras E eu que sou menino Muito obediente Estava indiferente Logo me comovo Pra ficar contente Porque é Ano Novo Há muito tempo Que essa minha gente Vai vivendo a muque É o mesmo batente É o mesmo batuque Já ficou descrente É sempre o mesmo truque E que já viu de pé O mesmo velho ovo Hoje fica contente Porque é Ano Novo A minha nega me pediu um vestido Novo e colorido Pra comemorar Eu disse: Finja que não está descalça Dance alguma valsa Quero ser seu par E ao meu amigo que não vê mais graça Todo ano que passa Só lhe faz chorar Eu disse: Homem, tenha seu orgulho Não faça barulho O rei não vai gostar E quem for cego veja de repente Todo o azul da vida Quem estiver doente Saia na corrida Quem tiver presente Traga o mais vistoso Quem tiver juízo Fique bem ditoso Quem tiver sorriso Fique lá na frente Pois vendo valente E tão leal seu povo O rei fica contente Porque é Ano Novo
Soneto de Natal Essa mulher, que sonha, sofre e chora, E o escasso seio estende, e o acaricia, Ao filho magro, que seu leite implora, Podia se chamar Virgem Maria. O que lhe importa se essa noite é fria E além da porta é Natal lá fora, Se Jesus Cristo nasce todo dia E está dormindo no seu colo agora? Ela é Nossa Senhora da Pureza, Cuida da nossa vida de pobreza E ora por nós que somos filhos seus... Essa Mulher, que sonha, sofre e chora, Só pode ser então Nossa Senhora, A Mãe de todos nós... A Mãe de Deus!
É meia noite... O sino alvissareiro, Lá da igrejinha branca pendurado, Como n’um sonho místico e fagueiro, Vem relembrar o tempo do passado. Ó velho sino, ó bronze abençoado, Na alegria e na mágoa companheiro! Tu me recordas o sorrir primeiro De menino Jesus imaculado. E enquanto escuto a tua voz dolente, Meu ser que geme dolorosamente Da desventura, aos gélidos açoites... Bebe em teus sons tanta alegria, tanta! Sino que lembras uma noite santa, Noite bendita mais que as outras noites!
Se este é o palco onde divulgo tudo aquilo que me emociona ou me encanta, então não poderia faltar a minha paixão pelo Fluminense. Tivemos um ano sofrido, mas a demonstração de amor e de esperança da nossa linda e pacífica torcida, somada à garra dos jogadores, deu-nos ao final do Campeonato Brasileiro um sabor de vitória. Para os matemáticos, o nosso descenso à Série B já estava sacramentado em números, só que eles se esqueceram de contabilizar o que estava nos corações dos torcedores e do time tricolor: a paixão, a esperança e a garra. Selecionei cinco momentos de emoção, envolvendo ilustres tricolores de coração e a torcida do Flu.
1-) O texto abaixo foi escrito por Artur da Távola e traduz, perfeitamente, o sentimento do que é ser Fluminense.
“Ser Fluminense
Ser Fluminense é entender esporte como bom gosto. É ser leal sem ser boboca e ser limpo sem ser ingênuo.
Ser Fluminense é aplicar o senso estético à vida e misturar as cores de modo certo, dosar a largura do grená, a profundidade do verde com as planuras do branco.
Ser Fluminense é saber pensar ao lado de sentir e emocionar-se com dignidade e discrição. É guardar modéstia, a disfarçar decisão, vontade e determinação. É calar o orgulho sem o perder. É reconhecer a qualidade alheia, aprimorando-se até suplantá-la.
Ser Fluminense não é ser melhor, mas ser certo. Não é vencer a qualquer preço, mas vencer-se primeiro para ser vitorioso depois. É não perder a capacidade de admirar e de (se) colocar metas sempre mais altas, aprimorando-se na busca! E jamais perder a esperança até o minuto final.
Ser Fluminense é gostar de talento, honradez, equilíbrio, limpeza, poesia, trabalho, paz, construção, justiça, criatividade, coragem serena e serenidade decidida.
Ser Fluminense é rejeitar abuso, humilhação, manha, soslaio, sorrateiros, desleais, temerosos, pretensão, soberba, tocaia, solércia, arrogância, suborno ou hipocrisia. É pelejar, tentar, ousar, crescer, descobrir-se, viver, saber, vislumbrar, ter curiosidade e construir.
Ser Fluminense é unir caráter com decisão, sentimento com ação, razão com justiça, vontade com sonho, percepção com fé, agudeza com profundidade, alegria com ser, fazer com construir, esperar com obter. É ter os olhos limpos, sem despeito, e claro como a esperança.
Ser Fluminense, enfim, é descobrir o melhor de cada um, para reparti-lo com os demais e saber a cada dia, amanhecer melhor, feliz pelo milagre da vida como prodígio de compreensão e trabalho, para construir o mundo de todos e de cada um, mundo no qual tremulará a bandeira tricolor. (Artur da Távola)”
2-) Aproveite para assistir também à interpretação do jornalista-tricolor Pedro Bial, para alguns trechos do texto de Távola, clicando aqui.
3-) O fragmento abaixo, pinçado do artigo Um Tricolor em Roma, de Chico Buarque, escrito para O Pasquim, em 1969, ocasião em que ele se encontrava exilado naquela cidade, tornou-se uma peça de orgulho para todos os tricolores. Caso queira ler o texto na íntegra é só clicar aqui.
"É muito fácil ser rubro-negro, fácil demais! É como ser a favor do sol no meio do deserto, ou comemorar o Dia da Árvore no coração da Amazônia. Aliás, nunca existiu um flamenguista. Flamengar é verbo imperfeito que só se conjuga no plural. Por exemplo: Eu advogo, tu bates o ponto, ele mata mosquito; nós flamengamos, vós flamengais, eles flamengam. Mas torcer pelo Fluminense, modéstia à parte, requer outros talentos. Precisa saber dançar sem batucada. O tricolor chora e ri sem ninguém por perto. Sua luz vem de dentro! É habituado com alegrias choradas e gols no finalzinho, de pé, mão, barriga, bunda e nariz, sem esse papo de maioria ou de mais querido. Afinal, o amor sincero não se discute." (Chico Buarque de Hollanda)
4-) Clicando aqui, você pode apreciar os vários mosaicos criados pela torcida tricolor e copiados pelas outras torcidas.
5-) E para fechar esta homenagem ao meu querido time, apreciem o Hino do Fluminense, executado ao piano, pelo ilustre tricolor e maestro Arthur Moreira Lima. É só clicar aqui.
Cordilheira Cordilheira cadeia de rancores trinca escolhe o caminho. Descoberto o vento retrai tédios parte-se e parte. Caminha apesar do sangue a escorrer chora copiosa esquecida. Cala nega quão doloroso retorno -Será a guerra? O deserto a encobre ausente de oásis dunas se formam ondulando as esfinges. O Oráculo da Morte sentencia: - Cordilheira em transe esperas a eternidade?
Kseniya Simonova, uma artista performática de 24 anos, criou numa mesa iluminada, uma série de imagens desenhadas com areia, onde mostrava como as pessoas comuns foram afetadas pela invasão alemã, durante a Segunda Guerra Mundial.
As imagens, projetadas em uma tela grande, levaram algumas pessoas da platéia às lágrimas, tornando-a ganhadora da versão ucraniana do Britain's Got Talent.
Ela começa desenhando, sob um céu estrelado, um casal de mãos dadas sentados em um banco, logo depois aviões aparecem e a cena feliz é apagada. Aquela cena é substituída pelo rosto de uma mulher chorando, um bebê chega e a mulher sorri novamente. Simonova retorna mais uma vez à guerra, lançando areia no caos, rostos horrorizados, e a mulher surgindo com uma carta para um soldado.
A viuvez e o rosto enrugado e triste da mesma mulher se transformam em um monumento ao Soldado Desconhecido. Na cena final, mais uma família dizendo adeus a um soldado.
A Grande Guerra Patriótica, como é chamada a 2ª Guerra na Ucrânia, resultou na morte de 8 milhões de pessoas, ou seja, um quarto de sua população.
Assista ao vídeo acima, já acessado por dois milhões de usuários. Não se esqueça de dar pausa na playlist.
Veja também a mesma técnica desenvolvida por Ilana Yahav
Passa o tempo, passa o vento, Passa a vida, passa o grito, Passa a raiva. E num passe, num transpasse, Passas triste e eu não passo...
Muda a muda, muda o mundo, Eu, inerte, chão imundo, Muda a música, muda a dança, E a mudança muda a gente, E no passo de um compasso, Muda o passo do passado, Passas triste e eu não passo...
A estátua desta imagem encontra-se em Kaunas, na Lituânia e retrata um camponês. Recebeu o nome de Seeder (O Semeador) e seria mais uma simples estátua se um artista não tivesse usado sua sensibilidade e a transformado numa linda poesia visual. Apreciem a imagem seguinte, quando anoitece.
Na verdade, as estrelas são um grafite (forma de expressão da arte urbana) criadas pelo artista Morfai. Ele estudou o que iria desenhar e gravou tudo em um vídeo que você pode ver aqui. O vídeo e todas as diversas obras de Morfai estão disponíveis em seu blog.
Para melhor visualização do efeito é só clicar nas imagens.
Antes que chegue enfim, a mulher esperada, flores eu cantarei desfiando em cada canto, a vagarosa luz de um crepúsculo santo ainda na cortina alta, lisa, parada...
Colocarei na branca sala iluminada um arranjo floral de lírios e amaranto, a lua a pendurar o transparente manto na porta silenciosa, antiga, entrecerrada.
E na hora escura, quando brilharem as tiaras de um abajur azul de finas sedas claras e claras fímbrias a pestanejarem luz
porei também, na minha alcova desolada, um púlpito com uma página sagrada, e duas rimas acesas numa mesma cruz...
Amo-te nas perenes primaveras, No estio dos setembros repetidos, Nas letras comungando com as esperas Dos livros - os penhores nunca lidos.
No balé dos meus sonhos te adiantas Te dando à inocência... Tudo em vão! Meu corpo, o repasto... e tu jantas E encontras o pulsar de um coração
Amo-te como o sol beija na testa, A semente a eclodir no solo bruto. Céu-risos, o perfume, o ar em festa Da terra chora o útero em luto.
Já chega o junho, amor... Já é tão tarde! Se fiel ao amor?... Nem sei se o tenho! Nem sei se é própria a dor do amor que invade O amor ou se é igual a que eu contenho.
Amo-te, nos lamentos outonais. É meia noite... Ah! inquietações E, em tua boca doce... Quero mais! E durmo, arquitetando ilusões.
Que importam meus cantos solitários - Se, um a um, a cega pauta tomba - Darem vozes aos tempos libertários, Se afogam-se à noite. Grande onda!
Amo-te qual farrapo e descrente. Se descrente, o desejo só embriaga. Eis-me à sede, à deriva e indigente, Sem um chão, um cobertor. Dá-me água!
Amor, não vês? Sujeita ao teu domínio, Afundo-me nos choros sem pudores. Tu mentes! Pois se és filho do destino Por que só dás a mim tuas próprias dores?
As cenas da ópera Sansão e Dalila, que o Scenarium traz para vocês, foram apresentadas em 1981 no The San Francisco Opera. Com orquesta e coro do teatro de San Francisco, sob regência do maestro Julius Rudel, seu elenco principal era composto por Plácido Domingo, Shirley Verrett, Wolfgang Brendel, Kevin Langan e Arnold Woketaitis.
Uma outra encenação, que também se encontra aqui, foi apresentada no Palacio de Bellas Artes, no México, sob a regência do maestro Guido Maria Guida. Plácido Domingo também interpretava Sansão.
Para apreciarem os vídeos, não se esqueçam de dar pausa na play list musical do blog.
“Sansão e Dalila é uma ópera em três atos do compositor francês Camille Saint-Saëns, com libreto de Ferdinand Lemaire, baseado nos capítulos 13 a 16 do Livro dos Juízes da Bíblia. Estreou a 2 de dezembro de 1877 no Hoftheater de Weimar, na Alemanha.
Personagens Sansão (guerreiro-chefe dos hebreus) – tenor Dalila (sacerdotisa dos filisteus) – mezzo-soprano Sumo Sacerdote de Dagom (Deus dos filisteus) – barítono Abimeleque (Governador Provincial de Gaza – condena os hebreus por se negarem a aceitar Dagom como seu deus) - baixo
Sinopse
É a história de um homem que foi forte o suficiente para derrotar os inimigos de Israel, os filisteus, mas não o suficiente para resistir à malícia de uma mulher.
Ato I
A história se passa na Palestina entre os anos 1050 a.C. e 1000 a.C.. Uma praça pública em Gaza, junto à entrada do templo de Dagom. Uma multidão de hebreus, homens e mulheres, choram sua derrota diante dos filisteus, e invocam a piedade do Deus de Israel. Entre eles está Sansão, que assume a liderança e os exorta a não perderem a fé nem a esperança. A princípio, a multidão parece desanimada e descrente, mas pouco a pouco Sansão consegue reacender neles a chama do fervor e da coragem. Chega Abimeleque, que insulta com grande insolência o povo hebreu e seu Deus: "Não vedes que vosso Deus permanece surdo aos vossos gritos? Ele que mostre seu poder, e venha quebrar vossas correias e vos dar a liberdade! Vosso Deus treme diante de Dagom, o maior dos deuses!" Os hebreus cantam um hino de desafio: Israël romps tachaîne! O peuple, lève-toi! Abimeleque se precipita sobre Sansão com a espada na mão para feri-lo; Sansão, num golpe de arte marcial o lança ao chão e, pegando da espada, dá morte a Abimeleque ali mesmo.
Reina grande confusão, e os hebreus fogem seguindo Sansão. O Sumo Sacerdote de Dagom sai do templo, acompanhado de guardas e soldados, e se depara com o cadáver de Abimeleque. O sacerdote os incita a vingarem aquela morte e a exterminarem da face da terra os filhos de Israel, mas os filisteus são tomados de terror. Soldados filisteus carregam o corpo de Abimeleque. Um mensageiro palestino traz a notícia de que os israelitas, liderados por Sansão, causam devastação, terror e morte entre os filisteus. Alguns velhos hebreus reunidos na praça cantam um hino de louvor ao Deus de Israel. Sansão reaparece, acompanhado de alguns hebreus. As portas do templo de Dagon se abrem e surge Dalila acompanhada de lindas jovens palestinas que levam nas mãos buquês de flores e, com suaves cânticos, saúdam a chegada da primavera. Dalila começa a empregar suas armas de sedução, dirigindo-se a Sansão: Je viens célébrer la victoire, eu venho celebrar a vitória daquele que reina em meu coração. O ato termina com Dalila cantando uma ária com tal poder de sedução que é muito difícil pôr a culpa em Sansão - quem não se deixaria seduzir? - Printemps qui commence. A ária é plena de um lânguido sensualismo oriental, de forma que, ao terminar de ouvi-la, estamos totalmente embriagados.
Ato II
O vale de Sorec, na Palestina Vê-se à esquerda a habitação de Dalila, com um ligeiro pórtico recoberto de verdejantes folhagens e plantas orientais. Sentada sobre uma rocha, deslumbrantemente vestida, Dalila parece pensativa. A orquestra toca uma música sensual, sugerindo odaliscas dançando nuas. Dalila se preocupa: será que Sansão virá? Será que eu vou poder seduzi-lo? Amour, viens aider ma faiblesse. O Sumo Sacerdote chega para conversar com Dalila. Eles cantam um longo dueto, exprimindo suas preocupações e ansiedades. Ambos estão interessados na destruição de Sansão. O sacerdote oferece à Dalila dinheiro para que ela descubra o segredo da força de Sansão. Ela diz a ele que não se preocupe: seu desejo de vingança já é mais que suficiente. O dueto termina num reverberante pacto de vingança: Unissons-nous tous deux! Mort au chef des hébreux! O sacerdote agora se afasta, para não ser surpreendido por Sansão que já vem chegando. Dalila o cobre de carícias numa ária de resplandecente beleza, Mon coeur s'ouvre à ta voix.
Na conversa com Sansão, porém, ela bate sempre na mesma tecla: "Tu não me amas de verdade, Sansão, porque se tu me amasses, tu me revelarias o segredo da tua força." Quando Sansão nasceu, seus pais fizeram uma promessa ao Deus de Israel: Sansão seria consagrado a Deus, seu cabelo jamais seria cortado. Sansão não pode revelar este segredo a ninguém. O que começou num terno diálogo de amor termina numa discussão violenta: Dalila pede a Sansão que saia de sua presença e não volte mais. Sansão hesita. Voltando-se para Dalila, ele acaba lhe revelando o segredo fatal. Os dois entram na casa. A tempestade, o trovão e o relâmpago açoitam com fúria aquela casa. Assim que Sansão adormece, Dalila abre a janela e acena para uns soldados filisteus que se escondiam na moita. Sansão grita: Trahison!
Ato III Cena 1
Uma prisão em Gaza Cortaram os cabelos de Sansão, o cegaram e o acorrentaram. Nós o vemos atado a uma manivela que move a pedra de um moinho. Ouve-se uma música triste, fúnebre, pesada e angustiada. Vois ma misère, hélas! Vois ma détresse! geme Sansão. Lá fora, ouve-se o coro dos hebreus escravizados, que o recriminam sem parar. Na verdade, é a própria consciência de Sansão que o atormenta.
Cena 2
Interior do templo de Dagom No interior do templo, vê-se uma estátua do deus, semelhante a um peixe, e a mesa dos sacrifícios. No meio do santuário, duas colunas de mármore parecem sustentar todo o edifício. Vemos o Sumo Sacerdote de Dagon circundado de príncipes filisteus e Dalila junto com jovens palestinas coroadas de flores e com taças na mão. O templo está cheio de gente. Cantam um hino em homenagem a Dagon e depois vem o Bacanal, uma peça orquestral muito excitante, um balé em homenagem ao deus dos filisteus. Sansão entra, conduzido por um garoto. A humilhação de Sansão é o ponto alto do espetáculo; Dalila e o Sumo Sacerdote zombam dele. O sacerdote ordena ao garoto que conduza Sansão para o centro do templo, para que todo o povo possa vê-lo. Apoiando-se nas colunas do templo, Sansão faz uma prece ao Deus de Israel: "Permite-me, Senhor, vingar meus olhos aos filisteus!" Jeová ouve-lhe a prece, e lhe restitui a força no último momento da sua vida. O templo desaba, matando Sansão, Dalila, e mais filisteus do que Sansão matou em toda a sua vida."
Cantas a lua cheia, fogosa e vadia, enquanto canto a minguante, nau do infinito, onde debruço anseios que não se definem, paixões que não redimem.
Cantas o sorriso aberto das tardes de sol... Eu seco as gotas da chuva das poças lamacentas, tentando impedir que apodreçam as sementes lançadas, por descuido, em chão estéril.
Cantas a brisa mansa e fresca das velhas madrugadas... E eu sigo, em alvoroço, usando as travas das portas para que o vento forte não quebre meus vasos trincados, nem destrua os muros das minhas defesas.
Cantas o mar em calmaria... Eu tento o rumo entre a fúria das ondas revoltas, sem certeza de alcançar a terra firme, sem previsões de tempo e espaço.
Domas a fera... Eu me escondo em tentativas frustradas, enroscando-me em armadilhas que jamais preparei.
Enterras tuas lágrimas em tumbas faraônicas... As minhas correm a céu aberto, entre pedras e minérios, esperando o calor para evaporarem.
No entanto, nuvens barram a tua lua e eu sigo navegando na minha. Morrem as tuas sementes e as minhas vingam porque não descuidei delas. Cansaste das tuas madrugadas de brisa e eu sorrio dos meus vasos que os ventos não conseguiram mudar de lugar. Morres nas calmarias enquanto meu barco amanhece sob aves barulhentas que me apontam a praia segura. Tua fera amiga te devora enquanto dormes... A minha lambe as minhas feridas. Não encontras tuas lágrimas para tantas dores, mas as minhas continuam a cair, lavando minha alma cicatrizada, que sorri a cada amanhecer. Tu foste! Eu sou! Nada como o depois!
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