domingo, 18 de outubro de 2009

Luiz Poeta



Bailarina

Não bailas, bailarina, tu deslizas
No palco... e meu olhar que te percorre
Soluça a solidão que suavizas
Com cada gesto teu que me socorre...

Não danças, bailarina, tu flutuas,
Levitas com suaves movimentos
E mesmo sem querer tu atenuas
As dores dos meus tristes sentimentos.

Com leves rodopios, multiplicas
Teu corpo em outras tantas bailarinas;
O meu olhar desmaia onde tu ficas
Num êxtase de trôpegas retinas...

E quando dás o teu último passo,
A solidão das tuas sapatilhas
Aguarda mais um lírico compasso
No palco delicado onde tu brilhas.

Meu coração, então, apaga as luzes
E eu sonho ser o teu único par,
Tu danças, bailarina e me conduzes
À solidão sutil... do teu olhar.

© Luiz Poeta (SBACEM-RJ)
Rio de Janeiro (RJ) – Brasil

Visite Luiz Poeta em:
Luiz Poeta Studio – Música, Poesia & Arte

Rubem Alves


Desde minha infância, os jardins sempre me emocionaram. Esqueço das horas, quando me encontro dentro de um emaranhado de folhas e flores, independente se um jardim natural ou projetado. Todos me encantam. Todos têm o toque artístico de Deus. Escolhi este belo texto de Rubem Alves pela real simbologia de um jardim.
Jardim

Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos "conhecimento de palavras e ignorância da Palavra". A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria.

Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.

O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava, eu encostava a escada no muro e ficava espiando.
Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.

Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constroem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!

Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...

Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:

Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.

Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:

"No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta."

Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso." (O retorno eterno, p 65).

Fonte: A Casa de Rubem Alves

Cândido



A garota da esplanada

Sentou-se frente a mim, numa esplanada.

E num gesto lascivo, lento e lindo,
As pernas, pouco a pouco, foi abrindo
Até ver-se a calcinha avermelhada.

Estava distraída, relaxada,
Uma madeixa o rosto lhe cobrindo,
Era a expressão mais pura do divino
Por minha inconsciência profanada.

Meu pensamento é um depravado
Por um gesto bonito, descuidado,
Perdeu-se em rubras quebras de juízo,

Só porque aquela imagem de beleza,
Sentada ali em frente à sua mesa,
Era toda a visão do Paraíso.

04/03/2008

© Cândido
Amadora – Portugal

Conheça mais poemas do Cândido clicando aqui ou visitando sua página no Cenário de Sentimentos

sábado, 17 de outubro de 2009

Machado de Assis


Retrato de Machado de Assis, 1905
Henrique Bernardelli (Brasil, 1858 – 1936)
Óleo sobre tela - Academia Brasileira de Letras, RJ


A Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro

Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos

Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

O soneto, intitulado "A Carolina", faz parte do livro "Relíquias de Casa Velha", publicado em 1906, e foi o último escrito pelo autor. O também escritor Manuel Bandeira destacou este poema como uma das peças mais comoventes da literatura brasileira, de acordo com o “Almanaque Machado de Assis”.

O livro “Toda Poesia de Machado de Assis”, de Cláudio Murilo Leal, que reúne pela primeira vez toda a obra poética de Machado de Assis, apresenta o poema e traz um breve comentário.

“Carolina Augusta Xavier de Novaes e Joaquim Maria Machado de Assis casaram-se no dia 12 de novembro de 1869 e viveram uma plácida e amorosa vida conjugal durante 35 anos. A morte da esposa, em 1904, deixa Machado abatido e queixoso. Em carta a Joaquim Nabuco, datada de 20 de novembro do mesmo ano, escreve, lamentando-se: "Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo."

Em 1906, depois de terem sido publicadas as Poesias completas, o poeta escreve seu mais pessoal e profundamente sofrido poema, um verdadeiro réquiem, intitulado "A Carolina". Talvez, para não demonstrar vestígios de um sentimentalismo piegas, Machado elege uma forma poética que reverencia também, sutilmente, o tom e a textura camonianos. Essa aproximação estilística à linguagem castiça, que renova, mais do que copia, no século XX, o sabor do verso quinhentista, foi observada por J. Mattoso Câmara, no ensaio "Um soneto de Machado de Assis".

Ao lado de conhecidos poemas como "Círculo vicioso" e "A mosca azul", o soneto "A Carolina" é considerado a mais comovente pedra de toque da obra poética de Machado de Assis.

No ano de 2006, comemorou-se o centenário de "A Carolina", publicado pela primeira vez no livro Relíquias de casa velha, soneto que não foi recolhido em algumas edições das poesias completas.”

Fonte: FolhaOnline
Curiosidade

O Jornal do Comércio publicou um interessante artigo do jornalista Antonio Gonçalves Filho sobre os escritores brasileiros mais citados por 55 tradutores, professores e bibliotecários de 19 diferentes países. E para surpresa dos organizadores do projeto, “Conexões Itaú Cultural – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira”, que encomendou a pesquisa, contrário à expectativa de que Paulo Coelho seria o escritor contemporâneo mais citado, foi o gaúcho Moacyr Scliar, quem surpreendeu.

Os dez escritores mais citados pelos especialistas estrangeiros consultados na pesquisa realizada pelo Itaú Cultural são os seguintes:

1- Machado de Assis
2- Clarice Lispector
3- Guimarães Rosa
4- Graciliano Ramos
5- Jorge Amado
6- José de Alencar
7- Manuel Bandeira
8- Moacyr Scliar
9- Rubem Fonseca
10- Drummond de Andrade.

Jornal do Comércio, 29 de maio de 2009, Caderno C, página 5.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Fazer Amor é Pisar na Eternidade



Fazer Amor é pisar na Eternidade

Fazer amor é coisa séria demais...
Não basta um corpo e outro corpo, misturados num desejo insosso, desses que dão feito fome trivial, nascida da gula descuidada, aplacada sem zelo, sem composturas, sem respeito, atendendo exclusivamente a voracidade do apetite.

Fazer amor é percorrer as trilhas da alma, uma alma tateando outra alma, desvendando véus, descobrindo profundezas, penetrando nos escondidos, sem pressa, com delicadeza... porque alma tem tessitura de cristal, deve ser tocada nas levezas, apalpada com amaciamentos... até que o corpo descubra cada uma das suas funções.

Quando a descoberta acontece é que o ato de amor começa.
As mãos deslizam sobre as curvas, como se tocando nuvens, a boca vai acordando e retirando gostos, provando os sabores, bebendo a seiva que jorra das nascentes escorrendo em dons, é o côncavo e o convexo em amorosa conjunção.

Fazer amor é Ressurreição!
É nascer de novo: no abraço que aperta sem sufocamentos, no beijo que cala a sede gritante, na escalada dos degraus celestiais que levam ao gozo.

Vale chorar, vale gemer... vale gritar, porque aí já se chegou ao paraíso, e qualquer som há de sair melódico e afinado, seja grave, agudo, pianinho... há de ser sempre o acorde faltante quando amantes iniciam o milagre do encontro.
Corpos se ajustaram, almas matizaram... Fez-se o Êxtase! É o instante da Paz... É a escritura da serenidade!
E os amantes em assunção pisam eternidades!

(Texto atribuído a um Frei do Colégio Santo Agostinho)

Tenho este texto guardado há algum tempo e pra mim é uma das descrições mais perfeitas de um ato de amor carnal; é pura poesia. Tenho dúvidas quanto à autoria do texto, que é atribuída a um Frei do Colégio Santo Agostinho. Fiz pesquisas cansativas, é um texto publicado em vários sites e blogs, mas esbarrei na mesma informação que está aqui. Caso alguém tenha outra informação sobre a autoria, por favor, é só deixar um recadinho nos comentários.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Marly Caldas



A Lua e a Mulher

e a lua virou mulher

ou a mulher virou lua
tanto faz
são iguais
brancas e soltas
apaixonadas
correram na areia
como eu
atrás do que era seu...

© Marly Caldas
Rio de Janeiro (RJ) – Brasil


Visite Marly Caldas em:

Mercedes Sosa

Para ouvir o vídeo, não se esqueça de acionar a pausa da play list no layout lateral.

Mercedes Sosa nasceu em San Miguel de Tucumán a 9 de Julho de 1935 e faleceu em Buenos Aires no dia 4 de Outubro último. Com raízes na música folclórica argentina, ela se tornou um dos expoentes do movimento conhecido como Nueva canción, que mescla influências africanas, cubanas, andinas e espanholas. Apelidada de La Negra pelos fãs devido à ascendência ameríndia (acreditava-se erroneamente que era devido a seus longos cabelos negros), ficou conhecida como a voz dos "sem voz".

A voz de Mercedes Sosa me encantava, assim como o que representou para a América, e Gracias a La Vida inspirou-me a escrever o poema Graças.

Selecionei alguns belos momentos de La Negra.
Como La Cigarra
Canción Con Todos
Volver a Los 17
Alfonsina Y El Mar
Alfonsina Y El Mar (English subtitled)

Para saber mais sobre Mercedes Sosa é só clicar aqui.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Gui Oliva



Inspiração

Choro... hoje acordei num choro interno,
lágrima que umedece uma secura,
um desejo que não chega como quero,
de verso meu a expor minh´alma nua

Chorei... lágrima aguou boca sedentae,
como chuva em auxílio à semente,
adocicada ordenou-me... tenta,
dedilha versos que o coração sente.

Indaguei então... o que é inspiração,
é um dom expondo a alma em rima,
ou donzela a espalhar sonhos e quimeras?

A lágrima sorvida responde e ensina:
como eu, pode ser companheira da ilusão,
depende como a tratas enquanto a esperas!

© Gui Oliva
Santos (SP) – Brasil

Conheça mais textos de Gui Oliva visitando Vida em Caminho.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Shae-Lynn Bourne

Para apreciar o vídeo, acione a pausa da play list no layout lateral.

Shae-Lynn Bourne começou a patinar aos 7 anos de idade, tornando-se mais tarde uma dançarina do gelo. A dançarina canadense competiu em vários Jogos Olímpicos de Inverno e seu parceiro mais constante foi Victor Kraatz. A dupla se tornou campeã mundial em 2003.
Após a conquista do campeonato, Victor Kraatz decidiu parar de patinar e Bourne, após dançar com outro parceiro, seguiu carreira solo.
Hoje ela é treinadora e coreógrafa, e usa sua fama para lutar contra a exploração infantil. Shae-Lynn e Victor participam de vários shows beneficentes.

Além de La Cumparsita, um número solo apresentado em 2005, em que Shae-Lynn arrebata a plateia (vide vídeo acima), destaco mais três apresentações:

Caruso (solo de Shae-Lynn)
Adágio em G Menor (com Victor Kraatz, apresentação em que foram campeões mundiais)
Sadness by Enigma (com Victor Kraatz)

Para saber mais sobre Shae-Lynn Bourne clique aqui.

Antônio Mesquita Galvão



A vida passa...

Se pudéssemos ter consciência de quanto nossa vida é passageira, talvez pensássemos duas vezes antes de jogar fora as oportunidades de felicidade. Para nós e para os outros. No jardim, algumas flores são colhidas cedo demais. Algumas mesmo em botões. Há sementes que nunca brotam, assim como há flores que vivem a vida inteira até que, pétala por pétala, tranqüilas, vividas, se entregam ao vento.


Muitos de nós, cegos pela pressa, pela busca de duvidosos status e pelos tantos “compromissos” não sabemos adivinhar a duração da beleza de todas as flores que foram plantadas em nosso redor. E cuidamos mal. Descuidamos de nós e dos outros. Vivemos tristes e preocupados com coisas pequenas. Nos afligimos demais com horários e perdemos tempo, jogamos fora horas e minutos preciosos. Perdemos dia, às vezes anos, quando não a vida toda.

Na maioria das vezes, calamos quando deveríamos falar; falamos demais quando é hora de contemplar o silêncio. Deixamos de dar o beijo, o abraço ou o aperto de mão que tanto nossa alma pede, porque algum orgulho bobo ou um preconceito inócuo impede essa aproximação. Não confessamos amar uma pessoa do mesmo sexo porque “pode pegar mal”. Não declaramos nosso afeto porque imaginamos que o outro conhece nossos sentimentos.

Assim corre o tempo, passa a vida e nós continuamos os mesmos, fechados em nós, circunspectos, arrogantes, embrutecidos. Reclamamos aquilo que nos falta e deixamos de reconhecer e agradecer tudo o que possuímos, sempre achando que temos de menos. De outro lado, compramos, gastamos, consumimos e esbanjamos, sempre comparando nossa vida com a daqueles que julgamos serem mais felizes que nós. E se nos comparássemos com aqueles que têm menos?

Nesses pensamentos pequenos a vida passa. O tempo passa. Passamos pela vida em geral esquecidos de viver. Apenas sobrevivemos. E justamente porque não sabemos fazer coisa melhor... Não aprendemos a tirar da vida o que ela tem de melhor. Um dia, inesperadamente, acordamos, olhamos para trás e constatamos a inutilidade de tudo quanto se fez nesta vida. E perguntamos: E agora? Pode ser tarde demais. Hoje ainda se pode, quem sabe, reconstruir alguma coisa, dar um abraço, perdoar, pedir perdão, agradecer, dizer “eu te amo”.

O ser humano nunca é velho ou jovem demais para amar e ser amado, e assim encontrar um sentido para sua existência. O coração do afeto não tem idade. Não vamos perder tempo olhando para trás. Vamos viver hoje, curtindo o presente com olhos fitos no amanhã. Ainda há tempo de apreciar as flores, colocar os pés no riacho, assistir um pôr-do-sol. Há tempo para nos voltarmos para Deus e para os outros. A vida, ainda que passageira, está em nós. É preciso viver bem, pois só se vive uma vez.

Pior que perder a vida diante da morte é desaproveitá-la no decorrer da existência.

Conheça mais textos do autor clicando aqui.

sábado, 19 de setembro de 2009

Manuel Du Bocage



Soneto do Prazer Maior

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.

José Manuel Barbosa Maria Du Bocage
(in Poesias Eróticas, Burlescas e Satyricas – 1853)

As obras do autor, citadas a seguir, estão disponíveis para download. É só clicar no título e depois baixar o e-book:
A Morte de D. Ignez
A Pavorosa Illusão
A Virtude Laureada
Elegia
Improvisos de Bocage
Mágoas Amorosas de Elmano
Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina

A obra a seguir está disponível sem precisar de download, é só clicar:
Sonetos e Outros Poemas

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Andréa Maia



"Quando amo..."

Quando amo,
Sou sentimento preciso
Palavra incisiva
Sou corpo em entrega.

Sou coração desvairado
Alma inquieta, desperta.
Sou olhos fechados
Porta aberta!

Sou relógio parado
Ponto de partida
Sou sem lar, sem hora pra voltar.

Passional,
Quase louca...
Irracional.

Quando amo sou isso.

Mulher de direito e avesso...
Que sem qualquer receio de perda ou de dor
Por esse turbilhão de amor,
Paga o devido preço!

© Andréa Maia
Rio de Janeiro (RJ) – Brasil

Conheça mais poemas de Dea Maia clicando aqui

Michael Jackson

Para ouvir o vídeo, não se esqueça de acionar a pausa na play list lateral.

“Earth Song”, de 1996, nunca foi lançada como single nos EUA, mas fez o maior sucesso no Reino Unido.

Canção da Terra fala de desmatamento, poluição, pesca predatória, guerra, fome, etc. Por ter sido censurada nos EUA, o maior destruidor do planeta, a maioria de nós desconhecia o clipe. O que não passa lá, não passa aqui.

Divulgo-o no Scenarium, não por mais uma performance de Michael Jackson, mas sim pela mensagem que a canção transmite.

Se você quiser acompanhar a letra em espanhol, clique aqui.

Fonte: TV UOL

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Gibran Khalil Gibran



"Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas - as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas - e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando: "Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: "É um louco!". Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: "Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!"

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós."

Trecho do Livro O Louco

domingo, 13 de setembro de 2009

Sá de Freitas



Hei de Encontrar

Hei de encontrar ainda em meu caminho,
O amor que busco desde a mocidade,
Mesmo que seja no findar da tarde,
Que pressinto chegar-me de mansinho.

Não falo do gostoso "amor-carinho",
Que traz ao nosso corpo a saciedade:
Falo do amor que falta à humanidade,
Sem o qual cada ser vive sozinho.

Falo daquele amor que mata a fome,
Que agasalha a quem no frio dorme,
Que ao desolado vem trazer alento.

Falo do amor que pouca gente aplica,
Falo do amor que pouco se pratica,
Contido NO PRIMEIRO MANDAMENTO.

© Sá de Freitas
Avaré (SP) - Brasil

sábado, 12 de setembro de 2009

Maria Sanz Martins



Da Minha Precoce Nostalgia - Crônica

Quando eu for bem velhinha, espero receber a graça de, num dia de domingo, me sentar na poltrona da biblioteca e, bebendo um cálice de Porto, dizer a minha neta:
- Querida, venha cá. Feche a porta com cuidado e sente-se aqui ao meu lado. Tenho umas coisas pra te contar. E assim, dizer apontando o indicador para o alto:
- O nome disso não é conselho, isso se chama corroboração!
Eu vivi, ensinei, aprendi, caí, levantei e cheguei a algumas conclusões. E agora, do alto dos meus 82 anos, com os ossos frágeis a pele mole e os cabelos brancos, minha alma é o que me resta saudável e forte.
Por isso, vou colocar mais ou menos assim:
É preciso coragem para ser feliz. Seja valente.
Siga sempre seu coração. Para onde ele for, seu sangue, suas veias e seus olhos também irão.
E satisfaça seus desejos. Esse é seu direito e obrigação.
Entenda que o tempo é um paciente professor que irá te fazer crescer, mas escolha entre ser uma grande menina ou uma menina grande, vai depender só de você.
Tenha poucos e bons amigos. Tenha filhos. Tenha um jardim.Aproveite sua casa, mas vá a Fernando de Noronha, a Barcelona e a Austrália. Cuide bem dos seus dentes. Experimente, mude, corte os cabelos. Ame. Ame pra valer, mesmo que ele seja o carteiro.Não corra o risco de envelhecer dizendo "ah, se eu tivesse feito..." Tenha uma vida rica de vida. Vai que o carteiro ganha na loteria - tudo é possível, e o futuro, tsc, é imprevisível.
Viva romances de cinema, contos de fada e casos de novela. Faça sexo, mas não sinta vergonha de preferir fazer amor. E tome conta sempre da sua reputação, ela é um bem inestimável. Porque sim, as pessoas comentam, reparam, e se você der chance elas inventam também detalhes desnecessários.
Se for se casar, faça por amor. Não faça por segurança, carinho ou status.
A sabedoria convencional recomenda que você se case com alguém parecido com você, mas isso pode ser um saco!
Prefira a recomendação da natureza, que com a justificativa de otimizar os genes na reprodução, sugere que você procure alguém diferente de você. Mas para ter sucesso nessa questão, acredite no olfato e desconfie da visão. É o seu nariz quem diz a verdade quando o assunto é paixão.
Faça do fogão, do pente, da caneta, do papel e do armário, seus instrumentos de criação. Leia.
Pinte, desenhe, escreva. E por favor, dance, dance, dance até o fim, se não por você, o faça por mim.
Compreenda seus pais. Eles te amam para além da sua imaginação, sempre fizeram o melhor que puderam, e sempre farão.
Cultive os amigos. Eles são a natureza ao nosso favor e uma das formas mais raras de amor.
Não cultive as mágoas - porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que um único pontinho preto num oceano branco deixa tudo cinza.
Era só isso minha querida.Agora é a sua vez. Por favor, encha mais uma vez minha taça e me conte: como vai você?

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Maria Mercedes Paiva


Clique na imagem para ler o poema

© Eme Paiva
São Paulo (SP) - Brasil

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Les Petits Chanteurs a La Croix de Bois


O Coral
Les Petits Chanteurs a La Croix de Bois é um coral formado por crianças internas da Escola de canto paroquial do mesmo nome, em Paris. Eles partilham seu tempo entre as tarefas escolares oficiais, a educação musical e vocal, e as viagens para apresentações. O coral já se apresentou nos cinco continentes para um público de 50.000 espectadores a cada ano de viagem.
Para saber mais sobre os pequenos cantores e sua escola, clicar
aqui.

A Música
O célebre Duetto buffo di due gatti (dueto humorístico dos dois gatos), chamado apenas de Duo des chats (dueto dos gatos) é uma peça popular para dois sopranos e muitas vezes apresentada como um concerto.
Embora esta peça seja geralmente atribuída a Gioachino Rossini, ela não foi, de fato, escrita por ele. É uma compilação feita em 1825, com passagens tomadas de sua ópera Otelo, de 1816. O autor da compilação foi, provavelmente, o compositor inglês Robert Lucas Pearsall, que utilizou o pseudônimo de G. Berthold.

O Vídeo
O Concerto do coral aconteceu em Seul, Coréia, em Novembro de 1996 e os solistas “gatinhos” são Régis Mengus (o moreno) e 
Hyacinthe de Moulins (o louro)

Reparem na seriedade do gatinho lourinho e nos leves sorrisos do gatinho moreno. Um show de técnica que emociona e diverte. Deliciem-se, mas não esqueçam de dar pause na playlist do Cenário da Música.

Gostaram? Só para matar a curiosidade, vejam como está 
Régis Mengus atualmente.

Para ver mais apresentações do coral é só clicar
aqui.

Neuza Nóbrega Garcia



Para Iluminar

Quando compreendi que a palavra podia iluminar,
não parei mais de falar...
Quando compreendi que escrevendo podia
minha palavra para bem longe levar,
não parei mais de escrever...
Quando compreendi que para falar e escrever,
precisava as Leis divinas conhecer,
não parei mais de estudar...
Mas as Leis divinas conhecendo,
eu fui compreendendo,
que para iluminar,
preciso aprender a amar.

© Neuza Nóbrega Garcia
Cruzeiro (SP) – Brasil

Visite a sensibilidade poética e espiritual de Neuza

no Cantinho da Neuza

domingo, 23 de agosto de 2009

Amélia de Oliveira



Transcrevo abaixo uma das postagens do Blog Literatura em Vida 2, da escritora Eliane F.C. Lima, blog que é um dos meus favoritos. Criado recentemente, o blog é um mar de Literatura abrindo-se para ser navegado por todos que amam a arte literária.
Leiam a manifestação machista de Olavo Bilac e conheçam a bela poesia de Amélia de Oliveira.


“LITERATURA DE ONTEM 2
Vamos conviver aqui com Amélia de Oliveira, poetisa. Como infelizmente, na época, século XIX, escritoras tinham sempre sua identidade estabelecida pelo elemento masculino - hoje muita gente boa já pesquisa sobre elas -, a escritora, como tantas outras, passou para a história literária como a irmã do poeta parnasiano Alberto de Oliveira ou a noiva frustrada de Olavo Bilac, costume ainda hoje presente até na Internet, onde é citada, quase que exclusivamente, nos sites sobre ambos. Recomendo para pesquisa:

1. Antônio Miranda, Poesia dos Brasis, onde aparecem inúmeras escritoras.
2. A resenha de Lilia Moritz Schwarcz para o livro Escritoras esquecidas pela república no endereço http://www.topbooks.com.br/frMateria_ESP_070805.htm
3. O Dicionário crítico de escritoras brasileiras, de Nelly Novaes Coelho, pelo menos, na versão online.

Sobre várias outras escritoras igualmente anuladas, indico o trabalho de equipe de um grupo de pesquisadoras que resultou no livro Escritoras brasileiras do século XIX, organização de Zahidé Lupinacci Muzart, Editora Mulheres.

O reforço explicativo dessa invisibilidade fica clara no trecho de uma das cartas de Bilac para a então noiva, abaixo transcrito.

Carta
Olavo Bilac

(...)
Já te disse que há mais de dois meses tinha eu vontade de te escrever em liberdade, para coisa urgente. Trata-se disto:
Não me agradou ver um soneto teu no Almanaque da "Gazeta de Notícias" deste ano. Não foi o fato de vir em um almanaque o soneto que me desagradou: desagradou-me a sua publicação. Previ logo que andava naquilo o dedo do Bernardo ou do Alberto. Tu, criteriosa como és, não o farias por tua própria vontade. Folguei muito, depois, vendo a minha previsão confirmada por D. Adelaide. Devo confessar que fui o primeiro a insistir contigo para que publicasses versos. Cheguei mesmo a dar alguns aqui, no "Mercantil". Fiz mal. Arrependi-me. Hás de concordar comigo.
Há uma frase de Ramalho Ortigão, que é uma das maiores verdades que tenho lido: - O primeiro dever de uma mulher honesta é não ser conhecida. - Não é uma grande verdade? Reflete sobre isto: Há em Portugal e Brasil cem ou mais mulheres que escrevem. Não há nenhuma delas de quem não se fale mal, com ou sem razão. Além disso, quem publica alguma coisa fica sujeito a discussão, cai no domínio da crítica. E imagina que mágoa a minha, que desespero meu, se algum dia um miserável qualquer ousasse discutir o teu nome! Eu, que chego a ter ciúme do chão que pisas, eu que desejava ser a única pessoa que te pudesse ver e amar, - ouvir discutido o teu nome. Ainda há bem pouco tempo, em S. Paulo, um padre, escrevendo sobre Júlia Lopes, insultou-a publicamente. Eu nada tinha com isso. Mas tratava-se de uma senhora e mulher de um amigo meu: tive vontade de esmurrar o padre. E sem razão. Sem razão, porque uma senhora, desde que se faz escritora, tem de se sujeitar ao juízo de todos. Não quer isto dizer que não faças versos. Pelo contrário. Quero que os faças, muitos, para os teus irmãos, para as tuas amigas, e principalmente para mim, - mas nunca para o público, porque o público envenena e mancha tudo o que lhe cai sob os olhos.
(...)

Teu noivo,
Olavo Bilac
(cerca de 1888)

Inacreditável para o mundo de hoje. Aí está a explicação para que um sem números de mulheres que deram seus textos a público tenham desaparecido do cenário. Se você ficou revoltada(o) como eu, vingue-se agora e leia o belíssimo poema de Amélia.

SONETO
Amélia de Oliveira

Não te peço a ventura desejada,
Nem os sonhos que outrora tu me deste,
Nem a santa alegria que puseste
Nessa doce esperança, já passada.

O futuro de amor que prometeste
Não te peço! Minha alma angustiada
Já te não pede, do impossível, nada,
Já te não lembra aquilo que esqueceste!

Nesta mágoa sorvida, ocultamente,
Nesta saudade atroz que me deixaste,
Neste pranto, que choro ainda por ti,

Nada te peço! Nada! Tão-somente
Peço-te agora a paz que me roubaste,
Peço-te agora a vida que perdi!

(ELTON, Elmo. Amélia de Oliveira - 1868-1945. Rio de Janeiro: Edição do autor, 1977)”