terça-feira, 14 de abril de 2009

Gióia Júnior



Oração da Maçaneta

Não há mais bela música

que o ruído da maçaneta da porta
quando meu filho volta para casa.

Volta da rua, da vasta noite,
da madrugada de estranhas vozes,
e o ruído da maçaneta
e o gemer do trinco,
o bater da porta que novamente se fecha,
o tilintar inconfundível do molho de chaves
são um doce acalanto,
uma suave cantiga de ninar.

Só assim fecho os olhos,
posso afinal dormir e descansar.

Oh! a longa espera,
a negra ausência,
as histórias de acidentes e assaltos
que só a noite como ninguém sabe contar!

Oh! os presságios e os pesadelos,
o eco dos passos nas calçadas,
a voz dos bêbados na rua
e o longo apito do guarda
medindo a madrugada,
e os cães uivando na distância
e o grito lancinante da ambulância!

E o coração descompassado a pressentir
e a martelarna arritmia do relógio do meu quarto
esquadrinhando a noite e seus mistérios.

Nisso, na sala que se cala, estala
a gargalhada jovem
da maçaneta que canta
a festiva cantiga do retorno.
E sua voz engole a noite imensa
com todos os ruídos secundários.
- Oh! os címbalos do trinco
e os clarins da porta que se escancara
e os guizos das muitas chaves que se abraçam
e o festival dos passos que ganham a escada!
Nem as vozes da orquestra
e o tilintar de copos
e a mansa canção da chuva no telhado
podem sequer se comparar
ao som da maçaneta que sorri
quando meu filho volta.

Que ele retorne sempre são e salvo,
marinheiro depois da tempestade
a sorrir e a cantar.
E que na porta a maçaneta cante
a festiva canção do seu retorno
que soa para mim
como suave cantiga de ninar.

Só assim, só assim meu coração se aquieta,
posso afinal dormir e descansar.

Rafael Gióia Martins Júnior
© Gióia Júnior
Campinas (SP) – Brasil

Há tempos recebi este poema sem autoria e, como mãe, cada palavra dita aqui se encaixava perfeitamente com a angústia pela qual uma mãe passa à espera dos filhos que estão fora de casa. Egoisticamente não pensei nos pais, pois alimentava a certeza de que este poema havia sido escrito por uma mulher. Ao fazer a pesquisa da autoria, tive a grata surpresa em descobrir se tratar de um homem.

Pablo Neruda - Poema XX

Para ouvir melhor o fundo musical deste vídeo, aperte a pausa da play list no layout lateral do blog.

Anna Peralva



Alma de Palhaço

Desbotaram as cores,
envelheceram lembranças
da noite para o dia,
ou não?...
Nada mais de utopia ou fantasia
só a realidade nua e fria,
acabou a farsa!
Pincelo com fúria a tela sem vida,
uso cores das angústias sentidas.
Mascaro a pálida face,
uso massa ou argamassa
não quero que ninguém veja,
preciso de um disfarce
que endureça a tristeza.
Cubro de luto o corpo,
vivi por um amor bandido
hoje morto, banido!
Sob o manto do não ser
desvenda-se o não ter,
revela-se o não mais querer,
oposto do que pensei existir
desfaz-se o esforço de tanto insistir,
cai a lona...
Na trincada taça dos sonhos
transborda o sangue da dor,
sorvo da desilusão o amargor
de uma só vez!
Tranco os sonhos no armário escuro
e neste circo desleal e impuro,
amordaço emoções, calo o verso.
Mesmo no reverso, acho forças para sorrir...
Coração trincado em estilhaços,
por fora, matéria feita de aço;
por dentro,
chora minha alma de palhaço...

2007
© Anna Peralva
Rio de Janeiro (RJ) – Brasil
http://www.annaperalva.net/

Mensagem - Prof. Luiz Almeida Marins Filho



Saiba sair de cena

Uma das coisas que aprendi com pessoas de grande sabedoria é saber sair de cena, deixar o palco, sair da roda, mudar de assunto.

Saber o momento exato de fazer com que os holofotes fiquem sobre os outros e não sobre você. No mundo competitivo em que vivemos a sua presença "marcante" pode marcar demais. A sua idéia "brilhante" pode brilhar demais.

A forma "inovadora" de pensar pode inovar demais. E nem sempre as pessoas estão dispostas a deixar você brilhar impunemente.

É hora de sair de cena. Nem que seja por um tempo.

É preciso fazer os outros pensarem que você desistiu. É preciso dar a chance das pessoas acharem que você não quer mais estar no palco. Mas saber sair de cena é uma arte tão importante quanto saber entrar em cena.

Todo ator sabe disso.

Assim, é preciso sair de cena com classe. É preciso sair de cena com a discrição de um lorde inglês.

Quando as pessoas sentem-se ameaçadas por você e começam a ter respostas agressivas desproporcionais, talvez seja a hora de sair de cena.

Quando você, sem ter desejado ou planejado, começa a aparecer muito na sua área de atuação ou no seu setor de trabalho, talvez seja a hora de sair de cena por um tempo.

Saber sair de cena é também saber mudar de assunto. Quando as pessoas vêm lhe perguntar e comentar sobre o seu sucesso, sobre seus bens materiais, seu possível enriquecimento, etc, querendo fazer você falar sobre você - é hora de mudar de assunto.

É hora de sair de cena.

Os sábios sabem que você nada ganhará falando de você mesmo para os outros. Nem bem, nem mau. Mude de assunto.

Saia de cena.

Não caia nessa armadilha. Quando o embate se dará com poderosos e você conhece o poder destrutivo desses poderosos, pense bem antes de entrar no combate.

Talvez você ganhe mais saindo de cena.

Deixe a briga de cachorro grande para grandes cães. Saiba sair de cena.

Você terá outras oportunidades.

Você ganhará outras batalhas com menos estresse, com menores esforços. É preciso fazer um grande esforço de sabedoria para saber quando sair de cena.

É preciso ter uma grande capacidade artística para saber como sair de cena.

Será que temos tido a sabedoria e a arte de sair de cena, deixar o palco, mudar de assunto, na hora certa, no momento exato?

Prof. Luiz Almeida Marins Filho
Texto enviado por de Gloria Guedes

Carlos Drummond de Andrade



Amor e Seu Tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

© Carlos Drummond de Andrade
http://www.memoriaviva.com.br/drummond/

Pablo Picasso - Guernica



Guernica e uma tragédia nova

- Por favor, señor...

A guarda do museu se aproxima rapidamente e ordena que eu me levante do chão. Na grande sala branca que guarda o gigantesco painel não há cadeiras ou bancos – não é permitido sentar-se em frente à Guernica. Exige-se do espectador que se poste de pé, em silêncio respeitoso ao quadro pintado para o pavilhão espanhol da exposição internacional de Paris do ano 37 do século passado, quando Picasso estava sob o impacto da notícia do massacre de civis na pequena cidade basca de Guernica pelos aviões da Legião Condor, força aérea alemã na Espanha sob o comando direto do General Franco. Uma tonelada e trezentos quilos de bombas incendiaram a cidade, deixando mais de mil e seiscentos mortos.

Tanto já se escreveu sobre o quadro que é difícil não deixar que suas inúmeras leituras eclipsem a obra em si. Tenho uma ponta de inveja do grupo de crianças de seis anos de idade que escuta da professora a seguinte apresentação: “Esse é o quadro mais importante do museu. O senhor que o pintou se chamava Picasso e o quadro se chama Guernica. Vamos ficar aqui um pouquinho vendo o quadro e já vamos embora.” Depois do introdutório, ficam sentados, cochichando entre si, e eu pagaria tudo o que tenho no bolso para ter o olhar deles sobre o que vêem.

Os setenta e dois anos que nos separam da obra e da Guerra Civil Espanhola guardam uma guerra mundial e dúzias de genocídios. No entanto, algo nesse quadro me faz pensar que a arte contemporânea possa ter perdido a capacidade de traduzir a tragédia e o horror da guerra.

Guernica é um quadro que grita, monumento onde as lágrimas são flechas que os arregalados olhos cospem – e com essas setas Picasso traça a geometria irregular e monstruosa da tragédia humana em escala industrial como nenhum outro fez, antes ou depois. Guernica é uma obra atemporal, vestígio de um mundo onde a violência ainda não havia se convertido em banalidade ou simplesmente abstração.

Para ver-se Guernica é preciso passar bolsas e casacos por uma máquina de raio-x, sintoma da doença do nosso século. O quadro está no museu Reina Sofia, em Madrid, a duas centenas de metros da estação de trem de Atocha, onde em 2004 um atentado da Al Qaeda matou 191 pessoas. Guernica, o quadro que grita, fala também dessa tragédia, e sobrevive porque fala melhor do que qualquer obra que veio depois dele.

E o faz também porque o Picasso que pinta Guernica é um homem chocado. Com cinismo costurado aos olhos, os artistas que hoje vivem parecem incapazes de atingir a mesma contundência em traduzir a desgraça do nosso tempo.

E isso é outra tragédia - e isso é uma tragédia nova.

Vera Mussi



Não há nuvens...

Não há nuvens nesse momento...
Um céu aberto!
Só esperança no ar...
De Deus provêm os verdes sonhos!
Desafiando o pensamento,
alvas mãos se entrelaçam
entre as flores...
Despertam a confiança para amar...

Um olhar-menino é o abrigo!
Volta o amor amigo...
Busca o brilho do sol antigo...
Abre o coração sem rodeios!
Desejos e anseios
esquecem as dores de ontem...

Viajam pelas figuras marginais do além
e colhem as pétalas virginais...
São as rosas do amor desfeito!
Não há nuvens...
A céu aberto recebe o prêmio
do amor, todo respeito!

2006
© Vera Mussi
São José do Rio Preto (SP) - Brasil
http://www.veramussi.com.br/

Svetlana Zakharova e Igor Zelensky - O Corsário



Apresentação em comemoração aos 300 anos de fundação da cidade de St. Petersburg - 2003.

Principais dançarinos do Balé Kirov até o ano de 2003.
Depois disso, a bailarina Svetlana Zakharova passou a fazer parte do Balé Bolshoi.
Clique na imagem para assistir a esta belíssima performance.

sexta-feira, 27 de março de 2009

J. G. de Araújo Jorge



Espera

Se tivesses mandado uma palavra - "Espera"!
Sem mais nada, nem mesmo explicado até quando,
Eu teria ficado até hoje esperando...
- Era a eterna ilusão de que fosses sincera -

Que importaria a vida, o sol, a primavera,
Se eras a vida, o sol, a flor desabrochando?
Se tivesses mandando uma palavra - "Espera"!
Eu teria ficado até hoje esperando...

Não mandaste. Tu nada disseste, e eu segui,
Sem saber que fazer da vida que era tua,
Procurando com o mundo esquecer-me de ti

E afinal o destino, irônico e mordaz
Ontem, fez-me cruzar com teu olhar na rua,
Ouvi dizer-te, "Espera" e ser tarde demais!

© J. G. de Araújo Jorge

terça-feira, 24 de março de 2009

Véra Maggioni




Entre a Trança e a Fita

Trazida em tranças à porta entreaberta,
Do ontem - a vívida quimera aprumada,
Eu trançada com uma fita amarela.
No agora - como o dia está claro!

O mar pela aldrava aberta, em piscadela,
Ancora-se nas minhas sobejas lembranças,
Uma suave tela se desdobra, em assobio,
Indo e vindo dos sonhos às ressonâncias.

De sobra, pelas frestas da porta,
Marejo uns lamentos impertinentes.
Avisto o céu anil, os lírios da paz, e
Entre a trança e a fita, eu.

Véra Lúcia de Campos Maggioni®
Vera&Poesia®
Santa Rosa, RS, 26/07/2007.
Direitos autorais reservados
http://recantodasletras.uol.com.br/poesias/581251

domingo, 22 de março de 2009

Luis Fernando Veríssimo




Revolução Sexual

No meu tempo (ali pela Renascença) namorar era como uma lenta conquista de territórios hostis. Avançávamos no desconhecido como desbravadores do Novo Mundo. Centímetro a centímetro, mentira a mentira. Em nenhuma outra atividade humana, salvo, talvez, a diplomacia, se mentia tanto como num namoro. E o objetivo era o mesmo da diplomacia, conseguir com palavras o que não se conseguia com a força. Negociava-se cada palmo.

- Pode, mas só até aqui.

- Está bem.

- Jura?

- Juro.

- Você passou! Você mentiu!

- Me distraí.

Na verdade, não mentíamos para vocês, mentíamos por vocês. Dávamos a vocês todos os álibis. O que quer que acontecesse, era por nossa insistência, não porque vocês também queriam. Calhorda era quem dizia, abjetamente, a verdade, e não fazia o que jurava que não ia fazer, e vocês queriam que fizesse. Cavalheiros eram os que diziam que só queriam ver, não iam tocar, e tocavam.

Hoje, pelo que me contam, não há mais este cerimonial. Desgraçadamente, as coisas começaram a mudar justamente quando eu entrei para uma ordem religiosa, a dos monógamos. A revolução sexual, que um dia ainda vai ser comemorada como a Revolução Francesa, com a invenção da pílula correspondendo à queda da Bastilha e o fim do sutiã ao fim da monarquia absoluta - e o termo sans culote, claro, adquirindo novos significados - desobrigou o homem de mentir para proteger a reputação da mulher. Aliás, ouvi dizer que agora a mentira mais usada pelo homem durante um namoro é "Hoje não, querida, estou com dor de cabeça".

Mas só quem viveu antes da revolução conhece as delícias da repressão. Esta geração jamais conhecerá a doce aflição de tentar desengatar um sutiã com dedos trêmulos, e finalmente conseguir quando já se começava a pensar num maçarico, só para ter que engatá-lo de novo às pressas porque a mãe dela vinha vindo.

Acho que foi isso que nos tornou mais fortes.

19/8/2000
Luís Fernando Veríssimo ©

Ceres Marylise




Reencontro

Não deixem eu calar minha saudade agora;
busquei o mundo, passei muito tempo fora.
Ponham copos nesta mesa abandonada,
onde jogamos cartas e destinos.

Não abram as janelas já tão carcomidas
pelo tempo passado, pó da vida,
nesta casa que gentil nos abrigou
em algazarras e momentos distraídos.

As gavetas devem estar abarrotadas
de tanta coisa inútil e empoeirada:
poemas murchos, flores ressecadas,
entristecidos à espera de algum gesto.

Não acendam a luz, meus pés conhecem,
os vícios dos degraus, os corredores,
as portas que abrem sempre suas asas
aos quartos amplos e acolhedores.

Ouço risos de crianças pela sala
a deslizar no já gasto corrimão
sobre colchões das camas retirados,
sempre correndo em busca de emoção.

Nas paredes há sombras que estremecem
com o bater dos corações, velhos rumores,
que preencheram um dia minha infância
e me mostraram um mundo de bonança.

Quero sentar-me no colo da mamãe,
adormecer com histórias do papai,
e despertar ao som dos passarinhos
que trinavam saltitantes nos beirais.

Agora parto, saciada de fantasmas:
são eles que abrem a porta do jardim
e ternamente beijam minhas faces.
Já vou, já vou! Só vim saber de mim.

Ceres Marylise ©
Itabuna (BA) - Brasil

Publicada em:
www.rodadeleitura.com
www.recantodasletras.com.br

Vincent Van Gogh


Noon rest from work (Descanso ao Meio-Dia)
"(...) Jean-François Millet (1814-1875) exerceu sobre Vincent Van Gogh (1853-1890) uma forte influência. Foi como um pai espiritual e um mestre para Van Gogh. Em 1882, quando o gênio holandês descobriu a biografia de Millet escrita por Alfred Sensier, ele já copiava havia dois anos, a partir de gravuras e fotografias, os trabalhos do "pintor de Barbizon", que tinha visto na exposição de um leilão no Hotel Drouot. E, para ele, na febre da sua leitura, rapidamente o livro suplantou a Bíblia.Nas cenas do campo, eles exprimem a dimensão religiosa da natureza e daqueles que vivem dela e para ela. É nos gestos dos camponeses, eternamente recomeçados, que atingem a mais bela expressão da eternidade divina.
Durante todo o período holandês, Van Gogh viu em Millet o modelo absoluto, porém, desde a sua chegada a Paris e depois à Provença, em 1888, ele enriqueceu a temática rural com uma técnica autônoma e com os novos elementos que caracterizariam toda a sua obra futura, adquirindo uma identidade própria. Sem nunca abandonar o seu mestre, ficam evidentes as marcas de seu contato com os impressionistas, com Delacroix e com Gauguin."
(Trecho do artigo de Sheila Leirner sobre a exposição de Van Gogh e Millet no Museu d'Orsay, em Paris)

Selecionei o trecho, uma vez que a tela acima, minha preferida, é exatamente deste período da influência de Millet. Essa tela me é tão especial que tenho uma réplica em minha sala. Para ver mais obras de Vincent Van Gogh é só clicar na imagem.

Fernando Pessoa




Abdicação

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho. Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa
(In Cancioneiro)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sylvia Cohin




Sou a Poesia

Sou deleite sutil, eu sou mistura

de emoções que em rimas se sucedem.
Vestindo na palavra a forma pura,
desenho o cálido perfil do Éden...
Sou vaidosa, ardente, feiticeira,
dos poetas sou magia e sedução,
com mil vozes sou divina cantadeira
que confunde o pulsar do coração.

Sou a eterna musa apaixonada

galopando em versos, atrevida,
partindo por aí em desfilada
na garupa dos mistérios desta vida!
Sou profunda, meu mergulho é abissal
no ponto extremo onde se acaba a luz.
Sou a coragem que se reza no missal,
sou tudo aquilo que o sentir seduz...

Palavra reta que nunca se amofina,

sou inefável mesmo quando instigo.
Eu sou dos desesperos a morfina
e sou dos descalabros o castigo.
Fonte do instinto e da loucura,
de tão afoita me querem por à margem
pelo incômodo que causa esta bravura
de vencer a censura com coragem!

Pouco me importa se me fecham portas

meu canto mágico abre os corações
rompe sentimentos e comportas,
e o tônus libera às emoções!
Sou dos amantes a suave algema,
e a Ternura visto de magia.
Morto o poeta, rasgado o poema,
a Vida ainda em versos eu cingia!
Não se extingue a Vida da Poesia!

© Sylvia Cohin
Salvador (BA) – Brasil
www.chavedapoesia.blogspot.com

Chico Buarque




Por mim, toda sua obra seria editada aqui, mas teria de ser um blog exclusivamente dele, então deixo com vocês Futuros Amantes, uma de suas mais belas composições.
Cliquem na imagem tirada pela tiete em seu último show no Rio de Janeiro.
http://www.chicobuarque.com.br/

Rivkah Cohen




É assim...

É assim,
a água vai baixando,
não nos importamos,
continuamos a seguir,
ir levando..

De repente
vem uma sede tamanha
que nos desespera,
que não vê rota nem seta
e o pior, não adianta!

Fica só a lembrança
de um lago
que secou com a esperança
de um barco..

rivkahcohen ©
Brasília (DF) - Brasil

http://www.rivkah.com.br/

Artur da Távola




As Mulheres Azuis

Ao fim do jantar, falava-se sobre televisão, violência, filmes de terror e crimes, besteirol dos auditórios, alguém lembrou a inocência das séries antigas, Os Intocáveis, Bonanza, Perdidos no Espaço, Caldeira do Diabo, Dr. Kildare, estrelada por Richard Chamberlain, então jovem.

Ao mencionarem o nome deste, notei leve sorriso e brilho nos olhos de tranqüilo azul da linda mulher ao meu lado.

Bonitas buscam bonitos, sei, porém não desisti e lhe perguntei, de chofre: “Você achava o Richard Chamberlain bonito, não é?” Ela assentiu em discreto sorriso, ainda sem saber se era um modo de eu puxar conversa, de agradá-la, ou percepção aguçada – de minha parte - do que com ela se passava (o que a tornaria vulnerável). Sorriu, silenciosa, no eterno enigma das mulheres.

Pousou seu azul olhar no passado, e por certo lhe vieram à memória emotiva os embates amorosos que enfrentou por ser linda, desejada e sedutora numa sociedade que lhe ensinou monogamia e (vá lá...), a fidelidade.

Minha atenção ousou interpretar o brilho encabulado de seu olhar azul. Mulheres lindas são princesas aprisionadas em torres de castelos inexpugnáveis. Não será este cronista tão desajeitado, o passo cambaio, algo tronchudo, não será ele que falará de beleza com conhecimento de causa. Posso, sim, avaliar e admirar (na proporção inversa da possibilidade de fruir). Hoje sei apreciar a beleza e a solidão da mulher linda, com a desambição de quem já a sabe impossível para si, sei admirar sua resistência a olhares, a paixões rimbombantes, a cortejadores sutis ou rombudos, a homens que amaria e não pode. Ah ser carente do amor de quem ama mesmo sabendo-o aquém. Ah ter que esconder, calar, disfarçar, ver sem olhar, olhar sem ver, sempre olhada e perseguida por inveja ou paquera.

Comoveu-me aquela mulher azul, serena e poderosa, certamente perseguida por quilômetros de olhares, atrações e galanteios, a contentar-se com guardar para si o enorme poder de ser bela.

Olhei-a várias vezes, sempre encantado, enquanto ela “azulzava”, fingindo não perceber. Mulher sempre sabe quando está a ser olhada; encabulou e não demonstrou, até que reduziu-me a pó com a seguinte e humilhante frase:

“E o senhor, gosta de cinema?”

sexta-feira, 6 de março de 2009

Fernanda Montenegro


Assista à magnífica atriz ofertando-nos mais
um show até em mensagem motivacional.
Vale a pena pelo texto e pelo tatento da Grande
Dama do Teatro, Cinema e TV.
Renove-se! Siga o caminho das estrelas clicando
na imagem.

Mercília Rodrigues




Queda

Já estive, senhor, no topo da escada!
Perdi-me nas luzes, em devaneios...
Sempre vislumbrei o efêmero, encantada
Senhora da vaidade, sem receio.

Escalando o perigo, desta vida...
Enquanto as luzes de neon entontecem,
Vagava entre a luxúria embevecida,
Com as vagas promessas que enlouquecem!

Mas... é fugaz a escada de ventura,
Resvalei nos degraus dessas benesses.
Caí, em noites encharcadas de amargura!

Se não houvesse a mão que a queda aquece,
Ter-me-ia, chafurdado, em lama escura,
Caindo, aos pés da ilusão que se fenece!

© Mercília Rodrigues
Araçatuba (SP)

Thais S. Francisco



Sempre Amiga!...

Se tiveres em teu olhar uma lágrima
nascida da tristeza, divida-a comigo,
chorarei contigo.

Se a alegria me trouxer o brilho de um sorriso,
este eu entregarei a ti, inteirinho,
só para te ver feliz!

Se algum dia a vida te parecer sem cor alguma,
trarei flores, de todas as cores,
farei delas o teu arco-íris...

Se da noite a escuridão te assustar,
pedirei que a Lua prateie a tua estrada,
e, às estrelas, que guiem teu caminhar...

Se algum dia esqueceres como orar,
juntarei minhas mãos , dobrarei meus joelhos,
e ao Pai orarei por ti..

Mas, se algum dia nada souberes de mim,
me procures, tente me encontrar, talvez
eu tenha me perdido
e de tuas mãos, as minhas
estarão esperando...

Sou tua Amiga,
de ontem,
de hoje,
e de todos os amanhãs...

Thais S Francisco
"beijaflor"
São José dos Campos (SP) - Brasil


Conheça a sensibilidade de Thais, visitando-a em seus sites "Simplesmente Beija-Flor" e "Codinome Beija-Flor"

quinta-feira, 5 de março de 2009

Florbela Espanca




Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida

Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...

Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,

Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Martha Medeiros




Mulheres Possíveis

Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou:
Trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho. Você não é Nossa Senhora. Você é, humildemente, uma mulher. E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.
Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias. Cinco dias! Tempo para uma massagem. Tempo para ver a novela. Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza. Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto. Tempo para conhecer outras pessoas. Voltar a estudar. Para engravidar. Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado. Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem. Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si. Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela. Desacelerar tem um custo.
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C. Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores. E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.”

Revista do Jornal O Globo

Clarice Lispector



Carta

Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro… há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu… Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma.
(1947 Berna - Suíça / Carta à irmã)

Eliane F. C. Lima



O Eterno Inverno

Bem-vindo o certo e necessário inverno,
Que leva embora as folhas amarelas,
Livrando a amendoeira do inferno,
De arrastar o velho e o gasto junto a elas.

Logo a nova estação é nova vida:
De um tempo infeliz vai-se a lembrança,
Remoça o tronco que já não se cansa,
Se o verde traz a condição perdida.

Meu corpo tão usado e desigual,
Mantém eternamente o antigo mal,
Que soma peso ao mal de novas eras;

Meus doidos sofrimentos não se vão,
Não vêm novos sonhos com a estação
E eu sempre temo outras primaveras.

(20/08/2006 – Praia Linda).
Eliane F. C. Lima
Rio de Janeiro (RJ) - Brasil
Conheça mais sobre a autora, visitando seus blogs:

quarta-feira, 4 de março de 2009

Cecília Meireles



Mulher ao espelho

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.


Lêda Mello




Libertação

Cansei de ser ninho, de ser só abrigo.
Eu quero ser ave, levantar meus vôos,
Cruzar o espaço, descortinar horizontes,
Buscar outros ninhos para me abrigar.

Cansei de ser porto, ser sempre chegada.
Eu quero ser barco, levantar âncoras,
Singrar outros mares, provar novas águas,
Buscar outros portos, por onde aportar.

Cansei de ser platéia, apenas ouvinte.
Eu quero ser palco, mostrar-me na luz,
O próprio espetáculo, cenário e festa,
Fazer de mim mesma o espetáculo maior.

Cansei de calar, de ser só espera.
Eu quero gritar, mostrar o que sou,
Receber da vida o que é meu, por direito,
Quebrar meus grilhões, ser livre, VIVER!

© Lêda Mello
Arapiraca (AL) - Brasil

terça-feira, 3 de março de 2009

Silvana Duboc



Ser Mulher...

Ser mulher é viver mil vezes em apenas uma vida,
é lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora,
é estar antes do ontem e depois do amanhã,
é desconhecer a palavra recompensa
apesar dos seus atos.
Ser mulher é caminhar na dúvida cheia de certezas,
é correr atrás das nuvens num dia de sol
e alcançar o sol num dia de chuva.
Ser mulher é chorar de alegria
e muitas vezes sorrir com tristeza,
é cancelar sonhos em prol de terceiros,
é acreditar quando ninguém mais acredita,
é esperar quando ninguém mais espera.
Ser mulher é identificar um sorriso triste
e uma lágrima falsa,
é ser enganada e sempre dar mais uma chance,
é cair no fundo do poço e emergir sem ajuda.
Ser mulher é estar em mil lugares de uma só vez,
é fazer mil papeis ao mesmo tempo,
é ser forte e fingir que é frágil pra ter um carinho.
Ser mulher é se perder em palavras
e depois perceber que se encontrou nelas,
é distribuir emoções que nem sempre são captadas.
Ser mulher é comprar, emprestar, alugar,
vender sentimentos, mas jamais dever,
é construir castelos na areia,
vê-los desmoronados pelas águas
e ainda assim amá-las.
Ser mulher é saber dar o perdão,
é tentar recuperar o irrecuperável,
é entender o que ninguém mais conseguiu desvendar.
Ser mulher é estender a mão a quem ainda não pediu,
é doar o que ainda não foi solicitado.
Ser mulher é não ter vergonha de chorar por amor,
é saber a hora certa do fim,
é esperar sempre por um recomeço.
Ser mulher é ter a arrogância de viver apesar dos dissabores,
das desilusões, das traições e das decepções.
Ser mulher é ser mãe dos seus filhos
e dos filhos de outros e amá-los igualmente.
Ser mulher é ter confiança no amanhã
e aceitação pelo ontem,
é desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos
e fincar a bandeira da conquista.
Ser mulher é entender as fases da lua
por ter suas próprias fases.
É ser "nova" quando o coração está a espera do amor,
ser "crescente" quando o coração está se enchendo de amor,
ser cheia quando ele já está transbordando de tanto amor
e minguante quando esse amor vai embora.
Ser mulher é hospedar dentro de si o sentimento do perdão,
é voltar no tempo todos os dias
e viver por poucos instantes coisas
que nunca ficaram esquecidas.
Ser mulher é cicatrizar feridas de outros
e inúmeras vezes deixar as suas próprias feridas sangrando.
Ser mulher é ser princesa aos 20,
rainha aos 30, imperatriz aos 40
e especial a vida toda.
Ser mulher é conseguir encontrar uma flor no deserto,
água na seca e labaredas no mar.
Ser mulher é chorar calada as dores do mundo
e em apenas um segundo já estar sorrindo.
Ser mulher é subir degraus
e se os tiver que descer não precisar de ajuda,
é tropeçar, cair e voltar a andar.
Ser mulher é saber ser super-homem quando o sol nasce
e virar cinderela quando a noite chega.
Ser mulher é ter sido escolhida por Deus
para colocar no mundo os homens.
Ser mulher é acima de tudo um estado de espírito,
é uma dádiva,
é ter dentro de si um tesouro escondido
e ainda assim dividi-lo com o mundo!
Silvana Duboc
Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

Gilia Gerling



Para conhecer mais a alma de Gilia Gerling
é só clicar na imagem.

Marina Colasanti




Para que ninguém a quisesse

Porque os homens olhavam demais para a sua mulher, mandou que descesse a bainha dos vestidos e parasse de se pintar. Apesar disso, sua beleza chamava a atenção, e ele foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes, jogasse fora os sapatos de saltos altos. Dos armários tirou as roupas de seda, da gaveta tirou todas as jóias. E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia à passagem dela, pegou a tesoura e tosquiou-lhe os longos cabelos.
Agora podia viver descansado. Ninguém a olhava duas vezes, homem nenhum se interessava por ela. Esquiva como um gato, não mais atravessava praças. E evitava sair.
Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se dela, permitindo que fluísse em silêncio pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras.
Uma fina saudade, porém, começou a alinhavar-se em seus dias. Não saudade da mulher. Mas do desejo inflamado que tivera por ela.
Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de seda. À noite tirou do bolso uma rosa de cetim para enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.
Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava mais em lhe agradar. Largou o tecido em uma gaveta, esqueceu o batom. E continuou andando pela casa de vestido de chita, enquanto a rosa desbotava sobre a cômoda.

In: Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. P. 111-2.

Elis Regina



Pura emoção com Elis Regina Carvalho Costa.
É só clicar na imagem para ver o vídeo.

Essa Mulher - Joyce / Ana Terra


De manhã cedo, essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah. como essa santa não se esquece de pedir pelas mulheres
Pelos filhos, pelo pão
Depois sorri, meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo
Que a faz, assim, feliz
De tardezinha, essa menina se namora
Se enfeita, se decora, sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia, qualquer dia
Entender de ser feliz
De madrugada, essa mulher faz tanto estrago
Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ah, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece
Nessa boca, nesse chão
Depois, parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo
Que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora
Em que esbarro toda hora
No espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural.

domingo, 1 de março de 2009

Rosa Pena



Um corpo em poema

— Assumo:

Eu sou os pés
do encontro.
A mão que desliza
pelo proibido.
A razão sem sentido.
Emoção!
A face do beijo
os lábios do desejo.
O prazer que desbrava o corpo
a pele que arrepia.
A nudez.
O sexo que dispensa as vestes.
O verso e a prosa
palavras sem conceitos de pudor.

— Resumo:

Eu sou a pornografia
em forma de poesia
que adora lhe atormentar
meu amor.


Rosa Pena
Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

http://www.rosapena.com/

Georgina de Albuquerque


Domingo na Quinta da Boa Vista



Leila Ferreira



Prazer pela metade

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido... Uma só.

Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa. Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.

O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.

A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade. A gente sai pra jantar, mas come pouco.

Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.

Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil').

Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.

Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo.

Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar. E por aí vai.

Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação...

Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão...

Às vezes dá vontade de fazer tudo 'errado'... Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.

Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim: 'Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora'...

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo.
Um dia.
Não tem que ser agora.

Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate, um sofá pra eu ver 10 episódios do 'Law and Order', uma caixa de trufas bem macias e o Richard Gere, nu, embrulhado pra presente. OK?
Não necessariamente nessa ordem.

Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.

Leila Ferreira é jornalista e adora colecionar histórias das loucuras e das manias femininas. É autora do livro Mulheres: Por que Será que Elas...? - Editora Globo.

Visite o blog da jornalista:

http://colunas.marieclaire.globo.com/nosmulheres/

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Madre Teresa de Calcutá




"Muitas vezes as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas. Perdoe-as assim mesmo! Se você é gentil, podem acusá-lo de egoísta, interesseiro. Seja gentil assim mesmo! Se você é um vencedor terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros. Vença assim mesmo! Se você é bondoso e franco poderão enganá-lo. Seja bondoso e franco assim mesmo! O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para a outra. Construa assim mesmo! Se você tem paz e é feliz, poderão sentir inveja. Seja feliz assim mesmo! O bem que você faz hoje, poderão esquecê-lo amanhã. Faça o bem assim mesmo! Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante. Dê o melhor de você assim mesmo! Veja você que, no final das contas é entre você e Deus. Nunca foi entre você e os outros!"

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Marise Ribeiro




Sou a todo o momento emoção,
Sensibilidade à flor da pele...
Escrava dos gritos do coração,
Arrasto meu elenco de sentimentos...
Se forem bons ou maus, não importa...
Deus me fez assim: Imperfeita!
Quem não me aceitar nem me amar,
Que feche em minha cara sua porta.
Espalho pelo vento minhas verdades,
E faço da justiça a minha seita.
Não me deixem em seus corações entrar,
Se permitirem, vou de mala e cuia pra ficar...
Para as emoções que gerem boa colheita
E me façam cada vez mais germinar,
Tenho um ávido olhar à espreita...
Neste palco da vida nada é comum,
E para quem minha alma enfeita

Eu abro as cortinas do Scenarium!